quinta-feira, 18 de dezembro de 2014

Sebastião Salgado faz chamado à ação para salvar o planeta


O fotógrafo brasileiro Sebastião Salgado deu a volta ao mundo para documentar os extremos da globalização, da migração e territórios não mapeados, mas se mostra mais incomodado pela pilhagem irresponsável que a humanidade faz do planeta, uma visão que ele considera mortalmente estreita.

Em visita a Hong Kong para promover “Gênesis”, uma exposição de fotos, resultado de uma expedição de oito anos ao redor do mundo, o fotógrafo de 70 anos afirmou que o ímpeto humano em subjugar a natureza está levando a Terra à beira da extinção.

“Se não nos voltarmos para o nosso planeta, não permaneceremos aqui por muito tempo”, disse Salgado em entrevista à AFP. “Não somos mais parte do nosso planeta, nós viramos alienígenas”, prosseguiu.

O fotógrafo documentarista viajou para mais de cem países, incluindo Ruanda, Guatemala e Bangladesh documentando alguns dos maiores horrores do mundo moderno: a fome, a guerra, a pobreza e o deslocamento.

Seus retratos dramáticos de paisagens remotas, dizimadas e vulneráveis ou de comunidades exploradas – como trabalhadores de cemitérios de navios em Bangladesh a garimpeiros no Brasil – inspiraram gerações de fotógrafos.

Criado no interior de Minas Gerais, Salgado se formou em Economia antes de se voltar para a fotografia. Começou a fotografar na casa dos 20 anos com uma câmera emprestada pela esposa e, embora só mais tarde tenha se dedicado a esta profissão, ele sabia desde o princípio ter encontrado sua vocação.

“Desde a primeira vez em que eu olhei através de um visor, a partir daquele momento, minha vida mudou”, contou Salgado.

Humanos predadores

Ele virou profissional no começo dos anos 1970 e desde então ganhou uma avalanche de prêmios de prestígio e suas fotos passaram a compor os acervos de galerias importantes, como a Barbican Gallery, em Londres, e o International Center of Photography, em Nova York.

No final dos anos 1990, ele foi forçado a fazer um intervalo, após cobrir o genocídio em Ruanda, onde documentou inúmeras mortes, uma experiência que teve um alto preço psicológico.

Salgado lembra o mau cheiro assolador dos cadáveres em decomposição enquanto observava pilhas de corpos sendo depositadas no chão por retroescavadeiras, uma visão que se fixou em sua memória.
“Eu comecei a morrer, meu corpo começou a adoecer”, afirmou.

Para se recuperar, ele decidiu voltar à fazenda no Brasil, onde passou sua infância.
“Eu cresci numa área montanhosa. Eu lembro que meu pai caminhava comigo pelas plantações, andávamos até a parte mais alta da fazenda e sentávamos ali por horas vendo aquelas incríveis nuvens e as luzes passando por elas. Era grandioso”, relatou.

Mas, para seu pavor, lagos secaram e grande parte da floresta tropical tinha sido derrubada pelo desmatamento.

Quando seu corpo e mente começaram a se curar, ele decidiu, ao lado da esposa, Lélia, replantar a floresta que existiu ali um dia.

“Hoje, nós plantamos mais de 2,5 milhões de árvores, a floresta tropical voltou. Salvamos as onças, temos mais de 170 espécies diferentes de aves”, contou.

Marido e mulher gerenciam a Amazonas Images, que controla a pesquisa, a produção e a publicação das fotos de Sebastião Salgado.

As espetaculares fotos de natureza de Salgado – pinguins deslizando por geleiras, um babuíno solitário cruzando dunas de areia, água gotejando da cauda de uma baleia – são acompanhadas pelas duras críticas aos seres humanos, aos quais ele descreve como “profundos predadores”.

“Começamos a destruir tudo, começamos a domesticar o gado e a colocá-lo numa prisão, nós o criamos às dezenas de milhares e milhões (de cabeças) para que possamos comê-lo”, exemplificou.
Sua assombrosa coleção de imagens é amplamente considerada um chamado à ação para que os seres humanos preservem o que ainda têm.



Fonte: www.noticias.uol.com.br

quarta-feira, 17 de dezembro de 2014

Pesquisa mostra que brasileiro se preocupa com meio ambiente e cobra papel do governo


Além do futebol, o brasileiro acaba de revelar que tem outra paixão. Uma pesquisa nacional encomendada pelo WWF-Brasil aponta que a maior parte da população tem um forte sentimento de orgulho pelo meio ambiente e as riquezas naturais do país. A maioria sabe da importância das áreas protegidas para o bem estar humano e acha que a natureza não está sendo tão bem cuidada como deveria. Os resultados foram apresentados esta semana em Sidney, na Austrália, durante o Congresso Mundial de Parques.

A pesquisa feita pelo Ibope durante a segunda quinzena de outubro com cerca de duas mil pessoas em todas as regiões, buscou entender como a população brasileira se relaciona com as unidades de conservação, como parques, reservas e outras áreas protegidas.

Os dados mostram que 58% dos entrevistados têm no meio ambiente um motivo de brasilidade. Esse mesmo sentimento faz bater o coração de 37% da população quando o tema é diversidade cultural, e 30% afirmam que têm no esporte a razão para exaltar sua brasilidade.

O brasileiro também está ciente do papel das áreas protegidas para o bem estar de todos. Entre os entrevistados, 65% afirmaram que a proteção da fauna e da flora é um dos benefícios dessas áreas.

A população também sabe que proteger o meio ambiente significa garantir a proteção das nascentes, represas e rios, as principais reservas de água para o consumo humano. Essa relação está clara para 55% dos que responderam à pesquisa.

Para 48% dos pesquisados, as áreas protegidas ajudam a melhorar a qualidade do ar; 34% identificam nesses locais uma oportunidade para o descanso e o lazer e 25% enxergam perspectivas econômicas a partir da conservação do meio ambiente.

"O que a pesquisa deixa claro é que há um descompasso entre as políticas públicas de meio ambiente no Brasil e os anseios da população. Apesar do apreço que o brasileiro tem pelas áreas naturais, da importância delas na vida cotidiana das pessoas, esse tema não é uma prioridade nacional do ponto de vista dos governos", afirma Maria Cecília Wey de Brito, CEO do WWF-Brasil.

Exemplo disso, diz ela, é o fato de que no recente debate eleitoral, o tema ambiental ficou na escuridão. "E foi isso que nos inspirou a fazer a pesquisa. Achamos que os políticos ainda não percebem o quanto o meio ambiente pode beneficiar o país. E o pior: não são capazes de perceber que a proteção ambiental é uma expectativa nacional."

Segundo a CEO, as áreas protegidas ajudam a conservar a água que abastece desde a agricultura até o consumo doméstico. As florestas e outros ecossistemas também colaboram no equilíbrio do clima, no regime de chuvas e fornecem uma diversidade enorme de outros serviços, como matérias-primas para medicamentos, alimentos e cosméticos. Têm, portanto, um papel econômico que ainda não está sendo considerado.

"Será que vamos ter de sofrer outra crise como a da água em São Paulo para começar a dar valor à conservação do meio ambiente?", pergunta Wey de Brito. Segundo ela, a resposta dada pelo governo de São Paulo na questão hídrica foram obras que gastarão R$ 3,5 bilhões. "E não vai nada para a conservação dos mananciais. Não está certo".

A falta de atenção com o meio ambiente é uma preocupação do brasileiro que se reflete na pesquisa encomendada pelo WWF-Brasil. De cada dez entrevistados, oito consideram que a natureza não está protegida de forma adequada. Apenas 11% acham que sim.

"De fato, nosso sistema nacional de unidades de conservação nunca esteve tão ameaçado quanto agora. E isso está ocorrendo com anuência do Congresso Nacional por meio de projetos de lei e uma avalanche de pedidos de licença para mineração e construção de grandes obras de infraestrutura", adverte Jean François Timmers, Superintendente de Políticas Públicas do WWF-Brasil.

