sexta-feira, 27 de março de 2015

Responsabilidade Social - Uma alavanca para sustentabilidade Parte 3


Responsabilidade social no âmbito internacional

Destacam-se, no âmbito internacional, as normas BS 8800 e OHSAS 18001, que tratam de segurança e saúde no ambiente de trabalho. Além dessas, existem as normas AA 1000 e Social Accountability 8000 (SA 8000), com foco na responsabilidade social corporativa. Mesmo ainda pouco conhecida no Brasil, a norma SA 8000 merece uma atenção especial, entre outros motivos, pelo fato de que a obtenção e manutenção desse certificado prevê o envolvimento dos trabalhadores da empresa, bem como a participação de ONGs e sindicatos.

Fundamentalmente, a Social Accountability 8000 visa aprimorar o bem-estar e as condições de trabalho no ambiente corporativo, a partir do desenvolvimento de um sistema de verificação que deve garantir o cumprimento das exigências contidas na norma e a contínua conformidade com os padrões estabelecidos. Seus requisitos estão baseados nas declarações internacionais de direitos humanos, na defesa dos direitos da criança e nas convenções da Organização Internacional do Trabalho (OIT). Para isso, a SA 8000 apresenta-se como um sistema de auditoria similar à certificação ISO 9000, que atualmente já é apresentada por mais de 300 mil empresas em todo o mundo.

Criada em 1997 e desenvolvida por um conselho internacional que reúne empresários, ONGs e organizações sindicais, a SA 8000 quer encorajar a participação de todos os setores da sociedade na melhoria das condições de trabalho e de vida no ambiente corporativo, eliminar o trabalho forçado e acabar com a exploração do trabalho infantil. Além de ser uma questão ética em si, garantir boas e dignas condições de trabalho tornou-se fundamental no atual mundo dos negócios. Por um lado, contribui para o sucesso num mercado cada vez mais competitivo e globalizado; por outro, faz parte da construção de uma sociedade mais justa e fraterna para todos.

Enfim, outras conquistas empresarias, como as normas ISO e qualidade ambiental, tornam-se um aspecto bastante expressivo e mostram o empenho empresarial em contribuir para uma sociedade com qualidade de vida melhor para todos.

Responsabilidade social e ambiental

A gestão ambiental e da responsabilidade social, para um desenvolvimento que seja sustentável econômica, social e ecologicamente, precisa contar com executivos e profissionais regras de decisão estruturadas e demais conhecimentos sistêmicos (sistema) exigidos no contexto em que se inserem.

O desenvolvimento econômico e o meio ambiente estão intimamente ligados. Só é inteligente o uso de recursos naturais para o desenvolvimento caso haja parcimônia e responsabilidade no uso dos referidos recursos. Do contrário, a degradação e o caos serão inevitáveis. A ordem é a busca do desenvolvimento sustentável, que em três critérios fundamentais devem ser obedecidos simultaneamente: equidade social, prudência ecológica e eficiência econômica.

Os novos tempos, caracterizam-se por uma rígida postura dos clientes, voltada à expectativa de interagir com organizações que sejam éticas, com boa imagem institucional no mercado e que atuem de forma ecologicamente responsável.

A melhoria das condições de vida, passa obrigatoriamente por um conjunto de ações que transcende ao importante item de preservação ambiental e se expande para a melhoria das condições de trabalho, assistência médica e social, além de incentivo às atividades culturais, artísticas, bem como à preservação, reforma e manutenção de bens públicos e religiosos.

A questão ambiental está se tornando cada vez mais matéria obrigatória das agendas dos executivos. A internacionalização dos padrões de qualidade ambiental descrito na série ISO 14000, a globalização dos negócios, a conscientização crescente dos atuais consumidores e a disseminação da educação ambiental nas escolas permitem antever que a exigência futura que farão os consumidores em relação à preservação do meio ambiente e à qualidade de vida deverá intensificar-se.

Neste contexto, as organizações deverão incorporar a variável ambiental no aspecto de seus cenários e na tomada de decisão, mantendo com isso uma postura responsável de respeito à questão ambiental. Empresas experientes identificam resultados econômicos e resultados estratégicos do engajamento da organização na causa ambiental. Estes resultados não se viabilizam de imediato, há necessidade de que sejam corretamente planejados e organizados todos os passos para a interiorização da variável ambiental na organização para que ela possa atingir o conceito de excelência ambiental, trazendo com isso vantagem competitiva.

Na informação sobre o meio ambiente, deve-se incluir a Contabilidade, porque, na atualidade, o meio ambiente é um fator de risco e de competitividade de primeira ordem. A não inclusão dos custos e obrigações ambientais distorcerá tanto a situação patrimonial como a situação financeira e os resultados da empresa.

A responsabilidade ambiental da empresa

Ecologia e empresa eram considerados dois conceitos e realidades inconexas. A ecologia é a parte da biologia que estuda a relação entre os organismos vivos e seu ambiente. Dessa forma, é entendida como uma ciência específica dos naturalistas, distanciada da visão da Ciência Econômica e Empresarial. Para a empresa, o meio ambiente que estuda ecologia constitui simplesmente o suporte físico que fornece à empresa os recursos necessários para desenvolver sua atividade produtiva e o receptor de resíduos que se geram.

Alguns setores já assumiram tais compromissos com o novo modelo de desenvolvimento, ao incorporarem, nos modelos de gestão, a dimensão ambiental. A gestão de qualidade empresarial passa pela obrigatoriedade de que sejam implantados sistemas organizacionais e de produção que valorizem os bens naturais, as fontes de matérias-primas, as potencialidades do quadro humano criativo, as comunidades locais e que devem iniciar o novo ciclo, onde a cultura do descartável e do desperdício seja coisa do passado. Atividades de reciclagem, incentivo à diminuição do consumo, controle de resíduo, capacitação permanente dos quadros profissionais, em diferentes níveis e escalas de conhecimento, fomento ao trabalho em equipe e às ações criativas são desafios-chave neste novo cenário.

A nova consciência ambiental, surgida no bojo das transformações culturais que ocorreram nas décadas de 60 e 70, ganhou dimensão e situou o meio ambiente como um dos princípios fundamentais do homem moderno. Nos anos 80, os gastos com proteção ambiental começaram a ser vistos pelas empresas líderes não primordialmente como custos, mas como investimentos no futuro e, paradoxalmente, como vantagem competitiva.

A inclusão da proteção do ambiente entre os objetivos da organização moderna amplia substancialmente todo o conceito de administração. Administradores, executivos e empresários introduziram em suas empresas programas de reciclagem, medidas para poupar energia e outras inovações ecológicas. Essas práticas difundiram-se rapidamente e logo vários pioneiros dos negócios desenvolveram sistemas abrangentes de administração de cunho ecológico.

Para se entender a relação entre a empresa e o meio ambiente tem que se aceitar, como estabelece a teoria de sistemas, que a empresa é um sistema aberto. Sem dúvida nenhuma, as interpretações tradicionais da teoria da empresa como sistema tem incorrido em uma certa visão parcial dos efeitos da empresa e em seu entorno.

A empresa é um sistema aberto porque está formado por um conjunto de elementos relacionados entre si, porque gera bens e serviços, empregos, dividendos, porém, também consome recursos naturais escassos e gera contaminação e resíduos. Por isto é necessário que a economia da empresa defina uma visão mais ampla da empresa como um sistema aberto.

Neste sentido, é possível que os investidores e acionistas usem cada vez mais a sustentabilidade ecológica, no lugar da estrita rentabilidade, como critério para avaliar o posicionamento estratégico de longo prazo das empresas.

Empresa e sociedade: a responsabilidade social corporativa

Na sociedade de mercado, a empresa é a unidade básica de organização econômica. As empresas são o motor central do desenvolvimento econômico e devem ser, também, um motor vital do desenvolvimento sustentável. Para isto, é imprescindível que elas definam adequadamente sua relação com a sociedade e com o meio ambiente.

O conceito que melhor define essa relação é o de Responsabilidade Social Corporativa – Corporate Social Responsability (CSR) – definido pela World Business Council for Sustainable Development (WBCSD) como: “a decisão da empresa de contribuir ao desenvolvimento sustentável, trabalhando com seus empregados, suas famílias e a comunidade local, assim como com a sociedade em seu conjunto, para melhorar sua qualidade de vida”. A responsabilidade social faz com que a “empresa sustentável” se converta em peça chave na arquitetura do desenvolvimento sustentável.

As empresas hoje são agentes transformadores que exercem uma influência muito grande sobre os recursos humanos, a sociedade e o meio ambiente. Neste sentido, vários projetos são criados, atingindo principalmente os seus funcionários e em algumas vezes seus dependentes e o público externo, contemplando a comunidade a sua volta ou a sociedade como um todo. O grande problema é que não se realiza um gerenciamento correto a fim de saber qual o retorno para a empresa.

