sexta-feira, 22 de julho de 2016

O que o brasileiro pensa sobre meio ambiente


Questões ambientais e de sustentabilidade estão na pauta do cotidiano. No entanto, é preciso saber o que as pessoas pensam sobre meio ambiente e como reagem a questões que estão cada vez mais presentes no dia a dia.
O instituto de pesquisa Market Analysis dedicado ao estudo de temas como responsabilidade social, sustentabilidade e consumo consciente elaborou uma pesquisa detalhada para saber qual a percepção dos desafios ambientais e como as pessoas reagem.
Tecnologias para ajudar a ter um estilo de vida sustentável e diminuir o impacto ambiental já são parte deste contexto, assim como a preocupação crescente das instituições sociais e governamentais nesta área de atuação. Mas o que pensa o brasileiro desde uma perspectiva individual sobre estas iniciativas? Existe consciência ambiental na sociedade?
A pesquisa “Entendendo o Contexto da Opinião Ambiental”, divulgada esta semana pelo Instituto Market Analysis mostra que temas como Poluição de rios, lagos e oceanos, Poluição do ar em geral, Escassez de água potável, As emissões de gases dos automóveis, Mudanças climáticas/aquecimento global e A diminuição dos recursos naturais são considerados de extrema gravidade por mais de 90% dos entrevistados. No entanto as reações em relação às soluções ainda são bastante díspares, com uma parte das pessoas considerando que a inovação tecnológica vai ajudar a superar essas questões, enquanto outra parte acredita que é necessária uma mudança de comportamento.
Outro dado interessante é sobre os atores que podem ajudar a resolver os problemas. A maior parte das pessoas não acredita que governos possam solucionar essas questões e colocam uma maior confiança em organizações sociais e empresas.
Como reagem os brasileiros diante dos principais desafios climáticos e ambientais do presente? Quais atores contam com maior capital de confiança da população para liderar o processo de mudança? Quais alternativas são privilegiadas diante destes principais desafios?
Esse breve relatório se propõe a trazer elementos para refletir sobre possíveis respostas a essas grandes questões. O foco concentra-se no cidadão e sua visão desses dilemas, a partir da riqueza trazida por uma fração dos dados da última edição do nosso estudo Monitor de Sustentabilidade Corporativa.
Através das pesquisas de opinião conhecemos as percepções e sentimentos existentes, em um dado momento, sobre temas chaves da agenda pública. Esse dados devolvem aos tomadores de decisão, aos experts que moldam a agenda pública e aos próprios cidadãos um reflexo das prioridades e escolhas que contam com o respaldo popular.
A discussão nessas páginas traz um recorte do clima de opinião ambiental de 2016 visando enriquecer o debate sobre os rumos da sustentabilidade no futuro do Brasil.
A SERIEDADE DOS PROBLEMAS AMBIENTAIS
O meio ambiente está atravessando uma profunda crise. Esse consenso tem se mantido praticamente sem alteração entre os brasileiros desde o início do novo século. A poluição do ar, das águas, as causas (emissões dos automóveis) e efeitos (escassez de água potável) vinculados à esses problemas se sobressaem como os principais medos.
Ao mesmo tempo, estes temas pouco aparecem –de modo espontâneo – no radar imediato das preocupações dos brasileiros, perdendo em urgência para as dificuldades financeiras, de insegurança, governabilidade e liderança moral.
A IMAGEM DOS AGENTES DE MUDANÇA
A tensão entre a alta preocupação com problemas concretos da agenda ambiental e o lugar marginal que tais assuntos ocupam na lista de prioridades espontâneas das pessoas, revela a necessidade de um papel mais assertivo por parte dos agentes com capacidade para liderar uma mudança.
O sucesso na conscientização e articulação da opinião pública depende, porém, da competência percebida e da credibilidade que as diferentes instituições podem despertar nos cidadãos.
Hoje, ONGs, entidades do terceiro setor e grupos econômicos obtém reconhecimento público de mais da metade da população, enquanto o governo amarga um poder de convocatória mínimo.
A SAÍDA PELA TECNOLOGIA
Há uma demanda latente por articular as intenções individuais de agir em favor do meio ambiente, principalmente mediante a disponibilização de meios que permitam aos indivíduos conciliar suas preocupações com seu senso de responsabilidade pessoal. Mais da metade dos cidadãos sentem se culpados pela sua pegada ecológica e, consequentemente, abrem a possibilidade para a atuação de agentes catalizadores que facilitem a resolução dessa dissonância.
Ainda que mudanças no estilo de vida surjam no discurso público como um caminho para reparar parte da culpa, a maioria da opinião pública pende para soluções tecnológicas que imponham uma cota aparentemente menor de sacrifícios. Esse balanço alavancaria parcerias entre empresas e ONGs visando otimizar o uso de inovações em favor de uma menor pegada ambiental.
TENDÊNCIAS MUNDIAIS
A fé em respostas tecnológicas perante a crise ambiental é uma boa notícia para as apostas em energia renovável, as ferramentas promotoras da eco eficiência, e os aplicativos que favoreçam o consumo compartilhado e a identificação fácil e rápida de virtudes éticas em produtos e serviços. Essa confiança nas inovações aliada ao sentimento de responsabilização e culpa representam uma janela de oportunidade para iniciativas como a da micro-geração de energia.
Hoje, os cidadãos do mundo emergente são os mais entusiasmados com as soluções tecnológicas; mas nem todos os BRICS reagem da mesma maneira. Brasileiros e indianos vem diminuindo sua confiança nas inovações, mostrando mais abertura para opções que conciliem o uso de produtos e serviços sustentáveis com estilos de vida mais responsáveis.
AS TECNOLOGIAS PARA ENERGIA RENOVÁVEL E OS PLANOS DO BRASIL
Em 2015, como parte dos acordos da COP21, o Brasil assumiu uma série de compromissos que dialogam com as expectativas de apostar em tecnologias limpas para lidar com os desafios climático-ambientais. Dentre eles:
Hidráulica
Biomassa
Solar
Eólica
Não renováveis
Previsão de evolução da geração centralizada de eletricidade (%)
•Aumentar a participação de bioenergia sustentável na matriz energética para cerca de 18% até 2030, expandindo o consumo de biocombustíveis, aumentando a oferta de etanol e a parcela de biodiesel na mistura do diesel.
•Alcançar uma participação estimada de 45% de energias renováveis na composição da matriz energética em 2030.
•Obter ao menos 66% de participação da fonte hídrica na geração de eletricidade em 2030, sem considerar a autoproduzida.
Expandir o uso de fontes renováveis, além da energia hídrica, na matriz total de energia para uma participação de 28% a 33% até 2030.
•Expandir o uso doméstico de fontes de energia não fóssil, aumentando a parcela de energias renováveis (além da hídrica) no fornecimento de energia elétrica para pelo menos 23% até 2030, inclusive pelo aumento da participação de eólica, biomassa e solar.
•Alcançar 10% de ganhos de eficiência no setor elétrico até 2030.
IMPLICAÇÕES PARA UM FUTURO DE ENERGIAS RENOVÁVEIS
No último ano, o Brasil passou por uma grave crise do setor elétrico. Assim como em 2001, a ausência de planejamento e investimentos na infraestrutura de geração e distribuição, aliado ao aumento do consumo e à escassez de chuvas são os responsáveis conhecidos pelo agravamento da situação. Nos anos seguintes ao ”apagão elétrico”, discussões sobre fontes alternativas esbarravam em questões de acessibilidade à tecnologia e do alto custo para a implementação de opções renováveis como a energia solar ou eólica. Hoje, essas barreiras vão perdendo força e o país vai, aos poucos, realizando seu potencial para desenvolver uma matriz energética mais limpa e mais segura. Pesquisas como a que você acabou de participar contribuem vigorosamente a um debate mais informado e ao acúmulo de elementos de prova que desequilibrem as inércias e favoreçam ações rumo a um futuro mais sustentável.  