Todas essas são atividades que podem gerar muito desmatamento. E 27% dos entrevistados veem no corte raso das florestas uma das principais ameaças à natureza. A poluição das águas vem em segundo lugar, com 26%. Caçar e pescar em locais proibidos são motivos de preocupação para 19% dos entrevistados. Outras ameaças apontadas na pesquisa são as grandes obras de infraestrutura e as mudanças climáticas.

E para resolver esse problema nacional, 74% dos entrevistados acham que o governo deve agir em primeiro lugar. Em segundo, são os cidadãos que devem tomar a frente (46%). AS ONGs também foram citadas. Para 20% dos brasileiros ouvidos na pesquisa, essas organizações têm papel importante na hora de cuidar das unidades de conservação.

"Precisamos de um pacto amplo, que envolva todos os setores, para mudar o cenário atual e posicionar a conservação da natureza e as áreas protegidas como prioridades reais na agenda do governo nos próximos quatro anos", afirma Timmers. "Não dá mais para esperar, os resultados dessa negligência estão batendo à nossa porta".



Fonte: www.ciclovivo.com.br

terça-feira, 16 de dezembro de 2014

Atropelamentos de animais


Quando se fala em ameaças à biodiversidade brasileira, pouco se destaca os atropelamentos de animais silvestres. Normalmente o foco está em perda de hábitat, o que não está errado tal a dimensão desse problema causado pela expansão urbana e de áreas para agricultura e pecuária.

Mas os atropelamentos de fauna merecem mais atenção. De acordo com estimativa do coordenador do Centro Brasileiro de Estudos em Ecologia de Estradas, Alex Bager (doutor em Ecologia pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul e professor na Universidade Federal de Lavras), 475 milhões de animais silvestres morrem atropelados todos os anos nas estradas e rodovias brasileiras. Sem dúvida, é uma das maiores ameaças à biodiversidade!

Bager se baseou em taxas de atropelamento de 14 artigos científicos publicados no Brasil, abrangendo nove Estados. Os dados foram reunidos e extrapolados para toda a malha de estradas do Brasil (1,7 milhão de quilômetros), considerando as diferenças entre elas (de terra ou de asfalto e se era federal, estadual ou municipal, por exemplo). “Ainda trabalhei com outros fatores de correção, pois sabemos que estradas com maior fluxo de veículos têm mais atropelamentos. Também considerei o número de veículos de cada estado em relação à extensão das rodovias”, explica o pesquisador.

As principais vítimas são os anfíbios, os répteis, as aves e os pequenos mamíferos, apesar de os casos envolvendo os mamíferos de médio e grande porte (como onças, lobos-guarás e tamanduás-bandeira) chamar a atenção por serem mais fáceis de visualizar e por ser alvo de matérias da imprensa. Cachorros-do-mato, gambás, capivaras, tatus, lagartos e algumas espécies de corujas quase sempre estão nos levantamentos entre os mais atropelados.

Estradas e rodovias inevitavelmente dividem os habitats dos animais silvestres. Mesmo em áreas onde a vegetação nativa já não existe ou não predomina, como em localidades com atividades agropecuárias, inúmeras espécies adaptadas ao ambiente modificado ou atraídas por uma eventual oferta de alimentos acabam se deparando com as vias de circulação de veículos. Para algumas, a novidade funciona como barreira e ocorre o afastamento. Para outras tantas, essa barreira é apenas mais um obstáculo para se chegar ao outro lado. Um obstáculo que pode ser fatal.

Infraestrutura inadequada e falta de ações de conscientização dos motoristas são apontadas pelos especialistas como as principais causas do massacre. Como é recente a preocupação com os animais silvestres na construção de estradas, a maior parte da malha rodoviária brasileira não está preparada para evitar os atropelamentos de fauna. Ainda é raro encontrar placas informando a presença de animais silvestres ou determinando a redução de velocidade por esse motivo, estruturas para travessia (passagens inferiores e superiores, por exemplo), mata-burros, cercas para evitar o acesso ou direcionadoras para um ponto e travessia, ampliação de canteiro central e das áreas laterais ou a preocupação com a retirada de carcaças para não atrair mais animais.

Desde 1986, com a Resolução CONAMA nº 01, toda construção de estrada com duas ou mais faixas de rolamento deve ser precedida de estudo de impacto ambiental para obter sua licença. Apesar da legislação existente, o atropelamento de fauna não tem sido tratado com o rigor que merece. “O licenciamento, tanto de rodovias em implantação quanto já operantes, ainda é frágil nas exigências de informações sobre esse tema. E isso ocorre tanto no tipo de informação requerida dos empreendedores quanto na qualidade da mesma”, afirma o biólogo Andreas Kindel, professor da Universidade Federal do Rio Grande do Sul e coautor do Conecte - Guia de Procedimentos para Mitigação de Impactos de Rodovias sobre a Fauna. A obra é uma síntese do atual conhecimento sobre os impactos na fauna e sobre como reduzir danos causados.

Apesar de preocupante, a situação tende a melhorar. De acordo com o outro autor do Conecte, o biólogo e coordenador do Núcleo de Licenciamento Ambiental do IBAMA do Rio Grande do Sul, Mozart da Silva Lauxen, “o avanço da incorporação desse tema no processo de licenciamento ambiental tem sido bastante rápido. Em cerca de uma década, partimos praticamente da desconsideração do problema para a adoção de medidas objetivas e fundamentadas tecnicamente”, salienta.

Em outubro de 2011, com a Portaria Interministerial 423, envolvendo os ministérios do Meio Ambiente e dos Transportes, foi criado o Programa de Rodovias Federais Ambientalmente Sustentáveis para a regularização ambiental das rodovias federais que não possuem licença ambiental. A iniciativa determina a realização de programas de monitoramento de fauna com a consequente adaptação da via para evitar e reduzir os atropelamentos.

Soluções

Mesmo sem haver uma única solução aplicável para todas as situações em que é necessária a implantação de estruturas para evitar atropelamentos de animais silvestres, uma ação é consensual entre os especialistas: conscientizar os motoristas e as comunidades próximas dos locais problemáticos. O que raramente é feito.

Para os motoristas, ter e seguir orientações de redução de velocidade são fundamentais para evitar acidentes com animais. “Um estudo na Austrália sugere que uma redução de 20% na velocidade diminuiria em 50% a mortalidade. Essa é uma estratégia que pode ser adotada, sobretudo, em rodovias de menor fluxo e em trechos próximos a áreas especialmente sensíveis, como unidades de conservação”, salienta Kindel.

Deve-se salientar que as ações para reduzir os atropelamentos devem ser compostas por variadas ferramentas (sinalização, conscientização, passagens de fauna, cercas, etc.), pensadas e estruturadas para cada caso.

Atropelamentos em números

• 15 animais morrem atropelados a cada segundo nas estradas e rodovias do Brasil.
• 1.260.000 animais morrem atropelados por dia nas estradas e rodovias do Brasil.
• 475.000.000 de animais morrem atropelados por ano nas estradas e rodovias do Brasil.
• 90% das mortes são de pequenos vertebrados, como sapos, cobras e pequenas aves.
• 9% das mortes são de vertebrados de médio porte, como gambás, lebres e macacos.
• 1% das mortes é de vertebrados de grande porte, como onças-pardas, lobos-guarás, onças-pintadas, antas e capivaras.
• Animais podem ser afetados a mais de 1.000 metros da estrada ou rodovia.
• 1,7 milhão de quilômetros é a extensão da malha viária brasileira.
• Mais de 257.000.000 de animais morrem atropelados em estradas pavimentadas por ano no Brasil.
• Mais de 218.000.000 de animais morrem atropelados em estradas não pavimentadas por ano no Brasil.