Posto isto, várias normas, diretrizes e padrões foram criados, como a Norma AA 1000, a SA 8000 e a GRI, contribuindo para criar um modelo de visão sobre as práticas de responsabilidade social e empresarial e sua gestão de desempenho. No Brasil, temos o Instituto Ethos, que é uma iniciativa de padronização, além de apresentar o modelo do Balanço Social proposto pelo IBASE.

Na União Européia, temos o Livro Verde que divide as áreas de conteúdo da Responsabilidade Social Corporativa em dois grandes blocos, sendo que o primeiro é relativo a aspectos internos e o segundo a aspectos externos.

Na dimensão interna, ao nível da empresa, as práticas socialmente responsáveis implicam, fundamentalmente, os trabalhadores e prendem-se em questões como o investimento no capital humano, na saúde, na segurança e na gestão da mudança, enquanto as práticas ambientalmente responsáveis se relacionam sobretudo com a gestão dos recursos naturais explorados no processo de produção. Estes aspectos possibilitam a gestão da mudança e a conciliação do desenvolvimento social com uma competitividade reforçada.

Quanto à dimensão externa, a responsabilidade social de uma empresa ultrapassa a esfera da própria empresa e se estende à comunidade local, envolvendo, para além dos trabalhadores e acionistas, um vasto espectro de outras partes interessadas: parceiros comerciais e fornecedores, clientes, autoridades públicas e ONG que exercem a sua atividade junto das comunidades locais ou no domínio do ambiente.

Encerrando o assunto

A preocupação com o meio ambiente tem apresentado uma dinâmica diferenciada nas organizações e nas nações nas quais estas se encontram. O mercado não mais aceita o descaso no tratamento dos recursos naturais. Os consumidores estão interessados em produtos limpos. A legislação torna-se mais rígida, imputando sanções aos infratores, obrigando as empresas a encarar com seriedade e responsabilidade a variável ambiental em sua estratégia operacional.

Os grandes problemas que emergem da relação da sociedade com o meio ambiente são densos, complexos e altamente inter-relacionados e, portanto, para serem entendidos e compreendidos nas proximidades de sua totalidade, precisam ser observados numa ótica mais ampla.

Adequar-se às exigências ambientais dos mercados, governos e sociedade, apesar de levar a empresa a despender um montante considerável, traz benefícios financeiros e vantagens competitivas.

A responsabilidade social não é um modismo e sim uma realidade no contexto empresarial, que acarreta alterações gradativas de comportamentos e de valores nas organizações, devendo estar presente nas decisões de seus administradores e balizar seu relacionamento com a sociedade.

Posto isto, verifica-se que a sociedade é que dá permissão para a continuidade da empresa. Os detentores de recursos não querem arriscar indefinidamente seus patrimônios em companhias que se recusem a tomar medidas preventivas na área social e ambiental.



Fonte: Maria Elisabeth Pereira Kraemer

quinta-feira, 26 de março de 2015

Responsabilidade Social - Uma alavanca para sustentabilidade Parte 2


Histórico da responsabilidade social

Tornou-se evidente em 1919, a questão da responsabilidade corporativa com o julgamento na Justiça americana do caso de Henry Ford, presidente acionista majoritário da Ford Motor Company, e seu grupo de acionistas liderados por John e Horace Dodge, que contestavam a ideia de Ford. Em 1916, argumentando a realização de objetos sociais, Ford decidiu não distribuir parte dos dividendos aos acionistas e investiu na capacidade de produção, no aumento de salários e em fundo de reserva para diminuição esperada de receitas devido à redução dos preços dos carros. É lógico que a Suprema Corte decidiu a favor de Dodge, entendendo que as corporações existem para o benefício de seus acionistas e que os diretores precisam garantir o lucro, não podendo usá-lo para outros fins.

A ideia de que a empresa deveria responder apenas aos seus acionistas começou a receber críticas durante a Segunda Guerra Mundial. Nesta época, diversas modificações aconteceram nos Estados Unidos.

Em 1953, outro fato trouxe a público a discussão sobre a inserção da empresa na sociedade e suas responsabilidades: o caso A P. Smith Manufacturing Company versus seus acionistas, que contestavam a doação de recursos financeiros à Universidade de Princeton. Nesse período, a Justiça estabeleceu a lei da filantropia corporativa, determinando que uma corporação poderia promover o desenvolvimento social.

Nos anos 60, autores europeus se destacavam, discutindo problemas sociais e suas possíveis soluções, e nos Estados Unidos as empresas já se preocupavam com a questão ambiental e em divulgar suas atividades no campo social.

Já na década de 70, começou a preocupação com o como e quando a empresa deveria responder por suas obrigações sociais. Nessa época, a demonstração para a sociedade das ações empresariais tornou-se extremamente importante.

A França foi o primeiro país do mundo a ter uma lei que obriga as empresas que tenham mais de 300 funcionários a elaborar e publicar o Balanço Social. Seu objetivo principal prende-se a informar ao pessoal o clima social na empresa, a evolução do efetivo; em suma, estabelecer as performances da empresa no domínio social. Este balanço, segundo o autor, é bastante paternalista, pois exclui os fatos econômicos dos fatos sociais.

Na década de 90, com uma maior participação de autores na questão da responsabilidade social, entrou em cena a discussão sobre os temas ética e moral nas empresas, o que contribui de modo significativo para a conceituação de responsabilidade social.

Responsabilidade social no Brasil

Em 1960, foi constituída a Associação dos Dirigentes Cristãos de Empresas (ADCE), com sede em São Paulo, iniciando assim uma pregação sobre responsabilidade social nos dirigentes das empresas. Em 1977, ADCE organizou o 2º Encontro Nacional de Dirigentes de Empresas, tendo como tema central o Balanço Social da Empresa. Em 79, a ADCE passa a organizar seus congressos anuais e o Balanço Social tem sido objeto de reflexão.

Foi elaborado em 1984 o primeiro trabalho acadêmico do professor João Eduardo Prudêncio Tinoco, que é uma dissertação de mestrado do Departamento de Contabilidade e Atuaria da Faculdade de Economia, Administração e Contabilidade da Universidade de São Paulo - FEA-USP com o título de: Balanço Social: uma abordagem socioeconômica da Contabilidade.

Em 1991, foi encaminhado ao Congresso um anteprojeto propondo publicação do Balanço Social pelas empresas, porém, não foi aprovado. Foi publicado pelo Banespa, em 1992, um relatório divulgando as suas ações sociais. Em 1993, o sociólogo Herbert de Souza, o Betinho, lançou a Campanha Nacional da Ação da Cidadania contra a Fome, a Miséria e pela Vida, com o apoio do Pensamento Nacional das Bases Empresariais (PNBE), que constitui o marco da aproximação dos empresários com as ações sociais. Em 1997, Betinho lançou um modelo de Balanço Social e, em parceria com a Gazeta Mercantil, criou o selo do Balanço Social, estimulando as empresas a divulgarem seus resultados na participação social.

Foi criado, em 1998, o Instituto Ethos de Empresas e Responsabilidade Social pelo empresário Oded Grajew. O Instituto serve de ponte entre os empresários e as causas sociais. Seu objetivo é disseminar a prática da responsabilidade social empresarial por meio de publicações, experiências, programas e eventos para os interessados na temática. Em 1999, a adesão ao movimento social se refletiu na publicação do seu balanço no Brasil por 68 empresas. No mesmo ano, foi fundado o Instituto Coca-Cola no Brasil, voltado à educação, a exemplo da fundação existente nos Estados Unidos desde 1984.
A Câmara Municipal de São Paulo premiou em 1999, com o selo Empresa Cidadã as empresas que praticaram a responsabilidade social e publicaram o Balanço Social e a Associação de Dirigentes de Vendas e Marketing do Brasil (ADVB) incluiu em sua premiação o prêmio Top Social. A Fundação Abrinq pelos Direitos da Criança destacou-se pelo trabalho de erradicação do trabalho infantil, exemplo que atraiu um número crescente de adeptos. A empresa que combate o abuso contra criança ganhou o selo Empresa Amiga da Criança.

O primeiro dado relevante a se destacar na comparação entre 2000 e 1999 é que a média de gastos por empregado cresceu em praticamente todos os indicadores sociais internos, ou seja, o valor gasto com empregados em alimentação, previdência privada, saúde, segurança e medicina no trabalho, educação, cultura, participação nos lucros e capacitação e desenvolvimento profissional foi 80,1% maior em 2000. A média do gasto em previdência privada foi 2,3 vezes maior e a participação nos lucros quase dobrou. A única exceção foi em creche, com redução de 8%. Este crescimento, porém, não quer dizer que o investimento social destas empresas esteja compatível com o que delas se espera. Em todo caso, é um dado positivo.