Fonte: Envolverde

quinta-feira, 21 de julho de 2016

Flores e borboletas já não aparecem ao mesmo tempo devido à mudança climática


As flores já não florescem ao mesmo tempo da época de voo das borboletas devido à mudança climática, que está causando um aquecimento global e piorando a seca do Mediterrâneo, o que afeta a interação flor-borboleta, segundo um estudo do Centro de Pesquisa Ecológica e Aplicações Florestais (CREAF-UAB).
O estudo do centro catalão (nordeste da Espanha) determinou que as altas temperaturas e a baixa pluviosidade provocam uma descoordenação entre a época de floração e a época de voo das borboletas.
Segundo explicou o pesquisador do CREAF Constantí Stefanescu, os momentos de máxima floração e de abundância das borboletas estão separados por uma média de 70 dias e aumentam nos anos de seca pronunciada.
Esta perda de sincronia afeta negativamente tanto as borboletas, que têm mais dificuldades para encontrar alimento, como as plantas, que perdem polinizadores potenciais.
O estudo, no qual também participou a Universidade das Ilhas Baleares (arquipélago espanhol no Mediterrâneo), analisou durante 17 anos a interação entre flores e borboletas.
Os dados obtidos no Parque Natural dos Aiguamolls do Empordà (Gerona, nordeste) indicam que nos últimos anos há uma menor coincidência entre o momento em que as plantas alcançam o máximo da floração e o momento de mais abundância das borboletas.
Os pesquisadores concluíram que a causa deste fenômeno é a mudança climática, que provoca desajustes entre as 12 espécies de borboletas estudadas e as flores das quais se alimentam.
O estudo mostra que, em casos extremos, a separação entre os lepidópteros e as flores pode chegar a ser de 160 dias “e, se isto continuar, poderia fomentar a queda nas populações das borboletas”.
O papel das borboletas
A borboleta é um inseto com muita diversidade, pois existem espécies de muitas cores e tamanhos diferentes. Ao redor do mundo, existem mais de 28.000 espécies de borboleta, sendo que cerca de 80% vive em regiões tropicais. As borboletas desempenham um importante papel nos ecossistemas atuando como polinizadoras, fonte de alimento e como indicadoras do bem-estar do ecossistema.
As borboletas são seres polinizadores importantíssimos, pois sem elas teríamos graves prejuízos à flora e consequentemente a fauna, pois muitos animais se alimentam de espécies de plantas que são polinizadas por estes seres. Elas são atraídas pelo perfume das flores e também por roupas claras e com cores fortes, é importante não tocá-las, pois suas asas são muito frágeis, vivem em média de uma a duas semanas, período em que procuram se reproduzir. 

Fonte: Terra

quarta-feira, 20 de julho de 2016

A Mata Atlântica invisível nas cidades


A vista parece a de sempre, mas não é. Nesses dias de inverno, período mais seco do ano, uma faixa de poluição é visível e aumenta a cada dia, piorando o ar de São Paulo. Uma girafa mecânica mostra que a cidade continua sendo adensada aqui e em outras regiões. Tudo demais, verde de menos.
As 3.429 cidades da Mata Atlântica, incluindo São Paulo, apresentam um dos maiores índices de urbanização do país, com quase 90% da população vivendo em áreas urbanas. Habitam os municípios do bioma 72% da população brasileira. São 145 milhões de pessoas que dependem da floresta para os serviços ambientais essenciais, como a regulação do clima, a qualidade do ar e o abastecimento de água.
Nossas cidades foram construídas sobre nossas florestas. E boa parte do que restou da Mata Atlântica original, por incrível que pareça, está próxima ou inserida nas áreas mais urbanizadas do país. Na medida em que as cidades crescem, a pressão sobre as áreas com vegetação nativa também aumenta. Diante desse cenário, a conservação das florestas urbanas ganha ainda mais importância.
O primeiro passo para proteger essas áreas verdes é conhecê-las. Foi o que acabou de fazer a Prefeitura Municipal de São Paulo, por meio da Secretaria Municipal do Verde e Meio Ambiente e com apoio técnico da Fundação SOS Mata Atlântica, ao mapear os fragmentos de remanescentes florestais, os bosques e as áreas naturais na cidade. O mapeamento, lançado no dia 30 de junho no Diário Oficial, mostra que a vegetação de São Paulo vai além das conhecidas grandes florestas naturais existentes nos extremos norte e sul. Há também uma porção de inúmeras pequenas manchas verdes acima de 85 m2 distribuídas por toda a cidade. No total, 30% da área da cidade ainda é coberta por Mata Atlântica. Para terem uma ideia, a área mínima mapeada no Atlas dos Remanescentes Florestais da Mata Atlântica, parceria entre a SOS Mata Atlântica e o Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (INPE), é de 10.000 m2.
O diagnóstico da Secretaria Municipal do Verde e Meio Ambiente é um dos produtos do Plano Municipal da Mata Atlântica (PMMA) de São Paulo, e agora será utilizado para que o município, a partir do Plano Diretor, defina as áreas prioritárias para recuperação e conservação. A partir do mapeamento, as autoridades locais poderão avaliar, por exemplo, a necessidade de criação de novas Unidades de Conservação (UCs) municipais, uma ferramenta estratégica para assegurar a proteção da paisagem natural, da biodiversidade e conciliar conservação, expansão e desenvolvimento local.
Áreas protegidas nas cidades
Para compreender os desafios da relação entre urbanização e conservação da natureza, a SOS Mata Atlântica realizou recentemente um levantamento que mapeou, pela primeira vez, a situação das UCs municipais da Mata Atlântica.
As Unidades de Conservação podem ser criadas pelos governos federal, estaduais e municipais. Informações sobre as UCs federais e estaduais são de mais fácil acesso e algumas dessas, muitas vezes, são até bastante conhecidas pelo grande público, mesmo que ele não identifique essas áreas exatamente como uma Unidade de Conservação. Dois bons exemplos são os famosos e super visitados Parque Nacional do Iguaçu e Parque Nacional da Tijuca.
Já sobre as Unidades de Conservação municipais as informações são bastante fragmentadas, o que dificulta, inclusive, entender quais os desafios na criação, gestão e os caminhos para o fortalecimento desse importante mecanismo de conservação da Mata Atlântica local, lacuna que o estudo da SOS Mata Atlântica busca preencher. E os dados são surpreendentes.
O levantamento – coordenado pelo biólogo Luiz Paulo de Souza Pinto, com apoio da equipe técnica e voluntária da SOS Mata Atlântica – identificou 870 Unidades de Conservação municipais, que totalizam 2,7 milhões de hectares (ha) e representam 40% do total de unidades existentes na Mata Atlântica, considerando as esferas federal, estadual e municipal. Dessas, 852 unidades (2,6 milhões de ha) estão em áreas de florestas ou ecossistemas associados. Outras 18 unidades (131 mil ha) foram registradas na Zona Marinha.
A maioria das UCs municipais estão localizadas na malha urbana e periurbana (45% e 20%, respectivamente, em uma amostragem de 371 unidades). Isso significa que 65% das unidades estão sob influência dos centros urbanos e mais próximas das pessoas. Entretanto, mesmo em menor número (35%), as unidades inseridas no ambiente rural dos municípios representam a maior cobertura territorial (77%), contribuindo para a proteção da paisagem natural e de áreas-chave de bacias hidrográficas que abastecem as cidades.
O estudo, lançado no final de 2015, contou com patrocínio do Bradesco Seguros e Bradesco Cartões e a ampliação dos dados foi realizada graças ao apoio do Instituto Credit Suisse Hedging-Griffo.
Recorde de UCs
Os Estados de Minas Gerais, Rio de Janeiro e Paraná possuem o maior número e área de UCs municipais. Os três Estados, juntos, contêm 81% da área e 70% do número total dessas unidades. Duas das maiores unidades municipais, com área acima de 50 mil ha, são as Áreas de Proteção Ambiental do oeste do Paraná, dos municípios de Altônia e Alto Paraíso, que formam um complexo de unidades para a proteção das florestas do rio Paraná.
Minas Gerais possui o maior número de municípios com UCs municipais (135) e mais da metade (52%) da área total das UCs municipais da Mata Atlântica. Umas dessas unidades é o Parque Natural Municipal das Andorinhas, em Ouro Preto. Seus 557 ha abrangem as nascentes que formam a Cachoeira das Andorinhas e a cabeceira do Rio das Velhas, importante afluente do Rio São Francisco e uma das principais fontes de água para a região metropolitana de Belo Horizonte.
O Estado do Rio de Janeiro mostra maior capilaridade na cobertura dessas unidades. Pelo menos 83% dos municípios fluminenses possuem UCs municipais, com destaque para a capital, que tem a maior rede de proteção entre os municípios avaliados. Uma das unidades de conservação municipais na cidade carioca é o Monumento Natural Municipal dos Morros do Pão de Açúcar e Urca, que protege um dos ícones do Rio de Janeiro e do país, o Pão de Açúcar. O estado do Rio de Janeiro possui ainda o maior parque municipal da Mata Atlântica – o Parque Natural Municipal Montanhas de Teresópolis – e o maior número de Unidades de Conservação municipais Marinhas.
Há 55 unidades municipais no Estado de São Paulo. Distribuídas por 25 municípios, somam cerca de 186 mil ha. Entre elas está a Reserva Biológica Municipal Serra do Japi, em Jundiaí, um importante sítio de pesquisa da Universidade Estadual Paulista (Unesp) e outras universidades, onde foram registradas mais de 660 espécies de plantas.
Apesar da relevância, as Unidades de Conservação municipais ainda são invisíveis e não estão integradas, efetivamente, nas análises e estratégias de conservação da biodiversidade. No entanto, o levantamento apresenta um indicativo da importante contribuição dessas unidades na proteção de populações de espécies e na manutenção e provimento de serviços ambientais, como abastecimento de água para consumo humano. E mais: por estarem concentradas nas áreas urbanas, elas são extremamente importantes no desafio de reconectar natureza e sociedade, garantindo para os cidadãos qualidade de vida, belas paisagens e oportunidades de lazer e recreação.
Para contribuir com esse desafio, a Fundação SOS Mata Atlântica apoiará neste ano, por meio de um edital, 24 projetos que buscam criar ou implementar UCs municipais públicas e privadas no país. O patrocínio do edital é do Bradesco Seguros, do Bradesco Cartões e da Repsol Sinopec Brasil.
O objetivo é estimular as cidades a fortalecerem a gestão ambiental de seus territórios, investindo nas políticas, no planejamento e na execução de medidas que assegurem proteção e uso sustentável do ambiente. É um conjunto de projetos agregadores que contribuirão muito para fortalecer esses importantes mecanismos de conservação da biodiversidade local, reunindo poder público, instituições e pessoas, especialmente proprietários de terras, para somar esforços.
No último domingo (17 julho 2016), comemorou-se o Dia da Proteção das Florestas, uma data criada com o objetivo de conscientizar a população sobre a necessidade de conservar e recuperar as áreas verdes. Neste dia, é importante constatar que há ainda muito o que fazer, mas que essa realidade só vai mudar quando a sociedade assumir a missão de proteger e usufruir os benefícios das nossas florestas urbanas. Um caminho é reconhecer as Unidades de Conservação municipais como um importante instrumento de proteção ambiental e torná-las visíveis. Desafio que depende de conhecimento, mas também de engajamento das autoridades locais e de toda sociedade. 