Como agir

Motorista - Respeite os limites de velocidade e redobre sua atenção quando cruzar alguma área de natureza preservada, principalmente unidades de conservação. Lembre-se que estudos sugerem que uma redução de 20% na velocidade diminuiria em 50% a mortalidade de animais por atropelamento.
Procure sempre ter em mãos os números de telefone da Polícia Rodoviária (Federal ou Estadual, dependendo do caso) e da concessionária que administra a estrada (quando for o caso). Eles poderão ajuda-lo no caso de envolver-se em algum acidente com animais silvestres e, no caso de encontrar algum bicho ferido ou morto, informe os policiais ou algum funcionário da empresa que administra a via.
Para avisá-los, tenha os seguintes dados:
• local exato do atropelamento ou de onde o animal encontra-se;
• horário do fato; e
• se souber identificar, qual o animal envolvido.

NÃO mexa no animal. Se o animal estiver vivo e ferido, você pode piorar as lesões e o risco de ocorrer algum ataque é grande. Se o animal estive morto, não se exponha a doenças.

Proprietário de sítio ou fazenda - Evite abrir estradas. Se tiver de fazer, peça ajuda de profissionais para que a nova via tenha um traçado que impacte o menos possível a fauna local.



Fonte: www.faunanews.com.br

segunda-feira, 15 de dezembro de 2014

Lei de Crimes Ambientais - Nova redação de artigo prioriza soltura na apreensão


Na segunda-feira, 8 de dezembro 2014, foi sancionada a Lei 13.052, que altera o artigo 25 da Lei de Crimes Ambientais (9.605).

Texto antigo:
“Art. 25. Verificada a infração, serão apreendidos seus produtos e instrumentos, lavrando-se os respectivos autos.
§ 1º Os animais serão libertados em seu habitat ou entregues a jardins zoológicos, fundações ou entidades assemelhadas, desde que fiquem sob a responsabilidade de técnicos habilitados.”

Texto novo:
“Art. 25. Verificada a infração, serão apreendidos seus produtos e instrumentos, lavrando-se os respectivos autos.
§ 1º Os animais serão prioritariamente libertados em seu habitat ou, sendo tal medida inviável ou não recomendável por questões sanitárias, entregues a jardins zoológicos, fundações ou entidades assemelhadas, para guarda e cuidados sob a responsabilidade de técnicos habilitados.
§ 2º Até que os animais sejam entregues às instituições mencionadas no § 1o deste artigo, o órgão autuante zelará para que eles sejam mantidos em condições adequadas de acondicionamento e transporte que garantam o seu bem-estar físico.”

A proposta para essas alterações foi feita inicialmente em 2007 por meio do Projeto de Lei 2.162 (sendo que, no Senado, foi acrescentado o parágrafo 2º, transformando a proposta original no Projeto de Lei da Camará 147/2009). Aprovado no Legislativo, foi agora sancionado e entrou em vigor em 9 de dezembro 2014, com sua publicação no Diário Oficial da União.

A justificativa para a mudança foi a seguinte:
“O Decreto nº 3.179/99, que dispõe sobre a especificação das sanções aplicáveis às condutas e atividades lesivas ao meio ambiente, não define a prioridade para destinação de animais silvestres apreendidos, deixando vaga a ordem de preferência, que na prática fica a critério da autoridade que realiza a apreensão:

Art. 2º As infrações administrativas são punidas com as seguintes sanções:
(...) § 6º A apreensão, destruição ou inutilização, referidas nos incisos IV e V do caput deste artigo, obedecerão ao seguinte:
I - os animais, produtos, subprodutos, instrumentos, petrechos, equipamentos, veículos e embarcações de pesca, objeto de infração administrativa serão apreendidos, lavrando-se os respectivos termos;
II - os animais apreendidos terão a seguinte destinação:
a) libertados em seu habitat natural, após verificação da sua adaptação às condições de vida silvestre;
b) entregues a jardins zoológicos, fundações ambientalistas ou entidades assemelhadas, desde que fiquem sob a responsabilidade de técnicos habilitados; ou
c) na impossibilidade de atendimento imediato das condições previstas nas alíneas anteriores, o órgão ambiental autuante poderá confiar os animais a fiel depositário na forma dos arts. 1.265 a 1.282 da Lei nº 3.071, de 1º de janeiro de 1916, até implementação dos termos antes mencionados;
Não há, portanto, uma prioridade normativa para a destinação de animais silvestres sadios apreendidos. Alguns entendem que as alíneas do inciso II são hierárquicas, outros discordam. Resulta que a decisão se torna subjetiva, discricionária, quando deveria ser induzida.”

Só para organizar

O Decreto 3.179/99, que dispunha “sobre a especificação das sanções aplicáveis às condutas e atividades lesivas ao meio ambiente”, foi revogado pelo Decreto 6.514, de 2008, que “Dispõe sobre as infrações e sanções administrativas ao meio ambiente, estabelece o processo administrativo federal para apuração destas infrações, e dá outras providências.” E está no Decreto vigente o seguinte:
“Art. 105.  Os bens apreendidos deverão ficar sob a guarda do órgão ou entidade responsável pela fiscalização, podendo, excepcionalmente, ser confiados a fiel depositário, até o julgamento do processo administrativo.
(...) Art. 106.  A critério da administração, o depósito de que trata o art. 105 poderá ser confiado:
I - a órgãos e entidades de caráter ambiental, beneficente, científico, cultural, educacional, hospitalar, penal e militar; ou
II - ao próprio autuado, desde que a posse dos bens ou animais não traga risco de utilização em novas infrações.
Art. 107.  Após a apreensão, a autoridade competente, levando-se em conta a natureza dos bens e animais apreendidos e considerando o risco de perecimento, procederá da seguinte forma:
I - os animais da fauna silvestre serão libertados em seu hábitat ou entregues a jardins zoológicos, fundações, entidades de caráter cientifico, centros de triagem, criadouros regulares ou entidades assemelhadas, desde que fiquem sob a responsabilidade de técnicos habilitados, podendo ainda, respeitados os regulamentos vigentes, serem entregues em guarda doméstica provisória.”
Voltando à nova redação do artigo 25 da Lei de Crimes Ambientais, a grande alteração está na inclusão da palavra PRIORITARIAMENTE no parágrafo 1º e na determinação explicita de que o órgão autuante é o responsável pelo bem-estar do animal até que se consiga uma instituição para recebê-lo (parágrafo 2º).

Sobre o parágrafo 1º, a inclusão da palavra PRIORITARIAMENTE apenas organiza a interpretação do artigo 25. Deixar claro que a soltura do animal em seu hábitat deve ser a preferência quando se resgata o animal do tráfico ou do cativeiro doméstico ilegal, por exemplo, é importante, mas a nova redação desse artigo não resolve um problema que já se apresentava: o policial, agente do Ibama, do ICMBio ou de alguma secretaria estadual ou municipal com competência para apreender é o profissional mais indicado para avaliar o bicho, determinar que o mesmo tem origem naquela região e está em condições de sobreviver (tanto de saúde quanto de comportamento selvagem que o capacite a se defender de predadores, encontrar abrigo e buscar alimento e água, por exemplo)?

Com certeza, na grande maioria das apreensões, o profissional responsável pela repressão e fiscalização não tem formação para uma boa avaliação.

O que acontece hoje, e vai continuar acontecendo, é a realização de solturas com avaliações dos animais muito questionáveis incentivadas, sobretudo, pela inexistência de uma rede de centros de triagem e de reabilitação de silvestres (Cetas e Cras) que poderia dar um pronto atendimento e indicar quem pode ser solto imediatamente e quem deve ser apreendido para recuperação e destinação para projetos de soltura (esses com prioridade), criadouros conservacionistas e científicos, mantenedores de fauna e zoológicos. Essas entidades (criadouros e mantenedores de fauna e zoos) poderiam também integrar essa rede e auxiliar nessa primeira avaliação.

Para o animal resgatado seria ótimo que a prioridade fosse o retorno ao seu hábitat, mas desde que isso estivesse baseado em avaliações de profissionais capacitados para tal. Infelizmente, essa nova redação poderá reforçar as já rotineiras solturas sem critério realizadas por policiais (principalmente) e agentes de fiscalização que não têm para onde levar o bicho, principalmente com o novo parágrafo 2º (que deixa explícita a responsabilidade desses agentes em cuidar bem do animal até sua destinação). Para o poder público, que não investe em uma infraestrutura para receber os animais, esse aval – agora com o carimbo da “prioridade” – é ótimo por ajudar a reduzir essa demanda de serviço.