Dessa forma, observamos que para conquistar um diferencial e obter a credibilidade e aceitação da sociedade e das diversas partes interessadas dentro do universo empresarial, além de novas práticas e da publicação anual dos balanços e relatórios sociais e ambientais, as corporações têm buscado certificações, selos e standards internacionais na área social. Entre os exemplos brasileiros mais significativos, estão o 'Selo Empresa Amiga da Criança', conferido pela Fundação Abrinq; o 'Selo Empresa-Cidadã', que é uma premiação da Câmara Municipal da Cidade de São Paulo; e o 'Selo Balanço Social Ibase/Betinho', do Instituto Brasileiro de Análises Sociais e Econômicas desde 1998.
Neste sentido, não existe uma fórmula geral de responsabilidade social quando se trata de negócios. Mas alguns passos básicos podem ajudar muito na implantação de uma estratégia de boa cidadania corporativa. A seguir, alguns deles:

1 - Desenvolva uma missão, uma visão e um conjunto de valores a serem seguidos.
2 - Para que a responsabilidade social seja uma parte integrante de cada processo decisório, é preciso que ela faça parte do DNA da companhia – seu quadro de missões, visões e valores. Isso leva a um comprometimento explícito das lideranças e dos funcionários com questões como ética nos negócios e respeito a acionistas, clientes, fornecedores, comunidades e meio ambiente.
3 - Coloque seus valores em prática – é básico. De nada adianta ter um maravilhoso quadro de valores na parede do escritório se eles não são exercitados e praticados a cada decisão tomada.
4 - Promova a gestão executiva responsável – esse é um exercício diário e permanente. É preciso fazer com que cada executivo leve em consideração os interesses dos seus partícipes antes de tomar qualquer decisão estratégica.
5 - Comunique, eduque e treine – as pessoas só conseguirão colocar valores de cidadania corporativa em prática se os conhecerem e souberem como aplicá-los no dia-a-dia.
6 - Publique balanços sociais e ambientais – elaborados por especialistas e auditores externos, eles garantem uma visão crítica de como acionistas, funcionários, organizações comunitárias e ambientalistas enxergam a atuação da empresa.
7 - Use sua influência de forma positiva – o mundo corporativo é formado por uma grande rede de relacionamentos. Use os valores cidadãos de sua empresa para influenciar a atuação de fornecedores, clientes e companhias do mesmo setor.


Fonte: Maria Elisabeth Pereira Kraemer

quarta-feira, 25 de março de 2015

Responsabilidade Social - Uma alavanca para sustentabilidade Parte 1


As organizações empresariais, graças à riqueza que acumulam e que têm o potencial de concentrar, trazem em si o grande potencial de mudar e melhorar o ambiente social. Outros valores passaram a fazer parte do objetivo da empresa. A maximização do acionista ainda é um dos objetivos, mas dificilmente será plenamente autêntico se outros objetivos não forem cumpridos, como as responsabilidades sociais e ambientais. Os administradores passaram a preocupar-se mais com as pessoas e o meio em que interagem. A responsabilidade empresarial em relação ao meio ambiente deixou de ser apenas uma postura frente às imposições para transformar-se em atitudes voluntárias, superando as próprias expectativas da sociedade. Compreender essa mudança de paradigma é vital para a competitividade, pois o mercado está, a cada dia, mais aberto e competitivo, fazendo com que as empresas tenham que se preocupar com o controle dos impactos ambientais. Este cenário que, a princípio, parece colocar as organizações em xeque, no que diz respeito às suas relações com a natureza, deve ser encarado como uma oportunidade para que elas passem a implementar práticas sustentáveis de gerenciamento, não apenas como uma postura reativa a exigências legais ou pressões de grupos ambientalistas, mas sim com a intenção de obter vantagens competitivas.

O mundo corporativo tem um papel fundamental na garantia de preservação do meio ambiente e na definição da qualidade de vida das comunidades de seus funcionários. Empresas socialmente responsáveis geram, sim, valor para quem está próximo. E, acima de tudo, conquistam resultados melhores para si próprias. A responsabilidade social deixou de ser uma opção para as empresas. É uma questão de visão, de estratégia e, muitas vezes, de sobrevivência.

Os assuntos ambientais estão crescendo em importância para a comunidade de negócios em termos de responsabilidade social, do consumidor, desenvolvimento de produtos, passivos legais e considerações contábeis. A inclusão da proteção do ambiente entre os objetivos da administração amplia substancialmente todo o conceito de administração Os administradores cada vez mais têm que lidar com situações em que parte do patrimônio das empresas é simplesmente ceifada pelos processos que envolvem o ressarcimento de danos causados ao meio ambiente, independentemente desses danos poderem ser remediados ou não.

A gestão ambiental vem ganhando um espaço crescente no meio empresarial. O desenvolvimento da consciência ecológica em diferentes camadas e setores da sociedade mundial acaba por envolver também o setor empresarial. Naturalmente, não se pode afirmar que todos os setores empresariais já se encontram conscientizados da importância da gestão responsável dos recursos naturais.

A empresa que não buscar adequar suas atividades ao conceito de desenvolvimento sustentável está fadada a perder competitividade em curto ou médio prazo.

O ambiente como estratégia empresarial

O fator ambiental vem mostrando a necessidade de adaptação das empresas e consequentemente direciona novos caminhos na sua expansão. As empresas devem mudar seus paradigmas, mudando sua visão empresarial, objetivos, estratégias de investimentos e de marketing, tudo voltado para o aprimoramento de seu produto, adaptando-o à nova realidade do mercado global e corretamente ecológico.

O paradigma atual de desenvolvimento é um modelo meramente capitalista que visa ao lucro máximo. Portanto, o crescimento econômico em si gera bem-estar à sociedade, e o meio ambiente é apenas um bem privado, no que se refere à produção e descarte dos seus resíduos. Dentro desse processo, ao longo dos últimos 30 anos, pode-se afirmar que os recursos naturais são tratados apenas como matéria-prima para o processo produtivo, principalmente no processo produtivo industrial. O que aconteceu é que este modelo, da maneira como foi idealizado, não é sustentável ao longo do tempo. Ficou claro que os recursos naturais eram esgotáveis e, portanto, finitos, se mal utilizados.

Assume-se que as reservas naturais são finitas e que as soluções ocorrem através de tecnologias mais adequadas ao meio ambiente. Deve-se atender às necessidades básicas usando o princípio da reciclagem.

Este novo fazer foi construído, em grande parte, a partir dos resultados da Rio-92, onde a noção de desenvolvimento sustentável se alastrou e se estruturou. Porém, o que a noção e os conceitos de sustentabilidade trazem como novo desafio são os caminhos para a gestão ambiental.

Nesse aspecto, as empresas têm um papel extremamente relevante. Através de uma prática empresarial sustentável, provocando mudança de valores e de orientação em seus sistemas operacionais, estarão engajadas à ideia de desenvolvimento sustentável e preservação do meio ambiente.

Neste novo paradigma, diz que a ideia é de integração e interação, propondo uma nova maneira de olhar e transformar o mundo, baseada no diálogo entre saberes e conhecimentos diversos. No mundo sustentável, uma atividade – a econômica, por exemplo – não pode ser pensada ou praticada em separado, porque tudo está inter-relacionado, em permanente diálogo.

Os empresários, neste novo papel, tornam-se cada vez mais aptos a compreender e participar das mudanças estruturais na relação de forças nas áreas ambiental, econômica e social. Também, em sua grande parte, já decidiram que não querem ter mais passivos ambientais.

As questões sociais e ambientais são reunidas e passam a ser ainda mais exigidas no conceito de sustentabilidade. A sustentabilidade é um conceito difícil de aplicar em qualquer corporação individual. Ele é basicamente um conceito global. Mas isto não significa que não tenha aplicação em corporações – como, um número cada vez maior de empresas e grupos de pressão/solucionadores de problemas corporativos está rapidamente reconhecendo.

Essa conscientização nos conduzirá ao desenvolvimento sustentável, definido no Relatório Brundtland (Nosso Futuro Comum), elaborado pela Comissão Mundial do Meio Ambiente e Desenvolvimento (1988), como “aquele que atende as necessidades do presente sem comprometer a possibilidade de as gerações futuras atenderem às suas próprias necessidades”.

A administração ambiental está associada à ideia de resolver os problemas ambientais em benefício da empresa. Ela carece de uma dimensão ética e suas principais motivações são a observância das leis e a melhoria da imagem da empresa. Já o gerenciamento ecológico é motivado por uma ética ecológica e por uma preocupação com o bem-estar das futuras gerações. Seu ponto de partida é uma mudança de valores na cultura empresarial.