Fonte: Marcia Hirota – Fundação SOS Mata Atlântica

terça-feira, 19 de julho de 2016

Planta presente no Brasil é capaz de colonizar áreas desmatadas


As espécies de árvores nativas pioneiras, que têm capacidade de colonizar ambientes degradados em razão de sua alta capacidade reprodutiva e crescimento rápido, entre outras características, têm sido priorizadas em programas de restauração de florestas tropicais desmatadas. Isso porque essas árvores facilitam a transição da terra desmatada para a floresta em recomposição ao estabilizar o terreno e melhorar a conectividade entre os fragmentos florestais restantes, além de aumentar a permeabilidade do solo e contribuir para iniciar a montagem de redes de polinizadores e dispersores de sementes de plantas, apontam especialistas na área.
Apesar da importância ecológica dessas espécies pioneiras pouco se sabe, por exemplo, sobre como elas mantêm a diversidade genética nas populações naturais e o fluxo genético entre fragmentos florestais distantes uns dos outros, por exemplo, pondera Rodolfo Jaffé, pesquisador do Instituto Tecnológico Vale (ITV).
“Ter conhecimento da genética dessas espécies é fundamental para conseguir uma restauração mais eficiente ou a recuperação de funções ecossistêmicas-chave em curto ou médio prazo”, disse Jaffé à Agência FAPESP.
“É claro que esses ecossistemas recuperados por meio das espécies de árvores nativas pioneiras nunca serão iguais aos originais. Mas a ideia é chegar o mais próximo possível”, afirmou Jaffé, que realizou pós-doutorado no Instituto de Biociências da Universidade de São Paulo (IB-USP) com Bolsa da FAPESP.
O pesquisador, em parceria com colegas da University of Texas em Austin, nos Estados Unidos, onde fez um estágio de pesquisa também com Bolsa da FAPESP, estudou os padrões de diversidade e diferenciação genética da espécie de árvore nativa pioneira Miconia affinis (conhecida popularmente no Brasil como jacatira-branca), que ocorre na região do Canal do Panamá, na América Central.
Os resultados do estudo foram descritos em um artigo publicado na revista PLoS One.
“A região do Canal do Panamá, que é um hotspot de biodiversidade global, perdeu em torno de 30% das suas florestas nos últimos 50 anos em razão do avanço da agropecuária, e isso tem resultado em uma forte erosão e em um acúmulo muito grande de sedimentos nos córregos e canais, influenciando negativamente todo a bacia e o sistema hídrico da região”, afirmou Jaffé.
“Por isso, o governo do país tem interesse em recuperar as áreas desmatadas para diminuir a erosão e o acúmulo de sedimentos no Canal, e as espécies de árvores nativas pioneiras presentes na região seriam boas candidatas para serem usadas em programas de restauração”, explicou.
A fim de avaliar se áreas desmatadas constituem uma barreira para as populações dessa espécie de árvore que mede entre 3 e 6 metros de altura e está amplamente distribuída na região neotropical (que vai desde o México ao Brasil), os pesquisadores coletaram folhas de cerca de 30 árvores em período de inflorescência e infrutescência de 11 populações diferentes, espalhadas pela região do Canal do Panamá.
Em seguida, extraíram o DNA das folhas e utilizaram marcadores moleculares microssatélites, pequenas regiões do DNA, que variam de um indivíduo para outro, para obter uma assinatura genética (genótipo) de cada uma delas.
Por meio de mapas de alta resolução da cobertura florestal e elevação da região do Canal do Panamá, além de ferramentas de genética da paisagem, eles avaliaram a influência de fatores como a distância geográfica, a altitude e o desmatamento sobre a estrutura e a diversidade genética dessas populações de árvores.
Os resultados das análises estatísticas indicaram que a diferenciação genética dessa espécie de árvore que geralmente coloniza clareiras, áreas ciliares e encostas expostas, aumentou significativamente de acordo com a altitude e a distância geográfica entre as populações.
“Isso quer dizer que, quanto mais afastadas, mais diferenciadas geneticamente são as populações dessa espécie de planta, e quanto mais próximas, mais parecidas são geneticamente. Esse padrão, chamado de isolamento por distância, é esperado para a maioria das populações de plantas”, afirmou Jaffé.
As análises também indicaram que a Miconia affinis apresenta níveis mais elevados de diversidade genética intrapopulacional e menores níveis entre populações do que muitas espécies de plantas pioneiras.
Curiosamente, o nível de diferenciação genética entre populações da planta, que, no Brasil, ocorre na Mata Atlântica, Cerrado e na Amazônia, foi menor do que a média relatada para árvores tropicais, mas semelhante ao de espécies tropicais pioneiras com dispersão mediada pelo vento, apontaram os pesquisadores.
“Esse alto nível de diversidade genética e baixo nível de diferenciação genética entre as populações da planta é devido, provavelmente, à propensão das espécies para colonizar paisagens recentemente desmatadas, levando a um aumento na conectividade entre as populações em toda a região”, estimam os pesquisadores.
Efeito da altitude – Os pesquisadores também constataram que a elevação influencia a diferenciação genética em populações da planta.
As populações da planta localizadas em pontos mais altos eram geneticamente mais diferenciadas do que as situadas em lugares com altitude menor, independentemente da distância que as separam, afirmou Jaffé.
“Uma das razões para isso é que a temperatura mais baixa e a maior precipitação em locais de alta altitude, em comparação com locais de baixa altitude, podem afetar o trabalho dos polinizadores e dos dispersores de sementes dessa espécie de planta”, explicou o pesquisador.
A Miconia affinis é visitada por uma grande diversidade de abelhas sociais e solitárias, e as sementes de seus frutos são dispersas por uma variedade de espécies de pássaros, morcegos e macacos.
A temperatura mais baixa e a maior precipitação em locais mais elevados podem afetar as condições de voo dos insetos e diminuir a abundância de polinizadores nessas regiões.
Temperatura e precipitação também fazem com que a floração das plantas aconteça antes da que ocorre em locais com mais baixas altitudes, apontou o pesquisador.
“Isso faz com que os polinizadores fiquem só no lugar onde ocorre a floração primeiro e que não visitem as populações de plantas localizadas em locais mais baixos, onde ainda não há flor. E essa diferença na fenologia [floração das plantas] pode influenciar suas estruturas genéticas”, afirmou.
Os pesquisadores não encontraram evidências do efeito do desmatamento sobre a diferenciação genética de populações da planta.
Uma das hipóteses levantadas por eles é que a alta capacidade de dispersão e colonização dessa espécie de planta promove o fluxo de genes da árvore em toda a região do Canal do Panamá, independentemente da cobertura florestal.
“As populações dessa espécie de planta conseguem manter fluxo genético mesmo através de áreas desmatadas”, disse Jaffé. “Os polinizadores e dispersores de sementes conseguem visitar as plantas, atravessar áreas desmatadas e polinizar as plantas de populações situadas em outros locais”, afirmou.
Os pesquisadores também observaram que essa espécie de planta, que vive, em média, 64,3 anos, e gera sementes pela primeira vez em seis anos, também em média, é capaz de manter alta diversidade genética, independentemente da quantidade de floresta que a circunda.
“Esse conjunto de características torna a Miconia affinis uma ótima candidata para ser usada em programas de reflorestamento”, disse Jaffé. 