Dá para concluir que, o que parece bom, na verdade está resolvendo problemas dos agentes de fiscalização e do poder público.

Mais uma observação

Será que a nova redação do artigo 25 da Lei de Crimes Ambientais afetará a aplicação da Resolução 457/2013 do Conselho Nacional do Meio Ambiente (Conama) e, no Estado de São Paulo, da Resolução SMA 92/2014 – ambas abriram a possibilidade de o agente fiscalizador deixar os animais silvestres encontrados com as próprias pessoas que os mantinham sem autorização, isto é, com os infratores?

Com certeza não, já que não houve uma mudança significativa. Tanto a Resolução 457 do Conama, quanto a 92 da Secretaria do Meio Ambiente do Estado de São Paulo (vale lembrar que as duas foram feitas pelos paulistas), se baseiam na impossibilidade de cumprir o que determina o artigo 25 da Lei de Crimes Ambientais utilizando os artigos 105, 106 e 107 do Decreto 6.514, de 2008.

Os legisladores deveriam, na verdade, tentar resolver essa aparente contradição entre a Lei de Crimes Ambientais e o Decreto 6.514, de 2008. Quem sabe, para melhor, excluindo a possibilidade de o animal vítima do tráfico e do cativeiro doméstico ilegal ficar com o próprio infrator.



Fonte: www.faunanews.com.br

sexta-feira, 12 de dezembro de 2014

A verdade - Em todo o mundo se toma água de esgoto tratado


A verdade: em todo o mundo se toma água com merda tratada!

A opção de tratamento do esgoto e lançamento em grandes meios hídricos como as represas do sistema Guarapiranga é a melhor solução para a crise hídrica do estado de São Paulo, tuneis de armazenamento são soluções múltiplas que servem para diversos objetivos, como por exemplo, o combate a cheias urbanas, mas em cidades onde este problema não é preocupante a primeira solução sempre é a mais eficiente.

No artigo “Especialistas defendem uso de água de esgoto tratada para combater crise” de Fernanda Távora do Jornal do Brasil edição digital do dia 9 do corrente mês, está muito bem colocada à questão, inclusive com o auxílio do Prof. Antônio Carlos Zuffo, especialista em recursos hídricos e professor da FEC – Unicamp que faz uma excelente discrição do problema.

Como professores são pessoas mais polidas e educadas (excetuando alguns do sul do país!!!), talvez o Professor Zuffo não tenha escrito com todas as letras algo que é importante das pessoas notarem antes de torcer a cara para esta solução.

Estou falando em torcer a cara para a solução, pois muitos imaginam que a proposta dos técnicos é algo quase que “nojento” e “antigênico”, mas como talvez eu não seja tão elegante como o professor Zuffo, vou escrever com todas as letras a verdadeira realidade de toda a água que consumimos.

Querendo ou não todo mundo toma MERDA TRATADA em qualquer cidade do mundo!

Explico melhor, toda a tomada de água superficial em qualquer cidade do mundo, retira água de um rio médio ou grande, por mais que se façam parques e áreas de preservação em torno dos reservatórios, sempre há o influxo de um ou de vários rios que vem de montante (montante quer dizer acima) e nesta região de montante moram pessoas, há criação de porcos, galinhas e vida silvestre. Todas estas pessoas, porcos, galinhas, veados, pacas e cotias, defecam e o produto desta necessidade natural vai para o meio hídrico.

As pessoas estão acostumadas a olhar os rios em regiões mais “limpas” e não identificarem o produto desta “poluição” de montante, simplesmente porque quando a população que contribui a montante para a poluição é pequena em relação à capacidade do rio ou lago depurar o esgoto! Em resumo, a água pura não é produto de um rio ou lago em que nenhuma pessoa ou animal defecou! Mas sim é produto de um rio ou lago com grande capacidade de depuração em relação ao esgoto lançado.

Na região de São Paulo, como em outras grandes metrópoles do mundo (civilizado ou não) a carga de esgoto pode ultrapassar a capacidade de autodepuração do meio hídrico, e a água bruta (água não tratada) chega às estações de tratamento de água em condições deploráveis. Porém não se preocupem quanto a isto, nas estações de tratamento de água temos verdadeiros mágicos, os engenheiros químicos e técnicos em tratamento de água, que por diversos recursos tecnológicos transformam esta água imprópria para o uso em água boa e saudável, por exemplo, criei os meus cinco filhos sempre tomando água da torneira e confiando nos colegas engenheiros químicos e seus treinadíssimos assessores.

A principal proposta que está contida no texto é que a capacidade dos meios hídricos em depurar determinados poluentes é reduzida, e se estes poluentes forem retirados em estações de tratamento de esgoto, a água bruta que vai chegar às estações de tratamento de água será muito melhor, dando bem menos trabalho aos responsáveis pelas mesmas.

Vamos ao resumo

Primeiro: Desde que o homem é homem, já o NEOLÍTICO a tribo que morava mais acima do rio a MONTANTE (em espanhol é mais simples, é águas arriba) defecava no rio e a tribo que morava a JUSANTE tomava esta água.

Segundo: Com o advento da população, a quantidade de dejetos das tribos de montante aumentou (já se chamavam cidades), e a capacidade de autodepuração dos rios e lagos permaneceu o mesmo.

Terceiro: Aumentando a carga de poluição, e não aumentando a capacidade de autodepuração dos rios, organismos patogênicos das cidades de montante começaram a chegar às cidades de jusante e as doenças de veiculação hídrica começaram a aumentar.

Quarto: Para evitar a mortandade das pessoas das cidades de jusante, se começou a tratar a água por processos físicos químicos.

Quinto: Com a sofisticação dos processos de tratamento e o aumento no rigor das normas de qualidade de água, verificou-se que determinados tipos de poluentes seriam mais bem tratados em estações de tratamento de esgoto antes de serem lançados nos meios hídricos.

Sexto: Que tratando corretamente o esgoto, se reduz em muito a carga de poluentes e se deixa para a natureza o polimento final tornando a água bruta de ótima qualidade.

Sétimo: Quem acha que tratar esgoto para depois utilizar a sua água como água bruta para o tratamento e consumo desta água é algo nojento ou antigênico é uma BESTA, pois durante milênios seus ancestrais beberam esta água não tratada e desenvolveram uma verdadeira “fauna” intestinal que se deliciava com todos os bichinhos que vinha com a água (tem uns mais espertos que enganavam a nossa “fauna” e produziam doenças).

Oitavo e último: Tratem os esgotos, lancem nos meios, deixe a natureza agir e tomem a água tranquilamente, o que faz mal mesmo ao organismo é água quimicamente pura (como água bidestilada) e como diria a minha avó, tome a água, pois o maior come o menor.



Fonte: www.jornalggn.com.br

quinta-feira, 11 de dezembro de 2014

A IMPORTÂNCIA DA DEMARCAÇÃO DE TERRAS INDÍGENAS PARA A PROTEÇÃO DA AMAZÔNIA


Um dos temas menos comentados durante as eleições e que ficou fora do discurso da reeleição da Presidente Dilma Rousseff, foram os direitos indígenas e também o meio ambiente. Em um momento em que as mudanças do clima estão cada vez mais frequentes, a temática ambiental e as políticas públicas para a proteção e gestão das Terras Indígenas precisavam ser tratadas com maior atenção.

Uma carta divulgada pelo IPAM no dia 22 de outubro 2014, mostra que a Amazônia precisa ser preservada, pois desempenha um papel fundamental na estabilização das concentrações dos gases de efeito estufa e na minimização dos efeitos das mudanças climáticas globais. “Para que o Brasil alcance a extinção do desmatamento na Amazônia brasileira e usufrua dos serviços ambientais prestados por suas florestas será crucial a manutenção de grandes extensões contínuas de florestas. O elemento essencial para que isto aconteça são as áreas protegidas, em especial as Terras Indígenas e suas populações”, aponta a carta “A Amazônia Indígena e as Mudanças Climáticas: recomendações aos Presidenciáveis”, elaborada pelo IPAM.