Quanto ao gerenciamento ecológico, envolve a passagem do pensamento mecanicista para o pensamento sistêmico. Um aspecto essencial dessa mudança é que a percepção do mundo como máquina cede lugar à percepção do mundo como sistema vivo. Essa mudança diz respeito à nossa percepção da natureza, do organismo humano, da sociedade e, portanto, também à nossa percepção de uma organização de negócios.

Neste sentido, refere que há uma consciência social em marcha, cuja formação se acelera e que condena a especulação gravosa da riqueza e o uso inadequado de utilidades, como fatores de destruição do planeta e como lesão à vida dos entes que povoam o mundo.

Esse novo paradigma precisa ser acompanhado por uma mudança de valores, passando da expansão para a conservação, da quantidade para a qualidade, da denominação para a parceria e isto enfatiza que tudo está unido a tudo e que cada organismo não é um sistema estático fechado ao mundo exterior, mas sim um processo de intercâmbio com o meio circunvizinho, ou seja, um sistema aberto num estado quase estacionário, onde materiais ingressam continuamente, vindos do meio ambiente exterior, e neste são deixados materiais provenientes do organismo.

Um sistema vivo não se sustenta somente com a energia que recebe de fora, mas fundamentalmente pela organização da informação que o sistema processar.

As empresas são sistemas vivos, cuja compreensão não é possível apenas pelo prisma econômico. Como sistema vivo, a empresa não pode ser rigidamente controlada por meio de intervenção direta, porém, pode ser influenciada pela transmissão de orientações e emissão de impulsos. Esse novo estilo de administração é conhecido como administração sistêmica.

Responsabilidade Social

As empresas de hoje são agentes transformadores que exercem uma influência muito grande sobre os recursos humanos, a sociedade e o meio ambiente, possuindo também recursos financeiros, tecnológicos e econômicos. Diante disto, procuram colaborar de alguma forma para o fortalecimento destas áreas, com posturas éticas, transparência, justiça social. Os empresários, neste novo papel, tornam-se cada vez mais aptos a compreender e participar das mudanças estruturais na relação de forças nas áreas ambiental, econômica e social.

As companhias estão sendo incentivadas agora e cada vez mais pela administração pública e pelos seus stakeholderes a focalizar seus impactos ambientais e sociais, desenvolver maneiras apropriadas a internalizar e reduzir seus custos associados, e a construção de relatório para uma sustentabilidade ambiental maior.

Nos últimos anos, houve progressos surpreendentes na área de gerenciamento e relatório ambiental e, mais recentemente, o mesmo ocorreu quanto à conscientização sobre a responsabilidade social e a crescente compreensão dos desafios da sustentabilidade.

Todas as empresas gostariam de ser admiradas pela sociedade, por seus funcionários, pelos parceiros de negócios e pelos investidores. O grande problema é estar disposto a encarar os desafios que se colocam no caminho de uma companhia realmente cidadã. O primeiro deles, é o desafio operacional. Uma empresa responsável pensa nas consequências que cada uma de suas ações pode causar ao meio ambiente, a seus empregados, à comunidade, ao consumidor, aos fornecedores e a seus acionistas. De nada adianta investir milhões em um projeto comunitário e poluir os rios próximos de suas fábricas ou dar benefícios e oportunidades a seus funcionários e não ser transparente com seus consumidores, ou ainda preservar florestas no Brasil e comprar componentes de um fabricante chinês que explora mão-de-obra infantil.

Neste sentido, o Parecer de Iniciativa sobre a Responsabilidade Social (2003) diz que a responsabilidade social é a integração voluntária pelas empresas das preocupações sociais e ambientais nas suas atividades comerciais e nas suas relações com todas as partes. É complementar das soluções legislativas e contratuais a que as empresas estão ou podem vir a estar obrigadas e que se aplicam a questões como, por exemplo, o desenvolvimento da qualidade de emprego, a adequada informação, consulta e participação dos trabalhadores, bem como o respeito e a promoção dos direitos sociais e ambientais e a qualidade dos produtos e serviços.

Trata-se, segundo o Parecer de Iniciativa sobre a Responsabilidade Social (2003), de uma noção compreensiva e abrangente, que se situa mais no âmbito das boas práticas e da ética empresarial e da moral social do que no dos normativos jurídicos. Abrange aspectos tão diversos como os que vão da gestão de recursos humanos e da cultura de empresa até a escolha dos parceiros comerciais e das tecnologias. Implica, pois, uma abordagem integrada das dimensões financeira, tecnológica, comercial, deontológica e social da empresa, tanto mais quanto ela é, na sua essência, uma comunidade de pessoas ao serviço do bem comum.

A responsabilidade social das empresas é, essencialmente, um conceito segundo o qual as empresas decidem, numa base voluntária, contribuir para uma sociedade mais justa e para um ambiente mais limpo.

A empresa é socialmente responsável quando vai além da obrigação de respeitar as leis, pagar impostos e observar as condições adequadas de segurança e saúde para os trabalhadores, e faz isso por acreditar que assim será uma empresa melhor e estará contribuindo para a construção de uma sociedade mais justa. 



Fonte: Maria Elisabeth Pereira Kraemer

terça-feira, 24 de março de 2015

Incineração - Bem ou Mal


A incineração é um processo de decomposição térmica, onde há redução de peso, do volume e das características de periculosidade dos resíduos, com a consequente eliminação da matéria orgânica e características de patogenicidade (capacidade de transmissão de doenças) através da combustão controlada. A redução de volume é geralmente superior a 90% e em peso, superior a 75%.

Para a garantia do meio ambiente a combustão tem que ser continuamente controlada. Com o volume atual dos resíduos industriais perigosos e o efeito nefasto quanto à sua disposição incorreto com resultados danosos à saúde humana e ao meio ambiente, é necessário todo cuidado no acondicionamento, na coleta, no transporte, no armazenamento, tratamento e disposição desses materiais.

Segundo a ABETRE (Associação Brasileira de Empresas de Tratamento, Recuperação e Disposição de Resíduos Especiais) no Brasil, são 2,9 milhões de toneladas de resíduos industriais perigosos produzidos a cada 12 meses e apenas 600 mil são dispostas de modo apropriado. Do resíduo industrial tratado, 16% vão para aterros, 1% é incinerado e os 5% restantes são co-processados, ou seja, transformam-se, por meio de queima, em parte da matéria-prima utilizada na fabricação de cimento.

O extraordinário volume de resíduo não tratado segue para lixões, conduta que acaba provocando acidentes ambientais bastante graves, além dos problemas de saúde pública. Os 2 milhões de resíduos industriais jogados em lixões significam futuras contaminações e agressões ao meio ambiente. No Estado de São Paulo, por exemplo, já existem, hoje, 184 áreas contaminadas e outras 277 estão sob suspeita de contaminação.

A recente Pesquisa Nacional de Saneamento Básico (PNSB) realizada pelo IBGE colheu dados alarmantes quanto ao destino das 4.000 toneladas de resíduos produzidos pelos serviços de saúde, coletadas diariamente e provenientes dos 5.507 municípios brasileiros. Apenas 14% das prefeituras pesquisadas afirmaram tratar do lixo de saúde de forma adequada. Este tipo de lixo “é um reservatório de microorganismos potencialmente perigosos, afirma documento da OMS (Organização Mundial da Saúde).

Para os resíduos de saúde classificados como patogênicos, por exemplo, uma das alternativas consideradas adequadas pelo Conselho Nacional do Meio Ambiente (Conama) é a incineração. A redução de passivos ambientais constituídos por resíduos perigosos tem encontrado na incineração em alta temperatura, a melhor técnica disponível e mais segura, confirma engenheiro químico de uma empresa.

No Brasil, a destruição de resíduos pela via do tratamento térmico pode contar com os incineradores industriais e com o co-processamento em fornos de produção de clinquer (cimenteiras). A Resolução Conama 264/99 não permite que os resíduos domiciliares brutos e certos resíduos perigosos venham a ser processados em cimenteiras, tais como os provenientes dos serviços de saúde, os rejeitos radioativos, os explosivos, os organoclorados, os agrotóxicos e afins.

Processo de Incineração

Para que um resíduo chegue a ser incinerado é necessário que ele esteja apto a ser transportado e esteja devidamente caracterizado, física, química e físico-quimicamente. Há uma série de atividades preliminares que podem ser desempenhadas ou pelo gerador ou pelo prestador de serviço de incineração ou por um terceiro, preposto credenciado de um dos dois.