Fonte: Agência FAPESP

segunda-feira, 18 de julho de 2016

Os sinais de alerta vêm da nossa caixa d’água


Até há bem pouco tempo era raro que o noticiário sobre mudanças climáticas e seus efeitos preocupantes se referissem a problemas no Brasil – em geral informavam sobre dramas muito graves em outras partes do mundo. Esse tempo já passou. Agora são frequentes as notícias sobre questões muito inquietantes em várias regiões do País. Algumas das mais recentes se referem a problemas muito sérios na Paraíba, onde a seca prolongada já levou à redução no abastecimento de água em Campina Grande e mais 17 cidades e agora está sendo ampliado.
Campina Grande vai ser dividida em duas zonas. Uma será abastecida da manhã de segunda-feira até a meia-noite de quarta-feira; a segunda, de 5 da manhã de quinta até as 13 horas de sábado; das 13 horas de sábado às 5 da manhã de segunda não haverá abastecimento (Suassuna.net, 12/7/2016). E 17 cidades da chamada Região do Brejo só terão água por 48 horas a cada 15 dias, a partir do próximo dia 18;7/2016. Haverá ainda outros problemas em vários locais. O nível da água no principal açude está em apenas 8,4%, o pior de todos os tempos, suficiente – se não chover – para abastecer apenas até janeiro de 2017.
Na verdade, diz Ana Lúcia Azevedo (O Globo, 9/4/2016), toda a Chapada Diamantina está ameaçada e com a situação agravada desde um grande incêndio que se manteve de 2015 a janeiro de 2016, ali onde fica a “caixa d’água da Bahia – nela nascem 80% dos rios do Estado. Só o Rio Paraguaçu abastece 3 milhões de pessoas e fornece 60% da água usada em Salvador. E toda a região de 38 mil quilômetros quadrados – desde serras e planaltos da Mata Atlântica da região até o Cerrado e a Caatinga – é beneficiada pelo rio.
Mas o agravamento do El Niño agora leva a situação a extremos. Para complicar mais, dizem cientistas da Nasa e da Universidade da Califórnia em San Diego, publicados pela revista Nature, que as mudanças climáticas estão provocando um deslocamento das nuvens para os polos. O estudo, que abrange o período 1983-2009, afirma que com menos nuvens há aumento da temperatura da superfície e mais evaporação, “agravando as secas”. Até o PIB da agropecuária brasileira tem sofrido com as condições: caiu 0,37% no primeiro trimestre deste ano, segundo o Ministério da Agricultura e o IBGE; também o PIB geral declinou 5,4%.
A concentração de gases de efeito estufa foi recorde no ano passado (O Globo, 13/6/2016). Por isso mesmo 7.100 cidades de seis continentes se juntaram numa rede – Global Covenant of Mayors for Climate and Energy – para enfrentar a questão, já que as cidades respondem por 75% das emissões. EUA, Canadá e México assumiram o compromisso de aumentar o uso de “energias limpas” para 50%, de modo a cortar de 40% a 45% as emissões de gases poluentes (nos últimos três anos a redução foi de 4,5%; em 25 anos, baixa de 38%) – 55 países, responsáveis por mais de 50% dos gases, já os estão reduzindo (Reuters, 27/6/2016).
São muitas questões. Estudos de J. A. Marengo Orsini, com base em relatórios de avaliação do IPCC/Painel do Clima (Eco21, abril 2016), mostram que até 2100 a temperatura do Pantanal brasileiro pode subir 7 graus Celsius por causa da redução de chuvas e do aumento da evaporação. Com 140 mil quilômetros quadrados, o Pantanal tem 80% de sua área em regiões semiáridas. Mas, de modo geral, racionamento “é desastre anunciado”, antevê Joaquim F. Carvalho, do Instituto de Energia e Ambiente da USP (Folha de S.Paulo, 25/2/2016) – embora tenhamos potencial hidrelétrico, eólico, fotovoltaico e bioenergético disponível e toda a energia consumida na região e no País possa vir de fontes renováveis.
Estudo do IPCC/Painel do Clima (Eco-Finanças 11/7/2016) cria e analisa alguns cenários para a questão do clima. Num cenário de inércia, a temperatura planetária pode se elevar entre 4,1 e 5,6 graus Celsius; num cenário com continuidade das políticas atuais, o aumento ficará entre 3,2 e 4,4 graus; num cenário em que sejam cumpridos todos os compromissos voluntários já assumidos, a elevação estará entre 2,9 e 3,8 graus. Hoje a temperatura global está com aumento de quase um grau, comparada com a do início da era industrial. Entre os fatores que contribuíram para o aumento estão o derretimento de geleiras e furacões e secas mais frequentes, diz a análise.
É possível que o futuro seja ainda mais complicado. Para evitar isso é preciso chegar a uma transição para economia de baixo carbono, que exigirá investimentos de nada menos que US$ 3 trilhões por ano, 30 vezes mais que os US$ 100 bilhões anuais que tanta polêmica provocam nas conferências do clima. É decisivo também taxar o uso do carbono e redirecionar quase US$ 1 trilhão em subsídios a combustíveis fósseis.
Enquanto esses avanços não se concretizam, a Organização Mundial de Saúde alerta, em Paris (aviv, 8/7/2016), para os riscos para a saúde causados pelas mudanças do clima; 7 milhões de pessoas já morrem a cada ano por esses fatores.
Ainda segundo o IPCC, o aumento da temperatura global “é inequívoco” e pode ultrapassar 4 graus Celsius. Em qualquer situação, pesa mais sobre a população mais pobre, em toda parte.
Em meio a tanto problema, uma pesquisa da Nature Scientific (Dia de Campo, 8/7/2016) chama a atenção para o fato de um levantamento otimista feito na região central do Cerrado brasileiro haver concluído que os estoques de carbono no solo, no sistema de plantio direto, em longo prazo podem equiparar-se aos valores observados no Cerrado nativo – como avaliavam desde 2001 trabalhos desenvolvidos pela Embrapa Cerrados.
Precisamos evoluir para modos de vida mais adequados, compatíveis com estes tempos, que ainda podem chegar a situações mais graves. E isso pressupõe conceber e levar à prática políticas governamentais severas, que obriguem cada cidadão, cada empresa, cada órgão de governo a assumir a sua parte na equação. Estejam onde estiverem, morem onde morarem.  