Apesar de existir uma legislação vigente no país que trata dos direitos dos povos indígenas, existe ainda um grande abismo entre a teoria e a prática. O processo de demarcação, regulamentado pelo Decreto nº 1775/96, é o meio administrativo para identificar e sinalizar os limites do território tradicionalmente ocupado pelos povos indígenas, porém a crescente resistência dos proprietários rurais vem sendo uma das principais razões na diminuição do ritmo de regularização, determinada pelo Art. 225 da Constituição da República Federativa do Brasil de 1988.

Existem hoje no Brasil quase 900 mil índios e mais de 690 Terras Indígenas. As lideranças indígenas reivindicam o reconhecimento de cerca de 1000 áreas. De acordo com um levantamento feito pela Folha de São Paulo, no governo Fernando Henrique Cardoso (1995-2002) foram homologadas 145 áreas (41 milhões de hectares), o governo Lula (2003-2010) retrocedeu para 84 áreas (18 milhões de hectares). E por fim, a presidente Dilma Rousseff homologou apenas 10 áreas (966 mil hectares), sendo o governo que menos demarcou terras indígenas desde a redemocratização do país.

Outro ponto polêmico na temática é a PEC 215/00, em tramitação na Câmara dos Deputados, que diminui o poder da a Fundação Nacional do Índio (Funai) sobre as demarcações e torna a homologação das Terras Indígenas dependente da aprovação do Congresso. Para o deputado Padre João (PT-MG), um dos principais defensores da causa indígena na Câmara, a PEC 215 significa um retrocesso. “A gente percebe a organização de uma bancada, formando uma maioria, indo a voto e que se torna, de fato, uma ameaça a um direito constitucional sagrado, reconhecido pelo Supremo Tribunal Federal”, afirmou.

Em diversos casos, a justiça precisa interferir e estipular um prazo para a finalização do processo de demarcação, que podem ultrapassar 10 anos. É o caso da Terra Indígena Sawré Muybu. No dia 29 de outubro a Justiça Federal estipulou o prazo de 15 dias para que Funai dê sequência ao processo de demarcação da TI, que fica na região de Itaituba, oeste do Pará. O processo que já ocorre há 13 anos, foi paralisado sem explicações no ano passado. A Terra Indígena está localizada em uma região onde o governo pretende construir a Usina Hidrelétrica de São Luiz do Tapajós. Com a construção da usina, aldeias, florestas e cemitérios da terra indígena serão alagados.

Para demonstrar a importância dos Territórios Indígenas, tanto para os povos que nela habitam quanto para a preservação dos recursos naturais, foi lançado no dia 30 de outubro o relatório “Violações de direitos humanos dos indígenas no Estado do Mato Grosso do Sul”, resultado de uma missão realizada em agosto de 2013 pela Relatoria do Direito Humano à Terra, Território e Alimentação.

O documento destaca a complexidade das violações aos direitos dos povos indígenas Guarani e Kaiowá, como a negação do seu território, a exclusão social (da qual resulta todo o processo de confinamento) e até a negação dos direitos básicos à realização da vida com dignidade (alimentação adequada, ao acesso à educação intercultural, à saúde que considere a medicina tradicional, entre outros).

Porque demarcar

De acordo com a carta do IPAM, as taxas de derrubada de florestas no interior das Terras Indígenas são inferiores a 2% (1999-2008), um valor bem abaixo das regiões ao redor destas terras (de 25 a 30%) e menor do que o encontrado para Unidades de Conservação sem gente dentro. Isso mostra a importância da demarcação das terras indígenas para a redução do desmatamento da Amazônia.

“Ao manter florestas intactas dentro dos territórios indígenas, nós estaremos reduzindo os prejuízos globais que a população mundial terá no futuro com a mudança do clima”, enfatiza o Diretor-executivo do IPAM, Paulo Moutinho.

A demarcação das Terras Indígenas favorece a sociedade mundial, já que preservação dessas regiões contribui para a proteção do meio ambiente e da biodiversidade, bem como para o controle climático global. Esta medida é urgente para a população brasileira, uma vez que o país está sofrendo os impactos causados pelo desmatamento e pelo desenvolvimento econômico insustentável. A garantia e a efetivação dos direitos territoriais dos povos indígenas, tanto no Pará como no Mato Grosso, contribuem, para a construção de uma sociedade que valoriza a identidade étnica e cultural dos seus povos.



Fonte: www.sergiorochareporter.com.br

quarta-feira, 10 de dezembro de 2014

Resíduos Tóxicos


São considerados resíduos tóxicos as pilhas não alcalinas, baterias, tintas e solventes, remédios vencidos, lâmpadas fluorescentes, inseticidas, embalagens de agrotóxicos e produtos químicos, as substâncias não biodegradáveis estão presentes nos plásticos, produtos de limpeza, em pesticidas e produtos eletroeletrônicos, e na radioatividade desprendida pelo urânio e outros metais atômicos, como o césio, utilizados em usinas, armas nucleares e equipamentos médicos. O cádmio, níquel, mercúrio e chumbo são os principais contaminantes. A separação adequada desses materiais é muito importante para evitar a contaminação do solo e dos lençóis freáticos. As pessoas devem tomar alguns cuidados básicos para embalar este tipo de resíduo: acondicionar em sacos plásticos bem fechados, guardá-los em local arejado e protegido do sol, das crianças e dos animais. Os materiais que podem ser reciclados são encaminhados a Centrais de Tratamento específicas. Os medicamentos vencidos, restos de tinta e verniz, e embalagens de inseticidas, que ainda não podem ser reciclados, ficam armazenados no aterro industrial em condições adequadas, para evitar a contaminação do meio ambiente. Esses resíduos são tratados por meio de encapsulamento.

Os principais contaminantes que conferem periculosidade aos resíduos são os seguintes:

Organo halogenados - A combinação de fenômenos de evaporação e adsorção no seio do aterro previne de forma substancial o deslocamento dos compostos organo-halogenados para as águas subterrâneas. Na presença de óleos no lixo, os solventes halogenados tendem a ser associados a esta fase.

Cianetos - Foram identificados vários mecanismos de decomposição e eliminação. Por exemplo, a conversão para ácido cianídrico volátil, a formação de cianetos complexos, hidrólise de formiato de amônia, formação de tiocianatos e biodegradação poderão ocorrer. Um pré-tratamento de resíduos com cianetos é fortemente recomendado.

Metais pesados - Resíduos galvânicos foram co-dispostos em aterros e exumados sem modificações após 2 a 3 anos. O cromo, quando presente em forma solúvel, hexavalente, cromato ou dicromato, pode também representar um risco ambiental. Normalmente, em aterros, estes compostos são reduzidos, na presença de matéria orgânica, para a forma trivalente de maneira a precipitar como hidróxido em pH neutro, comumente existente nos aterros. O mercúrio poderá ser originário de baterias, tubos fluorescentes, entulhos. Há evidências de que o Mercúrio é mobilizado como sulfato sob as condições anaeróbicas reinantes no aterro. Havendo frações argilosas presentes, o mercúrio poderá ser firmemente ligado por adsorção ou por troca iônica.

Ácidos - Deveria ser prática normal a neutralização de resíduos ácidos, antes da sua disposição em trincheiras ou lagoas rasas, no aterro. Será essencial que a capacidade de neutralização inerente ao lixo doméstico não seja excedida. Caso contrário, os metais pesados serão ressolubilizados e a atividade microbiana será inibida. Foi determinado que 1kg de lixo fresco poderá neutralizar 22g de ácido sulfúrico e 1kg de lixo decomposto será preciso para neutralizar 33g desse mesmo ácido.

Óleos - A adsorção em componentes do lixo é um mecanismo de atenuação importante. Estudos demonstraram que não acontecia drenagem livre quando a concentração do óleo não superava os 5% em peso.