Estas atividades resumem-se a exame de carga e seu acondicionamento (a granel, em sacos, em bombonas, em tambores metálicos, em containers, etc), coleta de amostra composta para a caracterização em laboratório, acondicionamento para o transporte, obtenção das Licenças Ambientais junto aos órgãos ambientais nas duas pontas (gerador e incinerador), aviso ou permissão de tráfego de outros Estados situados no roteiro, carregamento do veículo e amarração de carga, inspeção geral do veículo, da documentação e do motorista.

É bem verdade que uma grande parte de resíduos que antes eram encaminhados para essas empresas, atualmente estão indo para cimenteiras. Esse quadro competitivo entre as duas alternativas conduziu a uma redução substancial nos preços outrora cobrados pelos incineradores, acirrando a concorrência. Acredita-se que uma maior consciência está sendo incutida nos geradores de resíduos, em grande parte provocada pelo receio das sanções oriundas da aplicação da lei de Crimes Ambientais e também por uma maior ação fiscalizadora dos órgãos ambientais. Esses fatos vêm trazendo novos negócios para os incineradores e também para as cimenteiras.

Método Contestado

A incineração e o co-processamento em fornos de cimento são apresentados como as principais políticas para a redução de resíduos.

Segundo avaliação do Greenpeace estes métodos são prejudiciais à saúde humana, pois despejam substâncias tóxicas no meio ambiente, causando severos danos. Mas, um estudo da ABLP - Associação Brasileira de Limpeza Pública, mostra que os sistemas modernos de incineração de lixo são dotados de sistemas computadorizados de controle contínuo das variáveis de combustão, tanto na câmara primária quanto na de pós-combustão, bem como, nas demais etapas de depuração de gases e geração de energia.

Para os estudiosos, o processo de incineração no Brasil, ganhou o conceito de poluidor, nocivo à saúde e prejudicial ao meio ambiente devido ao uso de equipamentos já obsoletos ou à operação e manutenção inadequadas. Sob vários aspectos, a incineração constitui o processo mais adequado para a solução ambientalmente segura e problemas de disposição final de resíduos.

A entidade ambientalista alega também que em diversos países a incineração tem sido preterida, porém, o trabalho da ABPL, diz que em países como Alemanha, Japão, Suíça e EUA, por exemplo, muitas plantas foram construídas recentemente, além do que outras estão em construção, principalmente para a geração de energia. Esta reversão de deu principalmente nos últimos anos com o avanço das tecnologias de depuração de gases e dos controles “on line”, por computador, de todas as emissões gasosas e líquidas. Nestes últimos anos, a maioria das instalações de tratamento de gases, das principais plantas naqueles países foram substituídas e hoje atendem às exigentes normas de proteção ambiental.

Atualmente, segundo trabalho da ABLP, o tratamento de gases é ainda mais sofisticado, perseguindo a meta de emissão zero. Crescem os sistemas para a remoção de outros poluentes como NOx, dioxinas e furanos, além do aparecimento das tecnologias avançadas de tratamento para a produção de resíduos finais inertes, que podem ser reciclados ou dispostos sem nenhum problema para o meio ambiente, tal como o uso do plasma térmico.

Vários processos estão se sofisticando atualmente no pré-tratamento do lixo, anterior à incineração, para aumentar a sua homogeneização, baixar a umidade e melhorar o poder calorífico, de tal forma a transformá-lo em um combustível de qualidade para a máxima geração de energia. Sofisticam-se também os processos de combustão com o aumento dos sistemas de turbilhonamento, secagem, ignição e controle da combustão.

Por mais que a tecnologia tenha avançado não há incineração limpa

Este enorme investimento na incineração vai deitar abaixo a política de redução, reutilização e reciclagem, e vai impedir que se cumpram as metas para reutilizar através de reciclagem.

Centros de triagem e centros de valorização orgânica através da compostagem, para produção de biogás ou composto para agricultura, seria melhor não só para o Ambiente, como também iria permitir a criação de mais postos de trabalho.

Do ponto de vista ambiental, em vez de melhorar, agravarão ainda mais as condições atmosféricas desfavoráveis à vida humana, animal e vegetal. Isso porque a substituição é realizada conjuntamente com ambicioso aumento de capacidade de geração. Mesmo trocando emissões mais sujas por outras menos agressivas, o aumento de queima “limpa” representa uma troca de seis por meia dúzia.  Assim, só ganhou o empreendedor, enquanto a sociedade ficou com a dura conta dos impactos ambientais. 

Nos porões do inconsciente coletivo, estamos enfrentando velhos mitos, em especial o de Midas. O ritmo econômico sobrepõe-se sobre ao ritmo biológico, natural. Sem regras neste jogo, ganham os poderosos, ganha a lógica da concentração de poder e riqueza a qualquer custo social. E quem deveria colocar as claras regras do jogo? Sem dúvida o poder público! Sua omissão cria fragilidades enormes por falta de planejamento, sem meios estruturais e preventivos para a poluição. Há falta de sintonia entre ciência, controle e monitoramento ambiental e ações preventivas para a proteção da saúde humana e ambiental, resultando em maior vulnerabilidade para a população.

Termelétricas são máquinas poluidoras, na medida em que lançam na atmosfera toneladas de NOx, hidrocarbonetos metânicos e não-metânicos, CO² (monóxido de carbono), entre outros. Como via de escape e adequação, procede-se com frequência à prática de troca de emissões, condicionando novos empreendimentos à melhores sistemas de controle e tecnologia, que proporcionem redução da poluição, mas que será automaticamente preenchida pelo novo contribuinte licenciado na bacia atmosférica, ou como já dito, seis por meia dúzia.

Atualmente, surgem novos atores. Juntam-se ao cenário de áreas saturadas propostas de incineradores, que prometem uma formula mágica para a resolução das montanhas de resíduos produzidos pela sociedade contemporânea. Sem audiências públicas, sem discussão com a academia, setores do governo estadual anunciaram este ano que a tecnologia da incineração deverá ser a alternativa preferencial para a destinação de resíduos sólidos. Assim, mais uma vez, a sociedade se vê atropelada e instada a reagir para proteger-se de iniciativas poluentes, desta vez, patrocinada pelo próprio governo, seja ele federal ou estadual.

Os incineradores têm sido uma verdadeira armadilha para a sociedade contemporânea. Seu histórico é brutal. É preciso ressaltar os clássicos casos de emissão de particulados, dioxinas, furanos e metais pesados, bem como a falta de estudos sobre as condições de nossas bacias atmosféricas relacionadas a estes poluentes. Os efeitos adversos dessas substâncias, que incluem câncer, estão registrados em toneladas de documentos de inquestionáveis fontes científicas.

Parece óbvio que planejar o caos é sempre conveniente para alguns setores econômicos, como ocorre na questão dos resíduos. Quanto mais demorar a implementação de uma política de uso racional e de lógica reversa para a cadeia produtiva, maior será a dificuldade de transformação social. Para obter produção de calor e energia nos incineradores, muito material que poderia ser reciclado será incinerado e queimar tudo permitirá manter a festança como está, principalmente para o setor produtivo.

É preciso estabelecer um grande debate público, onde se possa questionar e repensar a equação termelétricas e incineradores aos olhos das ações a favor da sociedade e da sustentabilidade.
Incineração do lixo é o perigo disfarçado de solução. É importante entender que o que se tornar cinzento, não se poderá voltar a ser pintado de verde. 



Fonte: www.ambientebrasil.com.br e Luiz Henrique Lopes

segunda-feira, 23 de março de 2015

Dia Mundial da Água 2015


No dia 22 de Março 2015, comemorou o Dia Mundial da Água, apesar de que nesta data ela é bem lembrada, a mesma deveria ser "comemorada" todos os dias pois sem ela não temos vida.

História do Dia Mundial da Água

O Dia Mundial da Água foi criado pela ONU (Organização das Nações Unidas) no dia 22 de março de 1992. O dia 22 de março, de cada ano, é destinado à discussão sobre os diversos temas relacionadas a este importante bem natural.

Mas porque a ONU se preocupou com a água se sabemos que dois terços do planeta Terra é formado por este precioso líquido? A razão é que pouca quantidade, cerca de 0,008 %, do total da água do nosso planeta é potável (própria para o consumo). E como sabemos, grande parte das fontes desta água (rios, lagos e represas) esta sendo contaminada, poluída e degradada pela ação predatória do homem. Esta situação é preocupante, pois poderá faltar, num futuro próximo, água para o consumo de grande parte da população mundial. Pensando nisso, foi instituído o Dia Mundial da Água, cujo objetivo principal é criar um momento de reflexão, análise, conscientização e elaboração de medidas práticas para resolver tal problema.

No dia 22 de março de 1992, a ONU também divulgou um importante documento: a “Declaração Universal dos Direitos da Água” (leia abaixo). Este texto apresenta uma série de medidas, sugestões e informações que servem para despertar a consciência ecológica da população e dos governantes para a questão da água.