Fonte: Washington Novaes – Jornalista - O Estado de S. Paulo

sexta-feira, 15 de julho de 2016

Agrotóxicos: liderança indesejável


As notícias não mudam: por mais que a ciência e a comunicação alertem com frequência, o Brasil continua a ser o líder mundial no uso de agrotóxicos – e ainda os isenta ou reduz o pagamento de impostos como ICMS (redução de 60%), PIS/Cofins e outros, enquanto medicamentos têm incentivos de 34% (Envolverde, maio de 2016).
O Brasil isenta ou reduz o pagamento de impostos como ICMS (redução de 60%), PIS/Cofins e outros para agrotóxicos, enquanto medicamentos têm incentivos de 34% (Envolverde, maio de 2016).
Há muitos alertas e advertências: morangos vermelhos e variedades de espinafre podem ter doses altas de resíduos químicos; muitas frutas, verduras e legumes são borrifados com pesticidas banidos há anos. O consumo, no mundo, desses ingredientes cresceu 93% em dez anos; no Brasil, 190%. Segundo a Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa), 28% das substâncias usadas por aqui não são autorizadas; a Associação Brasileira de Saúde Coletiva (Abrasco) afirma que 70% dos alimentos in natura consumidos no País estão “contaminados” por agrotóxicos; para a Organização Mundial de Saúde (OMS), a cada ano aumentam em 70 mil os casos de intoxicação aguda ou crônica provocados por agroquímicos.
A Anvisa está reavaliando 16 pesticidas, além de fazer consulta pública. Nos Estados Unidos, Canadá e países da União Europeia já são proibidos, por temor de serem cancerígenos. Há dez anos a Anvisa reavaliou os riscos ambientais do 2,4D, um dos componentes do Agente Laranja, que os EUA usaram na Guerra do Vietnã para eliminar florestas e plantações utilizados como esconderijos de guerrilheiros. Segundo a Cruz Vermelha Internacional, 150 mil crianças têm malformações congênitas por esse motivo – que os EUA contestam. E segundo a Organização para a Alimentação e a Agricultura (FAO-ONU) e a OMS, é urgente diminuir o uso de praguicidas e substituí-lo pelo plantio direto nas lavouras, que reduz as pragas.
Um dos argumentos usados pelos defensores de agrotóxicos é a “volta da mosca-branca” (Bemisia tabaci), que está levando produtores de soja do Centro-Oeste a um gasto 37% maior que no ano passado. Mato Grosso, por exemplo, que gastava R$ 385 por hectare, agora gasta R$ 508,90. Em outros lugares, R$ 543,69.
Um dos itens mais polêmicos nessa agenda é o glifosato, principalmente depois que a OMS e a FAO voltaram atrás em sua condenação anterior, prorrogaram a liberação por 18 meses e agora asseguram que esse produto não provoca câncer em humanos. E que novas tecnologias reduzirão o uso de praguicidas. A questão do uso ou não de sementes transgênicas também está em suspenso. Uma especialista francesa, Marie-Monique Robin, afirmou (7/5) que “o glifosato é o maior escândalo sanitário de toda a história da indústria química”. Mesmo depois da decisão da OMS, a França tornou a proibir a venda livre do produto.
Há um capítulo à parte, que é o das mudanças climáticas, com muitos cientistas afirmando que a criação de gado em confinamento (na Argentina, 70% do rebanho) aumenta os gases, contribuindo para essas mudanças. A China suspendeu a importação de carne bovina da Austrália, por essa e outras razões.
Há muitos polos nessa luta. A pulverização eletrostática reduz o uso de agroquímicos, dizem seus defensores. Com 70% colocados no alvo certo, a redução é de 30%. A tecnologia é da Fundação do Meio Ambiente, que a recomenda para legumes, frutas e verduras (Eco-finanças, 23/5). Também há quem defenda a supressão de árvores contaminadas como o melhor caminho para evitar a propagação dos problemas – como a Fundação de Defesa da Citricultura, em 349 municípios de São Paulo e Mato Grosso. De qualquer forma, 16,92% das laranjeiras foram suprimidas. De abril do ano passado a março deste ano foram erradicadas em 21,3 mil hectares, mais de metade delas com sintomas de problemas.
Seja como for, a briga é difícil e complicada. As empresas produtores de agrotóxicos constituem um verdadeiro cartel, que domina o mercado mundial, algumas delas com mais de cem anos de existência, como a Monsanto. A Bayer e a Syngenta e poucas mais fazem parte do grupo. Algumas participaram até do Projeto Manhattan, da primeira bomba atômica. Ou do projeto do Agente Laranja, muito em evidência na Guerra do Vietnã.
Mas a luta contra os agrotóxicos também tem aliados importantes, como instituições que participam da Moratória da Soja, que luta contra o desmatamento desde 2006. Ela proíbe o comércio, aquisição e financiamento de grãos produzidos em áreas desmatadas de maneira ilegal no bioma amazônico e em áreas embargadas pelo Ibama e propriedades que estejam na lista de trabalho escravo do Ministério do Trabalho e Previdência. Desde seu início, a moratória expandiu-se em 2,3 milhões de hectares, nos quais a produção aumentou 200%.
Parece não haver dúvida de que cresce rapidamente em toda parte – no Brasil e nos países para os quais exportamos grãos e outros itens agrícolas – a resistência a produtos de regiões que usem agrotóxicos. Ainda assim, estas têm conseguido protelar novas tentativas de ampliar legalmente as restrições. Mas a Agência Europeia dos Produtos Químicos conclui pesquisa sobre riscos cancerígenos na origem dos produtos. Só que a OMS e sua agência de pesquisa sobre câncer não conseguiram apertar as restrições, que ficaram para ser decididas até o fim de 2017. Até lá só vigorarão restrições ao uso de agrotóxicos em áreas de parques e jardins.
Nessa hora decisiva, o Pnuma afirmou na recente convenção de Nairóbi que os danos ao meio ambiente estão entre as maiores causas de morte no mundo. Por que, então, não se consegue avançar na questão dos agrotóxicos? Por que nossos Poderes – principalmente o Legislativo – não conseguem estabelecer regras duras nessa área relacionada com alimentos e saúde? Os eleitores precisam cobrar. Se a opinião pública deixar claro que não aceita os prejuízos, o panorama poderá mudar. Nada pode ser mais grave que o risco de morte evidenciado pela ciência. (O Estado de S. Paulo) 