PCB's (Policloreto de bifenila) - Estas substâncias foram encontradas em aterros industriais, provenientes de capacitores, resíduos de destilação e tortas de filtro. Em face de sua baixa solubilidade e degradabilidade, admite-se que elas sejam retidas nos aterros. Não há evidência de que a presença de outras substâncias orgânicas afete a mobilidade dos PCB's, porém, a presença de solventes deveria ter efeitos significativos. Alguns ensaios mostraram a presença de PCB's no chorume em concentrações entre 0,01 e 0,05 mg/l.

Fenóis - Pode-se constituir em problema grave, uma vez que o limite da WHO - World Health Organization para fenol é de 0,022 mg/l; e muitos resíduos industriais contém este produto em proporção superior a estes valores.

Solventes - Durante a deposição em aterro, os solventes poderão perder-se por evaporação para a atmosfera ou podem ser absorvidos pelo lixo, onde poderão ser submetidos à biodegradação. Testes de laboratório mostram a grande dificuldade de se prognosticar a extensão de cada um destes processos.

Logística Reversa

Atualmente, o fluxo reverso de pós-consumo, apresenta-se como o grande desafio a ser avaliado, mostrando ações que ajudam a preservar o meio ambiente tanto pelas indústrias, revendas, cooperativas, produtores, governos, quanto por toda sociedade, que também deve atuar como fiscalizadores e incentivadores do projeto.

Apesar do sistema logístico reverso, conseguir recolher a cada ano um volume maior de embalagens vazias de agrotóxico ainda está muito longe das quantidades vendidas, isso se deve a deficiência de recursos para fiscalização e a falta de conscientização. Porém, a conscientização ainda é a principal arma utilizada pelo órgão fiscalizador.



Fonte: www.ambientebrasil.com.br

terça-feira, 9 de dezembro de 2014

PL 219/2014 - Lei que agrava crise hídrica


Em meio a maior crise hídrica da história de São Paulo, um grupo de deputados busca aprovar na Assembleia Legislativa projeto de lei que regulariza o desmatamento e diminui as APPs (Áreas de Preservação Permanente), como as matas ciliares, acentuando a já crítica situação dos mananciais e bacias hidrográficas do Estado.

O PL 219/2014 dispõe sobre o Programa de Regularização Ambiental (PRA), o que equivale à regulamentação paulista para implementação do novo Código Florestal brasileiro (Lei Florestal 12.651/12). O projeto está em regime de urgência e poderá ser votado no dia 9 de dezembro de 2014.

É conhecido que os retrocessos praticados na Legislação Ambiental brasileira, com a mudança do Código Florestal, reduziram a proteção de nascentes e APPs de rios e mananciais, agravando os problemas que levam à escassez de água. Infelizmente, o projeto agora elaborado por deputados paulistas não só reforça esses pontos, como ainda reproduz equívocos e confere retrocessos ainda mais nocivos do que os aprovados na norma federal.

O perigo

Grandes imóveis rurais poderiam fazer a compensação da reserva legal em outros Estados, exportando as florestas paulistas e ameaçando a conservação da vegetação.
(Mario Montavani)

Dentre os problemas mais graves para essa regulamentação de Lei Federal destaca-se o fato de o novo Código Florestal ser objeto de Ação Direta de Inconstitucionalidade, movida pelo Ministério Público Federal, em três questões que ainda estão sendo julgadas e que foram repetidas no projeto de lei paulista.

A regulamentação poderia ser feita por meio de decreto estadual após discussão com a sociedade nos Conselhos Estadual de Meio Ambiente e de Recursos Hídricos, envolvendo de forma ampla e participativa instituições técnicas, comunidade científica, órgãos gestores, produtores rurais, associações representativas, organizações de defesa do meio ambiente e interesses difusos, além de cidadãos em geral.

A pretensa regulamentação paulista do novo Código Florestal brasileiro dá-se por iniciativa do Legislativo, com um PL protocolado na Assembleia em março, e que foi posto em votação após nove meses - um verdadeiro recorde de agilidade e tramitação.

O projeto permite que a recuperação ambiental seja realizada nos biomas fora dos limites territoriais do Estado de São Paulo. Assim, grandes imóveis rurais poderiam fazer a compensação da reserva legal em outros Estados, "exportando" as florestas paulistas e ameaçando a restauração e a conservação da vegetação de regiões prioritárias para recuperação ambiental, como as localizadas em áreas de estresse hídrico.

O mais preocupante é a previsão da diminuição das faixas de recuperação de matas ciliares em APPs, chegando a pífios cinco metros, desprezando completamente as normas estaduais existentes, como a resolução de restauração que é reconhecida cientificamente no país.

As bacias hidrográficas do sistema Cantareira e do Paraíba do Sul, que têm enormes áreas desmatadas (o que favorece o assoreamento dos reservatórios e rios), seriam ainda mais prejudicadas. Isso porque o projeto proposto considera pastagens improdutivas e chácaras de recreio como usos consolidados e, portanto, desobrigados da recomposição das matas ciliares em metragens e critérios técnicos, como os que estavam determinados no Código Florestal de 1965 e que resultariam em serviços ambientais relevantes para a conservação da água.

Diante dessa grave ameaça, é lamentável a distância dos parlamentares em relação às necessidades da sociedade, que já tem sofrido com a falta de água. Ao proporem o projeto, desconsideraram os alertas do clima, da Academia e dos cidadãos. Trabalharam em prol de interesses de grupos pontuais, ligados a um modelo ultrapassado de agronegócio, e daqueles que não cumpriram a legislação e, agora, querem dar continuidade, em São Paulo, à anistia buscada com a aprovação do atual Código Florestal.

O Estado de São Paulo – que sempre foi referência em ciência, tecnologia e inovações na área ambiental e, do que podemos chamar do bom agronegócio – têm promovido a recuperação de APPs nas margens de rios e mananciais, recuperando microbacias em diversas regiões e buscando legislações positivas e incentivadoras para os que conservam e buscam sustentabilidade. Por isso, São Paulo não pode admitir tamanho retrocesso.

Não podemos assistir a mais um golpe. A sociedade envia um recado aos deputados estaduais: não votem o PL 219, que diminui a proteção e a recuperação das APPs, essenciais para os mananciais, rios e nascentes, e agrava a crise da água em São Paulo. Sem floresta não há água.



Fonte: Mario Mantovani

segunda-feira, 8 de dezembro de 2014

RESÍDUOS - Um problema ou um recurso


O Brasil produz grandes quantidades de resíduos: alimentares e de jardim, de construção e demolição, da exploração mineira, da indústria, lamas de depuração, televisores velhos, automóveis velhos, baterias e pilhas, sacos de plástico, papel, resíduos sanitários, roupas e peças de mobiliário velhas... A lista não acaba aqui.

A quantidade de resíduos que produzimos está estreitamente ligada aos nossos padrões de consumo e produção. O número de produtos que entram no mercado coloca ainda outro desafio.

O amplo pacote de tipos de resíduos e as complexas vias de tratamento dos mesmos (incluindo as ilegais) dificultam a obtenção de uma visão completa dos resíduos produzidos e da sua localização. Existem dados, ainda que de qualidade variável, sobre todos os tipos de resíduos.

Quanto é produzido de resíduos

O Brasil perde bilhões de reais por ano ao não reciclar seu lixo.

Após evitar o desperdício e praticar a reutilização dos materiais, o destino dos resíduos deveria ser a reciclagem. Infelizmente a sociedade brasileira ainda tem muito a aprender, e o fato é que os destinos do nosso lixo são variados.

Cada brasileiro produz de 600 gramas a 1 quilo de lixo por dia. Se este número for multiplicado pela quantidade de pessoas que moram hoje no Brasil, os números são assustadores, mais de 240 mil toneladas de lixo produzidas diariamente.

No rumo certo

Reciclar mais e depositar menos resíduos em aterros, esta deveria ser a ordem do dia.