A realidade

Note-se que os efeitos negativos das políticas que têm poluído muito a gestão equilibrada dos recursos hídricos. Prioridades do seu consumo básico são cada vez mais desviados em favor das necessidades industriais de multinacionais e monopólios que são ativados nas principais atividades de negócios. No entanto, verificou-se que um quinto da água consumida no planeta é tragado por produtos para exportação. Através desta dinâmica comercial, os países desenvolvidos estão aumentando a pressão sobre áreas sensíveis, muitas vezes na falta de políticas de conservação deste recurso escasso.

Justamente no ano em que se encerra a Década da Água - 2005 á 2015, proclamada pelas Nações Unidas, muitos países do mundo - e particularmente o Brasil, finalmente se dão conta que a água é um recurso finito. E extremamente valioso.

Infelizmente, em nosso país, foram á seca prolongada e o iminente risco de falta d’água em diversas cidades que fizeram com que governantes e população encarassem esta realidade, embora basta que se abra uma pequena brecha ao dizer que reservatórios estão com nível mais alto a população volta ao abuso e desperdício, uma triste realidade.

Água é um bem essencial para que o planeta enfrente os desafios das próximas décadas. Com o aquecimento global, recursos hídricos serão ainda mais fundamentais para que a produção de alimentos possa atender a população global, que deverá chegar a 9 bilhões de habitantes.

Outro grande problema que ainda faz parte do dia-a-dia de milhares de pessoas no mundo é a falta de acesso a saneamento básico e água potável. Mas antes de tudo, será necessário fazer com que ela não falte através de uma gestão hídrica mais consciente e sustentável. Afinal, sem água, não há vida.

"SEM ÁGUA NÃO HÁ VIDA" - Lembre-se disso!!!



Fonte: www.planetasustentavel.abril.com.br

sexta-feira, 20 de março de 2015

A mineração na Amazônia e o falso brilho da festa


Os pesquisadores fazem referência ao que chamam de um processo de desmonte da legislação ambiental brasileira. As regras para desmatamentos legais foram flexibilizadas pelo Congresso no novo Código Florestal, houve redução de unidades de conservação nos últimos anos para permitir a construção de grandes usinas hidrelétricas, e agora há uma tentativa de liberar áreas protegidas para a mineração. O Brasil não deveria desperdiçar a liderança e sucesso ambiental, duramente conquistados, em favor de projetos de desenvolvimento de curta duração que deixam um longo legado de destruição ambiental.

A história

Ao se casar, a cientista ambiental Annie Leonard recusou-se a buscar em uma joalheria da moda o seu anel de ouro, novo em folha, como costuma acontecer à maioria dos noivos nesse momento, repleto de simbolismos. Preferiu garimpar em um antiquário uma peça usada, que lhe ornasse o dedo anular. O episódio é descrito em seu extraordinário livro A História das Coisas (Editora Zahar), em que a autora faz uma análise sobre a origem das coisas que consumimos no dia a dia. Ela relaciona essa origem aos processos produtivos, nem sempre limpos, como ocorre com o algodão de nossas prosaicas camisetas básicas, ou mesmo o ouro, cuja extração ao redor do mundo ainda deixa um rastro obscuro de devastação ambiental, social, humana.

Ao optar em não estimular o consumo do metal, nossa protagonista rompeu com cadeia produtiva nefanda na qual o ouro costuma estar metido.

Embora haja iniciativas ao redor do mundo que tentam limpar a pegada do metal precioso, fato é que para a América Latina o tema carece de emergencial revisão.

Entre 2001 e 2013, cerca de 1.680 km² de floresta tropical, algo como a cidade de São Paulo, foram perdidos para a atividade ilegal na região, conforme recente estudo feito pela Universidade de Porto Rico, liderado pela pesquisadora Nora Álvarez-Berríos e publicado na revista Environmental Research Letters.

Segundo a pesquisa, nas florestas tropicais do continente sul-americano, a maior parte (89%) do garimpo ocorre em quatro regiões, sobretudo nas florestas peruanas e no interior da Colômbia. No Brasil, o epicentro da destruição está situado entre os rios Tapajós e Xingu, no Pará. Em uma década, o número de garimpeiros no país praticamente dobrou e a atividade ilegal ameaça rios, florestas e populações ribeirinhas.

O uso do mercúrio é indiscriminado e corre solto na floresta, sem controle do estado. As condições nos garimpos são sub-humanas: drogas, exploração sexual e trabalho escravo são mazelas que costumam acompanhar a extração ilegal do ouro na floresta.

E o problema também mancha zonas de fronteira, a exemplo da interseção entre o estado do Amapá e a Guiana Francesa. Ali, há décadas vêm-se tentando conter a explosão do garimpo ilegal naquela que é uma das regiões mais ricas em minério do mundo.
Depois de se arrastar por seis anos nos corredores do Congresso Nacional, finalmente o Brasil ratificou um acordo com a França, em que os dois países se comprometem em atuar em conjunto contra o garimpo ilegal de ouro em uma faixa de 150 quilômetros em ambos os lados da fronteira entre a Guiana e o estado do Amapá. Lá, o conflito social gerado pelo garimpo ilegal já matou gente e gerou mal-estar entre as autoridades nacionais.

A extração ilegal do ouro ameaça a preservação do patrimônio ambiental do Planalto das Guianas e compromete a saúde e a segurança das populações que extraem os seus meios de subsistência da floresta. Por isso é preciso implantar um regime interno completo de regulamentação e controle das atividades de pesquisa e lavra de ouro nas áreas protegidas ou de interesse patrimonial. Falta agora desenhar o plano de ação.

Ao regressar do recesso de fim de ano, o que vi na imprensa sobre o tema do garimpo ilegal foi uma declaração do governo dizendo que a Polícia Federal está em campo e que vêm aí mais cenas desse capítulo. Me pus a pensar: Será que não veremos por parte do governo brasileiro iniciativas que apontem para além da repressão pura e simples aos miseráveis garimpeiros e seus sonhos dourados de enriquecimento? Pois são eles que acabam presos nas operações. A abominável teia que os move segue blindada, bem longe da miséria humana que se oculta na floresta. Não haverá na nenhuma forma de inclusão desses contingentes que agem na ilegalidade amazônica?

Pelo visto, o governo vai apostar no licenciamento como resposta a esse drama socioambiental. Em breve, vamos ouvir os governadores da Amazônia, de olho no que podem haurir, fazendo coro ao “Legalize Já” do garimpo.

Para nós, simples mortais, fica a recomendação dos estudiosos porto-riquenhos para que evitemos o consumo desnecessário de ouro ou mesmo o investimento financeiro nesse metal como forma de desestimular cadeias produtivas que destroem o ambiente em que se instalam. Investigar a origem das coisas que povoam nosso consumo também pode revelar surpresas. Nem sempre agradáveis.



Fonte: Maria Cecília Wey de Brito - Secretária Geral do WWF-Brasil

quinta-feira, 19 de março de 2015

Ar condicionado resfria o ar, mas esquenta a atmosfera


Atire o primeiro pinguim de louça quem não pensou nisso neste verão: está na hora de comprar um ar-condicionado. Com a seca e as temperaturas batendo recordes no centro-sul do país, esse eletrodoméstico virou um estranho objeto do desejo em lugares onde ele nunca foi assim tão necessário, como São Paulo, Brasília e Porto Alegre. De artigo de luxo, ou algo que só pertencia à vida doméstica de manauaras e cariocas, o refrigerador de ar converteu-se quase em gênero de primeira necessidade. Muita conversa de bar por aí tem terminado com brados para que o governo crie uma bolsa-ar-condicionado.

Duas más notícias sobre isso: a primeira é que, de fato, esses aparelhos provavelmente vieram para ficar na maior parte do Brasil. O país já está mais quente, e a previsão dos cientistas é que fique mais quente ainda nos próximos anos. Em 2014, ano em que as temperaturas globais foram as maiores da história, o Sudeste brasileiro registrou médias 1ºC a 2ºC superiores às do período 1961-1990, segundo a Organização Meteorológica Mundial. Há menos dias frios no inverno e mais noites quentes no verão. O calor senegalês (senegalês nada! Carioca! Em dezembro passado, a sensação térmica no Rio bateu os 55ºC) que abriu 2015 é o que os cientistas chamam de “novo normal”.