Fonte: Washington Novaes - Jornalista

quinta-feira, 14 de julho de 2016

O bom e o ruim da transição energética


Colônia, Alemanha, 12 de julho de 2016 – Immerath, a cerca de 90 quilômetros da cidade alemã de Colônia, se tornou um povoado fantasma. O sino da igreja local já não soa nem se vê crianças de bicicleta em suas ruas. Os antigos moradores levaram, inclusive, seus mortos do cemitério. Devido à expansão de Garzweiler, uma mina de lignito (carvão fóssil altamente contaminante) a céu aberto, foram reassentados em Nova Immerath, a alguns quilômetros da localização do povoado original, na Renânia do Norte-Westfalia, que tem Colônia como capital.
A sorte da pequena localidade, que em 2015 tinha 70 habitantes, é o retrato dos avanços, retrocessos e contradições da transição energética alemã, tão exaltada no mundo. Desde 2011, a Alemanha conta com uma política integral de transição energética, apoiada por um amplo consenso político, destinada a avançar para uma economia de baixo carbono, que incentivou a geração e o consumo de energia alternativa. Mas a transição até agora não ajudou o país a se libertar da indústria do carvão e do lignito.
“As fases iniciais da transição energética até agora tiveram êxito, com forte crescimento das renováveis, amplo respaldo social para a ideia da transição e metas de médio e longo prazos importantes por parte do governo”, explicou à IPS a analista Sascha Samadi do não governamental Instituto Wuppertal, dedicado a estudos sobre transformação energética.
A geração renovável forneceu 30% de toda eletricidade alemã em 2015, enquanto o lignito respondeu por 24%, o carvão por 18%, a energia nuclear, 14%, o gás, 8,8%, e o restante por outras fontes. A Alemanha é a terceira potência mundial em energias renováveis (excluída a hidrelétrica) com a terceira posição em energia eólica e biodiesel e a quinta em geotermia. Além disso, ficou famosa por ter a maior capacidade por habitante em energia fotovoltaica (solar), apesar de seu clima não ser o mais propício para isso.
Mas a persistência de fontes fósseis ensombrece essa matriz energética verde. “A retirada de combustíveis fósseis tem de ser muito bem planejada e organizada. Se não promovermos as renováveis, teremos que importar energia em algum momento”, afirmou à IPS o ministro para a Proteção Climática e o Ambiente da Renânia do Norte-Westfalai, Johannes Remmel.
A Alemanha tem nove minas de lignito que funcionam em três regiões, empregando aproximadamente 16 mil pessoas. As minas geram 170 milhões de toneladas anuais e suas reservas passam de três bilhões de toneladas. China, Grécia e Polônia são outros grandes produtores mundiais desse mineral. Garzweiler, propriedade da companhia privada RWE, produz 35 milhões de toneladas anuais de lignito.
À distância pode-se avistar as paredes fatiadas e um solo coberto por fuligem, à espera de que uma enorme mandíbula de aço o devore para começar a separar o lignito. Essa instalação alimenta as geradoras elétricas das centrais vizinhas de Frimmersdorf, Neurath, Niederaussen e Weisweiller, entre as mais contaminantes do país. A RWE é uma das quatro grandes geradoras energéticas alemãs, junto com E.ON, EnBW e Vattenfall, esta última baseada na Suécia.
A sorte do carvão é diferente. O governo já definiu que o ano de seu fim será 2018, quando deixarão de operar as únicas duas minas ainda em atividade. A bacia do rio Reno, onde ficam Renânia do Norte-Westfalia e Renânia-Palatino, entre outros Estados, é o motor tradicional da indústria da Alemanha. A mineração e seus consumidores são os ressabiados desse mundo, cujos estertores se interpõem com o surgimento de uma economia descarbonizada.
Percorrer a mina e a geradora elétrica vizinha de Ibberbüren, na Renânia do Norte-Westfalia, dá uma ideia da disputa entre dois modelos que ainda coexistem. No complexo, as bocas subterrâneas cospem o carbono que nutre a voracidade da usina, ao ritmo de 157 quilowatts/hora por tonelada. Em 2015, foram extraídas 6,2 milhões de toneladas de carvão, que cairá para 3,6 milhões de toneladas este ano e no próximo, para reduzir-se a 2,9 milhões em 2018.
A mina, que emprega 1.600 pessoas, tem inventário de 300 mil toneladas que deve vender antes de 2018. “Sou minerador, estou muito apegado ao meu trabalho. Falo em nome de meus companheiros. É difícil fechá-la. Há um sentimento de tristeza, assistimos nosso próprio funeral”, contou à IPS o diretor da operadora da mina, Hubert Hüls.
Antes de ser estabelecida a política de transição energética, já haviam sido aprovadas leis, em 1991 e 2000, que promovem as fontes renováveis, com medidas como um diferencial especial na tarifa elétrica paga às geradoras que as utilizarem. O setor renovável investe anualmente cerca de US$ 20 bilhões e emprega aproximadamente 370 mil pessoas.
Outra medida, adotada pelo governo de Berlim, em 2015, estabelece um esquema de leilões de energia solar fotovoltaica, embora neste caso critique-se que ganha quem oferece o preço menor, o que favorece os grandes geradores contra os pequenos. A transição também busca cumprir os compromissos da Alemanha para mitigar o aquecimento global. Esta potência europeia fixou como meta reduzir em 40% suas emissões de gases-estufa até 2020 e em 95% até 2050.
Além disso, assumiu como meta que as fontes renováveis no consumo final de energia subam dos atuais 12% para 60% até 2050. Neste segundo semestre, o governo analisará a elaboração do Plano de Ação Climática 2050, que em questões energéticas considera a redução pela metade das emanações do setor e um programa de retirada de combustíveis fósseis. Em 2014, a Alemanha reduziu suas emissões em 346 milhões de toneladas de dióxido de carbono, equivalentes a 27,7% em comparação a 1990.
Mas a Agência Federal de Ambiente do país alertou, em março, que as emissões voltaram a crescer em 2015 em seis milhões de toneladas, equivalentes a 0,7%, para ficar em 908 milhões de toneladas. Os gases-estufa provêm majoritariamente da geração e do uso de energia, do transporte e da agricultura. Em 2019, o governo revisará os incentivos atuais ao setor renovável e decidirá ajustes para potencializá-lo. E, em 2022, cessará a operação das últimas três usinas nucleares na Alemanha.
Por outro lado, a mina de Garzweiler vai trabalhar até 2045. “Há desafios tecnológicos, de infraestrutura, de investimento, políticos, sociais, de inovação. As recentes decisões do governo mostram que não há suficiente vontade política para assumir as duras decisões exigidas para uma descarbonização profunda”, destacou Samadi.
“Agora as empresas tentam mitigar o dano e passar à busca de soluções para o Estado (central). Haverá um debate difícil sobre como expandir as renováveis. Esse processo pode ser desacelerado, mas não detido”, pontuou o acadêmico Heinz-J Bontrup, da estatal Universidade de Ciências Aplicadas, na cidade de Gelsenkirchen. Por sua vez, o governo regional optou por reduzir a ampliação de Garzweiler, o que deixará 400 milhões de toneladas de lignito no subsolo.  

Fonte: Emilio Godoy

quarta-feira, 13 de julho de 2016

Liberdade para poluir


A natureza e a saúde da população estão em alerta máximo, face a um risco terrível: a Proposta de Emenda Constitucional (PEC) 65, que acaba com o licenciamento ambiental, e que chegou a ser aprovada pela Comissão de Constituição e Justiça do Senado. A PEC 65 acrescenta o parágrafo 7 ao artigo 225, com a seguinte redação: “A apresentação do estudo prévio de impacto ambiental importa autorização para a execução da obra, que não poderá ser suspensa ou cancelada pelas mesmas razões a não ser em face de fatos supervenientes”.
Se este absurdo for aprovado, os diferentes Órgãos ambientais federais, estaduais e municipais perderão a capacidade de analisar, corrigir, licenciar. Até o Ministério Público e a justiça ficarão de mãos atadas, obrigadas a se abster em relação a agressões aos rios, às florestas, à fauna, à qualidade do ar, à saúde da população.
Participei de relevante audiência no Ministério Público Federal sobre a PEC 65, e alertei para o risco de que obras passem a ser feitas sem que analistas ambientais avaliem seus impactos nas emissões atmosféricas, na composição dos efluentes líquidos contaminados. Sem as audiências públicas prévias, a população terá o direito à informação suprimido, assim como a apresentação de alternativas locacionais e tecnológicas a esses empreendimentos. O procurador federal Daniel Sarmento mostrou como a PEC 65 fere cláusulas pétreas da Constituição Federal, como o direito ao meio ambiente saudável, o direito à informação e à autonomia dos poderes – com a vedação do exercício do Poder Judiciário.
O principal argumento dos autores é evitar o atraso de obras gerado pelo licenciamento ambiental (LA). Há várias formas de agilizar o LA, sem esvaziar sua função de prevenção e de defesa. Listo alguns exemplos que implantamos na Secretaria do Ambiente e no Ministério do Meio Ambiente, e que devem ser aprimorados: que as prefeituras, com condições técnicas demonstradas, licenciem os empreendimentos de baixo impacto; informatização dos processos; Portal do LA – onde o empreendedor interage, verifica os documentos que precisa, como proceder, o tempo de cada etapa, número do processo, recebe a guia e paga a taxa sem sair de casa. Além disso, análise simultânea por várias equipes, ao invés de sequencial; redução ou supressão de exigências em função de baixo ou inexistente impacto. O que essa PEC faz é jogar fora a criança com a água da bacia. É como propor, em face da grande demora do Poder Judiciário, extingui-lo!
A sociedade tem que reagir. Temos que explicar à população o que está em risco: a Amazônia, o Pantanal, a Mata Atlântica, a saúde dos trabalhadores e das famílias.
Essa ameaça é ainda maior do que a que combatemos no Código Florestal: é a liberdade de poluir como norma que se sobrepõe à vida. 