Uma possível queda registrada na produção de resíduos urbanos no Brasil poderá contribuir em certa medida para reduzir os respectivos impactos ambientais. No entanto, embora a quantidade de resíduos seja um aspeto importante, a forma como são geridos também tem um papel fundamental.

Globalmente, na União Europeia, são cada vez mais os resíduos que vão para reciclagem e cada vez menos os que são enviados para aterros. No caso dos resíduos urbanos, a percentagem de resíduos reciclados ou utilizados em compostagem na União Europeia aumentou de 31 % em 2004 para 41 % em 2012.

Apesar desses progressos, ainda há grandes discrepâncias entre diversos países. Por exemplo, a Alemanha, a Suécia e a Suíça enviam menos de 2 % dos seus resíduos urbanos para aterros, enquanto a Croácia, a Letónia e Malta depositam em aterro mais de 90 %. A maioria dos países com baixas taxas de deposição em aterro possui taxas elevadas de reciclagem e incineração, correspondentes a mais de 30 % do total dos seus resíduos urbanos.

E o Brasil porque não segue certos exemplos, daria se no caso por ainda ser um país de grandes riquezas e não se importar com o que joga fora? Seria falta de preocupação da população? Falta de um programa educacional onde se ensinasse a importância desta separação? O tempo mostrara o desperdício que o Brasil um país tão belo e rico faz.

Poluição atmosférica, alterações climáticas, contaminação dos solos e da água...

A má gestão dos resíduos contribui para as alterações climáticas e a poluição atmosférica e afeta diretamente muitos ecossistemas e espécies.

Os aterros, considerados como: o último recurso da hierarquia de gestão dos resíduos, liberam metano, um gás que contribui para o efeito estufa, muito poderoso que está associado às alterações climáticas. O metano é gerado por microrganismos presentes nos aterros e provenientes de resíduos biodegradáveis, como os resíduos alimentares, de papel e de jardim. Dependendo da forma como estão construídos, os aterros também podem contaminar o solo e a água.

Depois de recolhidos, os resíduos são transportados e tratados. O processo de transporte libera dióxido de carbono, gás também que contribui para o efeito estufa mais comum e substâncias poluentes do ar, incluindo partículas, para a atmosfera.

Uma parte dos resíduos pode ser incinerada ou reciclada. A energia proveniente dos resíduos pode ser utilizada para produzir calor ou eletricidade, que pode substituir a energia produzida a partir do carvão e outros combustíveis. Deste modo, a energia recuperada dos resíduos pode contribuir para reduzir as emissões de gases de efeito estufa.

A reciclagem pode ajudar ainda mais a diminuir as emissões de gases de efeito estufa e outras emissões. Quando os materiais reciclados substituem os materiais novos, é possível extrair ou produzir estes últimos em menor quantidade.

Os resíduos afetam os ecossistemas e a nossa saúde

Alguns ecossistemas, designadamente os marinhos e costeiros, podem ser gravemente afetados pela má gestão dos resíduos ou pela produção de lixo. O lixo marinho constitui uma preocupação crescente e não apenas por razões estéticas: muitas espécies marinhas correm graves riscos de ficar enredadas nos detritos ou de os ingerirem.

Os resíduos também afetam o ambiente de forma indireta. Todos os resíduos que não são reciclados ou valorizados representam uma perda de matérias primas e outros fatores de produção utilizados na cadeia, ou seja, nas fases de produção, transporte e consumo dos produtos. Os impactos ambientais registrados na cadeia do ciclo de vida são significativamente superiores aos que ocorrem apenas nas etapas relativas à gestão dos resíduos.

Direta ou indiretamente, os resíduos afetam de múltiplas formas a nossa saúde e o nosso bem-estar: o gás metano contribui para as alterações climáticas, são liberadas substâncias poluentes na atmosfera, as fontes de água doce são contaminadas, as culturas crescem em solos contaminados e os peixes ingerem substâncias químicas tóxicas, que depois acabam por vir parar ao nosso prato. Ou seja, todo um ciclo, onde nós humanos, brasileiros ou de outra nacionalidade fazemos parte.

As atividades ilegais como a deposição de resíduos em lixões, aterros controlados ou a sua incineração, também têm bastante importância, mas é difícil estimar a dimensão total dessas atividades e dos respectivos impactos. Pois muitas empresas ou até mesmo prefeituras maquiam o que fazem para não serem multadas ou perder algum recurso que recebam do governo, quando especificam sua má administração.

Prejuízos econômicos e custos de gestão

Os resíduos também representam um prejuízo para a nossa economia e um encargo para a sociedade. A mão-de-obra e outros fatores de produção (terra, energia, etc.) utilizados nas fases de extração, produção, distribuição e consumo também se perdem quando as "sobras" são deitadas fora.
Além disso, a gestão de resíduos custa dinheiro. É dispendioso criar uma infraestrutura para os recolher, separar e reciclar, mas, uma vez estabelecida, a reciclagem pode gerar receitas e criar emprego.

Os resíduos também têm uma dimensão mundial, relacionada com as nossas exportações e importações. Aquilo que consumimos e produzimos, pode gerar resíduos em outro lugar qualquer. E em alguns casos esses resíduos transformam-se mesmo em mercadorias comercializadas, de forma legal ou ilegal.

Os resíduos como recurso

E se pudéssemos utilizar os resíduos como um recurso e diminuir assim a necessidade de extrair novos recursos? A extração de menos materiais e a utilização dos recursos existentes ajudaria a evitar alguns dos impactos criados ao longo da cadeia.

Transformar os resíduos em recurso aproveitáveis deveria ser um dos principais objetivos do governo. Com este objetivo os governos realçaria a necessidade de assegurar uma reciclagem de alta qualidade, eliminar a deposição em aterros, limitar a valorização energética aos materiais não recicláveis e erradicar as transferências ilegais de resíduos.

E é possível alcançar estes objetivos. Em muitos países, os resíduos de cozinha e de jardim constituem a maior fração dos resíduos sólidos urbanos. Este tipo de resíduos, quando recolhidos separadamente, pode ser transformado em fonte de energia ou em adubo. A digestão anaeróbica é um método de tratamento de resíduos que envolvem a submissão dos resíduos biológicos a um processo de decomposição biológica semelhante à existente nos aterros, mas em condições controladas. A digestão anaeróbica produz biogás e materiais residuais, que podem ser por sua vez utilizados como adubo, à semelhança de produtos de compostagem.

Quando se tem uma melhor gestão dos resíduos urbanos, os seus resultados são surpreendentes. Com uma melhor gestão dos resíduos urbanos permitisse reduzir significativamente as emissões de gases com efeito de estufa, o que pode ser atribuído principalmente à diminuição das emissões de metano dos aterros e às emissões que a reciclagem permitiu evitar.

Se cada país, não somente o Brasil, mas cada país se empenhar e cumprir plenamente seus pactos e objetivos com certeza teríamos condições de gerir melhor os resíduos que nós mesmos produzimos e com isso pouparemos mais a natureza em geral, cortando o ciclo de emissões de gases, o ciclo de apenas retirar da natureza o que precisamos e aprender com isso a reaproveitar.

O combate aos resíduos começa pela prevenção

Os potenciais benefícios são imensos e podem facilitar a transição de qualquer país para uma economia circular, em que nada é desperdiçado. A ascensão na hierarquia de gestão dos resíduos proporciona benefícios ambientais, mesmo para os países com elevadas taxas de reciclagem e valorização.

Infelizmente, os nossos atuais sistemas de produção e consumo não oferecem muitos incentivos para prevenir e reduzir os resíduos. Desde a aquisição e embalagem dos produtos até à escolha dos materiais, toda a cadeia de valor necessita de ser primeiramente reformulada tendo em conta a prevenção da produção de resíduos. Então as "sobras" de um processo podem transformar-se em fatores de produção para outro.

A ascensão na hierarquia de gestão dos resíduos exige um esforço conjunto de todas as partes interessadas: consumidores, produtores, políticos, autoridades locais, todos sem exceção. Os consumidores dispostos a separar os seus resíduos domésticos só podem reciclar se a infraestrutura necessária para recolher os resíduos separados tiver sido criada. O contrário também é verdade; os municípios só podem reciclar uma percentagem crescente de resíduos se os agregados familiares procederem à sua separação.