Usar mais condicionadores de ar é uma reação natural de adaptação ao clima mais quente. No ano passado, essa reação fez com que o consumo residencial de energia crescesse duas vezes mais do que o total nacional. Com algumas exceções, essa tem sido a tônica desde o início da série de resenhas da Empresa de Pesquisa Energética, em 1995: anos de calor e seca fazem o consumo de energia das famílias elevar-se acima da média do país. Em 1998, ano de El Niño, o crescimento foi de 7,1% contra 4,1%, respectivamente. Em 2005, de 5,3% contra 4,4%. Em 2010, outro ano de temperaturas extremas, a média nacional cresceu mais – mas lembre-se de que foi o ano em que o país “bombou”, com o PIB explodindo em saudosos 7,5%. Em 2013, ano em que a seca fez o governo acionar as térmicas permanentemente, o consumo residencial cresceu quase duas vezes mais que a média do país.

E aqui vai a segunda e paradoxal má notícia: ao fazermos isso, estamos aliviando nosso problema imediato, mas ajudando a agravar ainda mais o aquecimento da Terra. Isso porque condicionadores de ar, como sabe qualquer um que tenha pago sua conta de luz em janeiro, consomem um monte de energia. E a energia, no Brasil, está cada vez mais rica em gás carbônico, principal culpado pelo nosso novo (e desconfortável) clima.

Somente entre 2012 e 2013, as emissões de gases de efeito estufa por uso de energia no Brasil cresceram 7,3%. Parte disso se deve ao aumento do consumo de gasolina e diesel, mas parte se deve à “fossilização” progressiva da nossa matriz. Os dados são do SEEG, o sistema de estimativa de emissões de gases-estufa desenvolvido pelo Observatório do Clima.

Com pouca água nos reservatórios das hidrelétricas devido a três estiagens consecutivas e a seu assoreamento pela  destruição de matas ciliares nos rios que os abastecem, o governo apostou nas termelétricas a carvão, óleo e gás para evitar o racionamento – que só não veio ainda porque a indústria, maior consumidora de eletricidade, foi à lona no governo Dilma. No total, as emissões por queima de combustíveis no setor elétrico cresceram cerca de 20 milhões de toneladas de CO2 em um ano, segundo dados do Instituto Energia e Meio Ambiente. Ainda é pouco diante do total de 1,6 bilhão de toneladas que o país emite, mas a trajetória da matriz brasileira não é nada inspiradora: entre 2011 e 2013, a geração fóssil mais que dobrou, saltando de 8,4% para 18,3% do total.

Previsões para o futuro

As previsões para os próximos 25 anos são áridas, em vários sentidos: com cada vez mais calor e estiagem, haverá cada vez menos água nos reservatórios. Isso tornará a energia de Belo Monte e outras usinas cara demais. Com a queda dos preços do petróleo e um excesso de carvão mineral barato circulando no mundo – já que China, EUA e Europa estão progressivamente regulando suas emissões e reduzindo o uso desse combustível –, o crime das térmicas passará a compensar no Brasil, do ponto de vista estritamente monetário.

É aqui que entra aquele split de 10 mil BTU com controle remoto que você acaba de financiar em lojas do ramo: se cada uma das 65,9 milhões de residências que consomem energia no país tivesse um aparelho desses funcionando seis meses ao ano só em dias de semana, teríamos de ter duas usinas de Belo Monte operando no máximo (11.400 megawatts) só para alimentá-los. Ninguém tem dados atualizados sobre o peso do ar condicionado na nossa trajetória de emissões, mas um estudo de 2008 da Coppe-UFRJ dá uma pista: em 2030 nosso novo objeto do desejo representaria, sozinho, 9% a mais no consumo de energia no país em relação a 2007. Boa parte disso iria direto para a atmosfera, num círculo vicioso de mais calor, mais ar-condicionado, que produz mais calor e exige mais ar-condicionado.

Isso se nós e nossos governantes ficarmos parados de braços cruzados esperando a próxima canícula, ou quem sabe a próxima promoção de alguma loja.

Sob o risco de parecermos repetitivos, permitam-nos dizer que há no mercado tecnologias disponíveis para mitigar o problema. O Brasil tem vento de sobra, e a energia eólica só cresce no país. Tem sol (e como!), e os painéis solares estão cada vez mais baratos. Desde 2013, as distribuidoras já são obrigadas a permitir que sistemas fotovoltaicos residenciais troquem energia com a rede. O investimento inicial é alto, mas se paga com a redução na conta de luz.

Os consumidores têm um papel fundamental: reduzir seu uso de energia e pressionar suas distribuidoras para fazê-las cumprir a regra. Mas é do governo a principal tarefa: mudar seu planejamento energético, embutindo nele o fator mudança do clima e incentivando em escala a geração distribuída e a eficiência. É hora de subsidiar a energia solar com os mesmos juros de pai para filho do BNDES que beneficiam nossas ausentes hidrelétricas. Quem sabe o calor e o iminente apagão de 2015 não ajudam a refrescar as ideias e iluminar as mentes dos nossos tomadores de decisão.



Fonte: Carlos Rittl e Ricardo Baitelo

quarta-feira, 18 de março de 2015

Brasil cria poucas unidades de conservação


No auge da crise hídrica vivida pelo sudeste, estranhamente, pouco se fala em meio ambiente, menos ainda em conservação da natureza. E se nem diante da eminente sede paulista esses temas tão intrinsicamente ligados ao abastecimento não são trazidos a tona, menos ainda se fala em unidades de conservação.

O que são mesmo unidades de conservação

São a melhor forma de conservar a natureza. São também o melhor serviço social que se pode prestar a uma sociedade, já que ao preservar a biodiversidade, estamos também conservando os recursos que nós precisamos para sobreviver: qualidade do ar, manutenção do clima, solos férteis, polinização para a agricultura, segurança contra desmoronamentos de encostas e... água.

Se as águas que brotam das nascentes da mata atlântica abastecem as grandes cidades do Sul e do Sudeste, as águas que vêm do cerrado ajudam a manter a qualidade dos solos agricultáveis do Sudeste e Centro-Oeste, além de escoar para o Nordeste. De cima, através dos rios voadores é a evaporação na Amazônia que traz a chuva para as áreas agrícolas de todo o centro-sul. Tudo está interligado.

Sabemos disso. Há tempos sabemos. Porém na corrida desenvolvimentista de curto prazo, que impera ano após ano no nosso país, não levamos esse tipo de informação a sério – ou pelo menos não com a seriedade que deveríamos – muito mais fácil acreditar que um milagre vindo dos céus irá salvar a todos. Se o milagre em questão for água, para acontecer vai antes precisar de florestas.

E as unidades de conservação, o que têm a ver com isso? Tudo. São elas, que em dimensão e quantidade preservam toda essa intricada rede de serviços ambientais, sem os quais sucumbimos. Não obstante, são hoje as mais esquecidas. Signatário da Convenção da Biodiversidade (CDB) desde 1992, o Brasil se comprometeu a proteger pelo menos 10% de cada um dos seus sete biomas em unidades de conservação (UCs). Não cumpriu. Mais recentemente, também se comprometeu com as Metas de Aishi a proteger 17% de cada bioma do seu território. Ainda está longe de cumprir.

Embora a Amazônia esteja relativamente bem representada, com cerca de 30% de área protegida em unidades de conservação, outros biomas não poderiam estar pior representados: o marinho, por exemplo, somando tudo e mais um pouco não chega a ter 1,5% de área protegida. De onde virão os estoques de peixes no futuro? A caatinga hoje não tem nem 2% da área em UCs de proteção integral. O pampa... quem lembra do pampa?

Se os números per se demonstram nossa falta de comprometimento com a natureza e com a sobrevivência dos nossos filhos – e os filhos dos nossos filhos – o panorama fica um pouco mais complicado quando olhamos para nossa história recente.

As primeiras UCs brasileiras foram criadas na década de 1930, com os Parques Nacionais de Itatiaia e Iguaçu, sendo que nas décadas seguintes, especialmente durante o governo militar, a demarcação de UCs aconteceu de forma modesta porém contínua. Em muitos casos levava em conta a proteção de áreas fronteiriças e estratégicas para a defesa do país.

Com o fim da ditatura e em seguida com a promulgação da lei que regulamenta o Sistema Nacional de Unidades de Conservação, Lei 9985/2000, somada à constatação de que para conservar a natureza são necessárias grandes extensões e conectadas entre si, e com alguma vontade política, houve um notável avanço no processo de criação. Somando os oito anos do governo FHC aos oito do governo Lula, a área protegida do Brasil foi praticamente triplicada em hectares, passando de pouco mais de 20 milhões para cerca de 75 milhões de hectares em 2010 quando Dilma assumiu.