Fonte: Carlos Minc – Eco21

terça-feira, 12 de julho de 2016

Distribuição e características das nuvens mudaram na Terra


As nuvens, que funcionam como reguladores térmicos para a Terra, sofreram alterações nas suas características e na sua distribuição global devido às mudanças climáticas, o que pode, por sua vez, aumentar o aquecimento global, segundo um estudo divulgado na segunda-feira (11 julho 2016).
Imagens de satélite revelaram nebulosidade reduzida em zonas temperadas de latitude média da Terra, que se encontram entre os polos e os trópicos em ambos os hemisférios, acompanhada de uma expansão em direção aos polos das zonas secas subtropicais.
Os topos das nuvens se elevaram em todos os lugares, de acordo com dados que abrangem mais de duas décadas, desde o início dos anos 1980.
“Essas mudanças nas nuvens aumentam a absorção de radiação solar pela Terra e reduzem a emissão de radiação térmica para o espaço”, disse um comunicado da Instituição de Oceanografia Scripps, da Universidade da Califórnia, em San Diego, que participou do estudo.
“Isto agrava o aquecimento global causado pelo aumento da concentração de gases do efeito estufa”, acrescentou a nota.
As nuvens regulam a temperatura da Terra ao refletirem parte da radiação solar de volta para o espaço antes que esta atinja o solo, ao mesmo tempo em que atuam como uma manta para limitar a perda de calor do planeta à noite.
De que forma elas são afetadas pelas mudanças climáticas e como isso influencia o aquecimento global “tem sido uma das maiores áreas de incerteza para os cientistas que tentam compreender o clima atual e prever tendências futuras”, disse a instituição.
Satélites originalmente projetados para monitorar o clima da Terra não são estáveis o suficiente para rastrear de maneira confiável mudanças nas nuvens ao longo de décadas.
Mas a equipe descobriu uma forma de “corrigir” os dados, através da remoção de fatores de confusão, como a órbita dos satélites, a calibração dos instrumentos e a degradação dos sensores.
O registro revelou mudanças claras na distribuição das nuvens, que a equipe depois comparou com a história das concentrações de gases do efeito estufa na atmosfera da Terra.
“Eles concluíram que o comportamento das nuvens que observaram é consistente com o aumento das concentrações de gases de efeito estufa causado pelo homem”, destaca o comunicado.
Os pesquisadores não encontraram correlações semelhantes com outras influências potenciais, como os níveis de ozônio, os aerossóis criados pelo homem ou as mudanças naturais na radiação solar.
Outros fatores que tiveram impacto nas nuvens foram duas grandes erupções vulcânicas – a de El Chichon, no México, em 1982, e a do Monte Pinatubo, nas Filipinas, em 1991 -, que teriam tido um efeito de resfriamento no planeta por alguns anos.
Os vulcões expelem cinzas que refletem a luz solar, o que tem um efeito de resfriamento de curto prazo sobre o planeta.
“A não ser que haja outro evento vulcânico deste tipo, os cientistas esperam que as tendências nas nuvens prossigam no futuro, conforme o planeta continua a aquecer devido ao aumento das concentrações de gases do efeito estufa”, disse o comunicado. 

Fonte: G1

segunda-feira, 11 de julho de 2016

Conferência da OMS ressalta impacto da mudança climática na saúde


O mundo deve se preparar para os impactos potencialmente devastadores das mudanças climáticas na saúde humana, disseram autoridades de várias partes do mundo reunidas em Paris nesta quinta-feira (07 de julho 2016).
Algumas dessas consequências podem ser evitadas se a humanidade diminuir radicalmente o uso de combustíveis fósseis nas próximas décadas, mas muitas delas já estão sendo sentidas, disseram os participantes na abertura de uma conferência de dois dias organizada pela Organização Mundial da Saúde (OMS).
“Saúde e clima são indissociáveis porque a saúde humana depende diretamente da saúde do planeta”, afirmou a ministra francesa do Meio Ambiente, Ségolène Royal.
Royal, que também é presidente rotativa das conversações da ONU sobre a melhor forma de lidar com o aquecimento global, disse que os impactos na saúde devem desempenhar um papel mais central nas futuras negociações.
“De agora em diante, vou fazer o meu melhor para garantir que a saúde esteja integrada em todas as futuras conferências sobre o clima”, começando com um fórum especial na próxima reunião climática da ONU em novembro em Marrakesh, na qual participarão 196 nações, disse a ministra à AFP.
No Acordo de Paris, assinado em dezembro do ano passado, os países se comprometem a limitar o aquecimento global bem abaixo de 2º Celsius, além de ajudar as nações pobres a lidarem com seus impactos.
Um número crescente de estudos científicos prevê um cenário alarmante de sofrimento humano causado por alterações nos padrões climáticos, elevação dos mares, secas e supertempestades.
Além disso, os casos de doenças tropicais como malária, dengue e zika, entre outras, estão aumentando conforme os insetos que as transmitem se espalham com o aquecimento global.
Setor da saúde ’sub-representado’Ondas de calor extremas que deverão ocorrer a cada década, em vez de uma vez por século, vão fazer mais vítimas, especialmente entre doentes e idosos.
Em 2005, a OMS estimou que períodos quentes provocavam 150.000 mortes anualmente. Mais de 45.000 morreram só na Europa devido a uma onda de calor no verão de 2003.
A maior preocupação de todas talvez seja a ameaça para o abastecimento alimentar global.
Podemos alimentar tantas pessoas – nove bilhões na metade do século, segundo projeções da ONU – “quando o clima que nos sustenta está mudando de maneira tão adversa?”, perguntou à plateia Letizia Ortiz, rainha da Espanha e embaixadora especial para a Organização das Nações Unidas para Alimentação e Agricultura.
Muitos alimentos básicos, especialmente nos países em desenvolvimento, não podem se adaptar rápido o suficiente às mudanças do tempo, resultando em rendimentos mais baixos.
Os peixes, que são a principal fonte de proteína para bilhões de pessoas, não só escassearam pela colheita industrial, mas estão migrando conforme os oceanos aquecem e os recifes de coral morrem.
Às vezes a saúde é mais prejudicada pelas fontes, e não pelos impactos, das mudanças climáticas provocadas pelo homem.
A OMS estima que sete milhões de pessoas morrem a cada ano por causa da poluição do ar, que também contribui para o aquecimento global como um gás do efeito estufa.
“O setor da saúde tem sido sub-representado nesta discussão, quando você pensa sobre os milhões de vidas que serão afetados, e até mesmo perdidas”, disse Richard Kinley, chefe interino do fórum climático da ONU.
“O mundo já está comprometido com níveis altos de alteração climática. O setor da saúde terá que lidar com as consequências”, completou Kinley.
A Segunda Conferência Global sobre Saúde e Clima terminará na sexta-feira com uma proposta de “programa de ação” para os governos nacionais.