Em última análise, se os resíduos são um problema ou um recurso depende inteiramente da forma como os gerirmos, da forma como o governo dará atenção a este assunto, da forma como a sociedade como um todo se comportar perante esta mudança. Está nas mãos de cada um de nós.



Fonte: Luiz Henrique Lopes

sexta-feira, 5 de dezembro de 2014

A agroecologia é a solução para a fome e a mudança climática


Para erradicar a fome e a mudança climática, é importante saber que a agroecologia é a solução. Cientistas especializados em mudança climática divulgaram sua mais recente advertência de que a crise climática está piorando rapidamente em vários aspectos. Preveem que a mudança climática afetará a produtividade agrícola, cuja consequência afetará a segurança e a soberania alimentar de muitos países.

Nossos governos adotarão as medidas urgentes e necessárias para abordar essas crises? Terão uma oportunidade na próxima rodada de negociações da 20ª Conferência das Partes (COP 20) da Convenção Marco das Nações Unidas sobre a Mudança Climática, que acontecerá em Lima, no Peru, entre 1º e 12 de dezembro 2014.

Camponeses como o salvadorenho Adolfo são os principais produtores de alimentos hoje em dia. Precisamos deles, e não da produção industrial, para alimentar o planeta no contexto da mudança climática e da degradação generalizada dos recursos naturais. Em nosso planeta, 805 milhões de pessoas sofrem fome crônica e o sobrepeso e a obesidade, afetam mais de dois bilhões de pessoas; 65% da população mundial vive em países onde o sobrepeso e a obesidade matam mais pessoas do que a desnutrição.

Os que sofrem fome são principalmente as pessoas pobres das zonas rurais nos países em desenvolvimento, fundamentalmente produtores de pequena escala da África e Ásia. Quase uma em cada nove pessoas vai dormir com fome todas as noites.

Não é o caso de Adolfo e sua família, apesar de viverem em uma região que foi devastada pelos efeitos da mudança climática e das inundações, o Vale Lempa, em El Salvador. Ele sabe por experiência própria que a diversidade agrícola e a conservação em mãos camponesas das sementes tradicionais são fundamentais para o sustento dos produtores de pequena escala.

A enorme maioria dos governos de todo o mundo ignorou os produtores de pequena escala durante décadas, afundando milhões deles na pobreza. Entretanto, esses camponeses e camponesas continuam sendo os que produzem a maior parte dos alimentos do mundo, utilizando variedades tradicionais de sementes e sem recorrer a insumos industriais.

Na África, os camponeses cultivam praticamente todos os alimentos consumidos localmente. Na América Latina, 60% da produção, incluída a carne, é produzida em pequenas propriedades familiares. Na Ásia, centro mundial da produção de arroz, praticamente todo o arroz é cultivado em áreas inferiores a dois hectares.

Mesmo assim o agronegócio e alguns governos promovem fortemente a agricultura industrial (baseada em monoculturas, sementes híbridas e pesticidas e fertilizantes químicos) como a melhor forma de alimentar o planeta. Além disso, a agricultura industrial é uma das maiores contribuintes para a mudança climática, devido ao seu alto consumo de combustíveis fósseis, pesticidas e fertilizantes e por seus impactos sobre solos, águas e biodiversidade.

E existe suficiente evidência de que essa indústria está destruindo os recursos dos quais dependemos para produzir nossos alimentos. Porém, os promotores da agricultura industrial fazem caso omisso de seus impactos ambientais. Conhecendo o grande desafio que representa a mudança climática, já que poderia reduzir consideravelmente a produtividade agrícola, especialmente nos países em desenvolvimento, outros são os caminhos que se deveria fomentar.

Por outro lado, os defensores da agricultura industrial a justificam dizendo que, devido à crescente população mundial, será necessário produzir mais alimentos e para isso é preciso aumentar o rendimento. Mas sabemos que produzir mais alimentos e aumentar o rendimento não são os únicos desafios. De fato, já produzimos alimentos suficientes para alimentar nossa população atual e futura.

O problema não é a falta de alimentos, mas sua distribuição desigual. O acesso aos alimentos está definido pela riqueza e pelo lucro, em lugar da necessidade. Promove-se o livre comércio acima do direito à alimentação. Em consequência, metade dos grãos do mundo é usada para alimentar animais criados em estabelecimentos industriais e uma proporção importante de cultivos alimentares básicos se converte em agrocombustíveis para carros. Assim, as pessoas famintas ficam sem alimentos para dá-los aos consumidores ricos.

Para erradicar a fome é imprescindível aumentar a renda dos setores empobrecidos e contribuir para que os produtores de alimentos em pequena escala possam manter seu modo de vida, para se alimentarem e alimentarem o mundo de forma sustentável.
Porém, a saída estrutural para a fome e a pobreza será encontrada com a construção da soberania alimentar dos povos. Isto é, “o direito dos povos a alimentos nutritivos e culturalmente adequados, produzidos de forma sustentável e ecológica, e seu direito a decidir seu próprio sistema alimentar e produtivo”, resume a Declaração de Nyéléni com a qual foi encerrado o Fórum Mundial pela Soberania Alimentar, realizado em Mali em 2007.

Para isso é imprescindível: que o controle dos sistemas e políticas agroalimentares recaia sobre os que produzem, distribuem e consomem alimentos, em lugar dos mercados e das corporações; priorizar as economias e os mercados locais e nacionais; fomentar a sustentabilidade ambiental, social e econômica da produção, distribuição e consumo, e garantir o direito dos produtores de alimentos à gestão da terra, das águas, das sementes e da biodiversidade em geral.

“A soberania alimentar supõe novas relações sociais, livres de opressão e desigualdades entre homens e mulheres, povos, grupos raciais, classes sociais e gerações”, destaca também a Declaração de Nyéléni. A soberania alimentar inclui o direito à segurança alimentar. Mas um país que se centra apenas em conseguir a segurança alimentar não distingue de onde provêm os alimentos nem as condições nas quais se produz e distribui.

Os objetivos nacionais de segurança alimentar frequentemente são conseguidos mediante a produção de alimentos em condições de destruição do ambiente e de exploração social que destroem os produtores locais, enquanto beneficiam as empresas do agronegócio.

Nos últimos anos, vários organismos das Nações Unidas reconheceram que a agroecologia é a forma mais eficaz para combater as crises alimentar, ambiental e de pobreza. Uma análise da agroecologia, realizado em 2011, deixou evidente que tem o potencial de duplicar a produção de alimentos em dez anos.

Para enfrentar esse desafio, surgiu o movimento pela “soberania alimentar”, que conta com apoio de mais de 300 milhões de homens e mulheres, produtores de alimentos em pequena escala, consumidores e ativistas pela justiça ambiental e pelos direitos humanos, entre outros.

O poder das empresas de sementes e pesticidas como a Monsanto e a Syngenta, de supermercados gigantes como o Wal-Mart, e de empresas produtoras de grãos como a Cargill cresceu tanto que exercem muito influência nas políticas agroalimentares nacionais e globais. Isso assegura que o agronegócio receba milhares de milhões de dólares em subvenções e apoio normativo.

Acabar com a fome no mundo está ao nosso alcance, mas é preciso uma transformação fundamental do sistema agroalimentar mundial: uma mudança radical da agricultura industrial para a agroecologia e a soberania alimentar.

Essa transformação, sem dúvida, teria repercussões muito positivas na crise climática: menos agricultura industrial e mais produção agroecológica equivalem a menos emissões de carbono, algo fundamental para nos proteger da mudança climática.

Adolfo e milhões de produtores como ele estão na linha de frente dessa transformação e os líderes mundiais devem lhes dar muito mais apoio – em nível de Nações Unidas –, bem como nos planos nacional e local, se pretendem seriamente solucionar a crise alimentar e climática.



Fonte: www.canal411.com