Problemas sobravam, claro. Falta de recursos e toda a sorte de investimentos, falta de equipe, de capacitação, provisões, regularização fundiária... Tudo isso estava muito aquém do necessário, mas pelo menos as unidades de conservação estavam sendo criadas. Ter as UCs criadas era antes de tudo uma tentativa de resguardar parte da biodiversidade dos avanços desenfreados e da política de governo imediatista, desprovida de visão, que impera nesse país independente da mão que o governa. Se faltavam os recursos para implementação, ao menos havia uma perspectiva de que em longo prazo, com as áreas preservadas, o quadro pudesse ser pouco a pouco melhorado.

Longe do ideal, mas um pouco mais próximo do minimamente aceitável, havia alguma lógica no processo. Havia… A linearidade desse processo desmoronou nos últimos quatro anos. Resultado da pressão constante de setores como agricultura, mineração, energia e as proposições do PAC, levaram à estagnação do processo de criação de UCs no Brasil. Somente oito UCs federais foram criadas nesses últimos quatro anos, seis delas na última semana, a toque de caixa para não comprometer ainda mais a imagem de um governo ambientalmente descomprometido. Não fosse isso aliás, o governo Dilma entraria para a história como o primeiro a não criar uma única UC na Amazônia. Para não levar esse troféu indigesto, foram criadas 4 UCs nesse bioma, sendo três reservas extrativistas. As áreas são a Resex Marinha Mocapajuba (21 mil hectares), a Resex Marinha Mestre Lucindo, (6,4 mil hectares) e Resex Marinha Cuinarana, (11 mil hectares), além da Estação Ecológica de Maués. Essa última, assim como o também recém criado Parque Nacional de Gandarela em Minas Gerais, já nasce sob a mira da mineração em seu entorno imediato, sinalizado no próprio Decreto de Criação. Um risco anunciado e previamente calculado.

Do pacote de bondades de final de mandato, ficaram de fora o Parque Nacional de Alcatrazes e a ampliação do Parque Nacional Marinho de Abrolhos, importantíssimos berçários da vida marinha. Também ficou de fora o tão aclamado e desejado Parque Nacional do Boqueirão da Onça, na Bahia, uma das mais fantásticas e bem preservadas áreas caatinga, que ainda abriga uma das últimas populações de onça-pintada desse bioma, além de alguns indivíduos da arara-azul-de-lear, o nosso famoso tatu-bola e tantas outras espécies de flora. Aliás, o próprio nome “Boqueirão da Onça” pode ser traduzido como ‘o lugar onde a onça bebe água’. São poças encrustadas nos paredões rochosos das chapadas e serras que em sua base acumulam a rara água da chuva. Não só as onças, como toda a fauna se abastece nesses poços. Também abriga um vasto número de nascentes, algumas perenes, que matam a sede de milhares de sertanejos que vivem em seu entorno. Água na Caatinga é ouro, e o Boqueirão é uma mina, hoje desprotegido e a céu aberto, que precisa com urgência ser transformado em um parque nacional.

Voltando ao Sudeste, um antigo projeto que pretendia criar o Parque Nacional dos Altos da Mantiqueira, uma das caixas d’água da região, sequer é mencionado hoje em dia...

Há dez anos atrás nenhum brasileiro imaginaria que a grande São Paulo, a cidade mais rica do país, estaria passando por uma crise dessas por conta de um elemento tão básico quanto abundante em nosso país.

Agora pense: A "terra da garoa" (São Paulo - Brasil),sofre agora por falta d’água, imagine daqui há 30 anos.



Fonte: Angela Kuczach

terça-feira, 17 de março de 2015

Natureza: É preciso ver para valorizar


Todo mundo já ouviu falar de aquecimento global, de excessos de chuva em algumas regiões e secas em outras, de frios rigorosos e calor escaldante, entre outros acontecimentos que, de certa forma, nos fazem perceber que o planeta está mudando, mesmo que não necessariamente nos preocupemos em entender o porquê.

“O que os olhos não veem o coração não sente”, diz o provérbio repetido pela sabedoria popular. Da mesma forma, a nossa relação com a natureza muitas vezes passa despercebida por não a enxergarmos diante de tantos prédios e muros que nos cercam. Imaginando que o céu é o limite, muitas vezes só conseguimos enxergar mesmo o céu e, por não sentirmos a natureza presente, não percebemos os benefícios que ela nos traz.

Nos protegemos do sol à sombra de uma árvore, mas muitas vezes não percebemos a árvore. Abrimos a torneira repetidas vezes, mas não nos perguntamos de onde vem a água e como ela chega até ali. Nesse sentido, a crise de água que atinge várias regiões do país tem contribuído, apesar da forma trágica, para a percepção do quanto dependemos dos serviços ambientais prestados pela natureza. Para termos água em quantidade e qualidade, precisamos proteger com as florestas os rios, nascentes e mananciais que abastecem os reservatórios. E para protegê-los, é necessário entender que  ambientes naturais conservados e saudáveis são fundamentais para garantir a qualidade de vida e o bem-estar de todos. Ter a percepção de que estamos cercados e fazemos parte da natureza nos aproxima cada vez mais dela.

Muitos acreditam que a Mata Atlântica está presente somente nos remanescentes florestais distantes dos locais onde vivem, sem notar que mesmo as áreas urbanas já bastante modificadas pela ação humana fazem parte do bioma. Mais de 145 milhões de pessoas, o equivalente a 72% da população brasileira, vivem em cidades da Mata Atlântica. No entanto, e principalmente para quem está nos grandes centros urbanos, a percepção em relação à natureza deixa de ser diária e passa a ser algo específico e prazeroso a ser desfrutado nos finais de semana com passeios nos parques, praças ou viagens.

A educação ambiental vem com a premissa de fazer com que as pessoas e a comunidade tomem consciência do meio ambiente e adquiram os conhecimentos, valores, habilidades e  experiências para  agir, individual e coletivamente, para resolver problemas ambientais presentes e futuros. Isto porque uma nova visão de mundo está ganhando cada vez mais espaço entre as pessoas que estão em busca da melhoria da qualidade de vida e da formação de um novo estilo, em que o consumo consciente prevalece em relação ao desperdício dos recursos naturais e da degradação ambiental.

Cabe a todos participar desse processo de transformação da sociedade atual em uma sociedade sustentável, centrado no exercício responsável da cidadania, que considere a natureza como um bem comum, leve em conta a capacidade de regeneração dos recursos materiais, promova a distribuição equitativa da riqueza gerada e lute por condições dignas de vida para as gerações atuais e futuras. Para que isso ocorra, é preciso formar humanos conscientes, críticos e éticos, aptos portanto a enfrentar esse novo paradigma.

A Fundação SOS Mata Atlântica realiza ações de educação ambiental e mobilização que buscam contribuir com esse processo, como é o caso da exposição itinerante “A Mata Atlântica é aqui”, que já passou por 177 cidades sensibilizando um público de 815 mil pessoas, e o projeto “Aprendendo com a Mata Atlântica”, que ocorre no Centro de Experimentos Florestais da instituição, em Itu, interior de São Paulo, e recebe durante todo o ano grupos de estudantes para atividades de vivência na natureza.

Claro que além da educação informal, como os exemplos promovidos pela SOS Mata Atlântica, se faz necessário o trabalho de educação ambiental no âmbito escolar. No Brasil, temos a Política Nacional de Educação Ambiental (PNEA) que dispõe sobre a educação ambiental e determina que ela deve ser desenvolvida como uma prática educativa integrada, contínua e permanente em todos os níveis e modalidades do ensino formal.

Infelizmente, sabemos que na prática a aplicação da educação ambiental no ensino formal está mais relacionada ao interesse do professor pelo tema e que a grande maioria das escolas só trabalham a matéria em datas pontuais, como o Dia da Árvore (21/9) e do Meio Ambiente (5/6), o que precisa mudar.

Em linhas gerais, a educação ambiental se faz necessária para levar a população à reconhecer que nossa maior riqueza é a natureza, e que ao destruí-la estamos destruindo a nós mesmos. Claro que não conseguiremos nos tornar totalmente sustentáveis da noite para o dia, mas podemos buscar mudanças nas atitudes diárias, que apesar de parecerem pequenas, quando somadas com as ações de milhões de habitantes que o planeta possui fazem uma enorme diferença.

Você também pode diminuir o impacto que causa no ambiente adotando atitudes como tomar um banho mais rápido, escovar os dentes com a torneira fechada, usar meio de transporte que polua menos, não jogar lixo no chão, separar os materiais recicláveis, entre outros. Informações e conhecimento nós já temos à disposição, precisamos agora mudar nossos valores, e isto só acontecerá por meio da educação e sensibilização. Apenas assim abriremos nossos olhos para valorizar a natureza que nos cerca. 



Fonte: Marcia Hirota - Diretora-executiva da Fundação SOS Mata Atlântica, Kelly de Marchi e Patrícia Ferreti - Coordenadoras dos projetos de educação ambiental da organização