Fonte: UOL

sexta-feira, 8 de julho de 2016

Um atlas de nossa agricultura envenenada


Os mapas produzidos por Larissa Mies Bombardi são chocantes. Quando você acha que já chegou ao fundo do poço, a professora de Geografia Agrária da USP passa para o mapa seguinte. E, acredite, o que era ruim fica pior. Mortes por intoxicação, mortes por suicídio, outras intoxicações causadas pelos agrotóxicos no Brasil. A pesquisadora reuniu os dados sobre os venenos agrícolas em uma sequência cartográfica que dá dimensão complexa a um problema pouco debatido no país.
Ver os mapas, porém, não é enxergar o todo: o Brasil tem um antigo problema de subnotificação de intoxicação por agrotóxicos. Muitas pessoas não chegam a procurar o Sistema Único de Saúde (SUS); muitos profissionais ignoram os sintomas provocados pelos venenos, que muitas vezes se confundem com doenças corriqueiras. Nos cálculos de quem atua na área, se tivemos 25 mil pessoas atingidas entre 2007 e 2014, multiplica-se o número por 50 e chega-se mais próximo da realidade: 1,25 milhão de casos em sete anos.
Além disso, Larissa leva em conta os registros do ministério da Saúde para enfermidades agudas, ou seja, aquelas direta e imediatamente conectadas aos agrotóxicos. As doenças crônicas, aquelas provocadas por anos e anos de exposição aos venenos, entre as quais o câncer, ficam de fora dos cálculos. “Esses dados mostram apenas a ponta do iceberg”, diz ela.
Ainda assim, são chocantes. O Brasil é campeão mundial no uso de agrotóxicos, posto roubado dos Estados Unidos na década passada e ao qual seguimos aferrados com unhas e dentes. A cada brasileiro cabe uma média de 5,2 litros de venenos por ano, o equivalente a duas garrafas e meia de refrigerante, ou a 14 latas de cerveja.
Em breve, todo o material reunido por Larissa será público. O livro Geografia sobre o uso de agrotóxicos no Brasil é uma espécie de atlas sobre o tema, com previsão de lançamento para o segundo semestre. Será um desenvolvimento do Pequeno Ensaio Cartográfico Sobre o Uso de Agrotóxicos no Brasil, já lançado este ano, com dados atualizados e mais detalhados. No período abrangido pela pesquisa, 2007-2014, foram 1.186 mortes diretamente relacionadas aos venenos. Ou uma a cada dois dias e meio:
– Isso é inaceitável. Num pacto de civilidade, que já era hora de termos, como a gente fala com tanta tranquilidade em avanço de agronegócio, de permitir pulverização aérea, se é diante desse quadro que a gente está vivendo? – indaga a professora, em entrevista nesta quarta-feira (28/06/2016) ao De Olho nos Ruralistas.



O papel do agronegócio
Larissa fala de agronegócio porque é exatamente esse modelo o principal responsável pelas pulverizações. Os mapas mostram que a concentração dos casos de intoxicação coincide com as regiões onde estão as principais culturas do agronegócio no Brasil, como a soja, o milho e a cana de açúcar no Centro-Oeste, Sul e Sudeste. No Nordeste, por exemplo, a fruticultura. A divisão por Unidades da Federação e até por municípios comprovam com exatidão essa conexão.
A pesquisadora compara a relação dos brasileiros com agrotóxicos à maneira como os moradores dos Estados Unidos lidam com as armas: aceitamos correr um risco enorme. Quando se olha para um dos mapas, salta à vista a proporção entre suicídio e agrotóxicos. Em parte, explica Larissa, isso se deve ao fato de que estes casos são inescapavelmente registrados pelos órgãos públicos, ao passo que outros tipos de ocorrências escapam com mais facilidade. Mas, ainda assim, não é possível desconsiderar a maneira como distúrbios neurológicos são criados pelo uso intensivo dos chamados “defensivos agrícolas”, termo que a indústria utiliza para tentar atenuar os efeitos negativos das substâncias.
Soja, milho e cana, nesta ordem, comandam as aplicações. Uma relação exposta no mapa, que mostra um grande cinturão de intoxicações no centro-sul do país. São Paulo e Paraná aparecem em destaque em qualquer dos mapas, mas a professora adverte que não se pode desconsiderar a subnotificação no Mato Grosso, celeiro do agronegócio no século 21.


O veneno está na cidade
A conversa com o De Olho nos Ruralistas – durante gravação do piloto de um programa de TV pela internet – se deu em meio a algumas circunstâncias pouco alvissareiras para quem atua na área. Há alguns dias, a Rede Globo tem veiculado em um de seus espaços mais nobres, o intervalo do Jornal Nacional, uma campanha em favor do “agro”. Os vídeos institucionais têm um tom raríssimo na emissora da família Marinho, com defesa rasgada dos produtores rurais de grande porte.
“Querem substituir a ideia do latifúndio como atraso”, resume Larissa. Ela recorda que, além do tema dos agrotóxicos, o agronegócio é o responsável por trabalho escravo e desmatamento. E questiona a transformação do setor agroexportador em modelo de nação. “A alternativa que almejaríamos seria a construção de uma outra sociedade em que esse tipo de insumo não fosse utilizado. Almejamos uma agricultura agroecológica com base em uma ampla reforma agrária que revolucione essa forma de estar na sociedade.”
No mesmo dia da entrevista, o Diário Oficial da União trouxe a sanção, pelo presidente provisório, Michel Temer, da Lei 13.301. Em meio a uma série de iniciativas de combate à dengue e à zika, a legislação traz a autorização para que se realize pulverização aérea de venenos em cidades, sob o pretexto de combate ao mosquito Aedes aegypti. A medida recebeu parecer contrário do Departamento de Vigilância em Saúde Ambiental e Saúde do Trabalhador do Ministério da Saúde, posição que foi ignorada por Temer.
Larissa considera que a medida representa um grande retrocesso e demonstra preocupação pelo fato de a realidade exposta em seus mapas ser elevada a potências ainda desconhecidas quando se transfere um problema rural para as cidades. “O agrotóxico se dispersa pelo ar, vai contaminar o solo, vai contaminar a água. O agrotóxico não desaparece. Ao contrário, ele permanece.” Em outras palavras: o veneno voa e mergulha. Alastra-se. E tem longa duração.

Fonte: João Peres - Jornalista

quinta-feira, 7 de julho de 2016

El Niño e La Niña podem afetar cem milhões de pessoas


A combinação dos fenômenos meteorológicos do El Niño e La Niña podem afetar 100 milhões de pessoas se não forem tomadas as medidas adequadas, alertou nesta quarta-feira (6 julho 2016) a ONU.
A agência das Nações Unidas dedicada à alimentação (FAO), com sede em Roma, apontou em um ato que mais de 60 milhões de pessoas no mundo todo sofrerão de fome como consequência do El Ninõ, associado com o aquecimento das águas do Pacífico.
Embora este episódio tenha sido dado como encerrado após ter tido seus maiores picos de intensidade em dezembro e fevereiro, espera-se um impacto moderado de “La Niña” (caracterizada pelo esfriamento dessas águas) entre setembro e dezembro deste ano, segundo prognósticos da Organização Mundial Meteorológica.
Este novo fenômeno aumentará a probabilidade de precipitações superiores à média e inundações nas zonas afetadas pela seca originada pelo El Niño, enquanto, de forma inversa, será mais provável que haja secas em zonas que ficaram inundadas devido ao El Niño.
O diretor-geral da Organização da ONU para a Alimentação e a Agricultura (FAO), José Graziano da Silva, destacou que a alimentação e a agricultura representam quase 80% dos quase US$ 4 bilhões requeridos para atender as necessidades humanitárias dos países afetados pelo El Niño.
A diretora-executiva do Programa Mundial de Alimentos (PMA), Ertharin Cousin, ressaltou que os fundos não só se devem ser destinados para cobrir as necessidades atuais, mas também para fortalecer a resiliência a longo prazo.
Cousin destacou o problema de disponibilidade de alimentos que está ocorrendo no sul da África, onde as colheitas foram danificadas pelas poucas chuvas e sua agência não pôde comprar produtos básicos que depois costuma destinar a outros países do continente com insegurança alimentícia.
Nessa região meridional, a ONU estima que 39,7 milhões de pessoas estejam passando fome, uma situação que ainda pode se agravar nos primeiros meses de 2017.
Outras 20 milhões de pessoas necessitam de ajuda alimentícia urgente no Chifre da África e 3,5 milhões no Corredor Seco das América Central, enquanto na região da Ásia-Pacífico 1,9 milhão estão em risco pela seca, especialmente no Vietnã.
O vice-presidente associada do Fundo Internacional de Desenvolvimento Agrícola (FIDA), Lakshmi Menon, considerou prioritário investir nas comunidades mais afetadas para que possam ter acesso aos recursos e redes de proteção apropriadas para evitar tais catástrofes.
Os participantes da reunião também insistiram na necessidade de realizar ações antecipadas de prevenção para diminuir os impactos dos fenômenos meteorológicos previstos e fortalecer a capacidade de resposta perante as emergências. 

Fonte: Terra