terça-feira, 3 de maio de 2016

Retrocesso na Legislação Ambiental Brasileira


Este ano comemoramos 35 anos da Política Nacional do Meio Ambiente, lei ambiental criada em janeiro de 1981, a mais importante do gênero e um grande marco em termos de proteção ambiental. Essa política reconhece a importância do meio ambiente para a vida e para a qualidade da mesma, impondo ao poluidor a obrigação de compensar e/ou indenizar os prejuízos ambientais causados por ele.
A lei criou a obrigatoriedade dos estudos de avaliação do impacto ambiental, um avanço para um país em desenvolvimento. Entretanto, com discurso de combate a crise econômica, o Projeto de Lei 654/2015, de autoria do senador Romero Jucá (PMDB/RR), afrouxa as regras de licenciamento ambiental para obras consideradas estratégicas para o governo, como rodovias, hidrovias, portos, ferrovias, aeroportos e empreendimentos de telecomunicação e energia.
Na verdade, o que está propondo o Senado brasileiro é um retrocesso. Não se trata aqui de “flexibilizar” o licenciamento ambiental, e sim, de voltarmos a um tempo em que não existia licença ambiental, não existia lei que exigia um estudo ambiental para apontar quais os impactos previstos e como seriam compensados. Um tempo que a palavra “desenvolvimento” vinha cercada de grandes danos ambientais, até hoje irreversíveis, crimes que não encontraram seus responsáveis.
Lamentável que uma grande conquista brasileira esteja sendo destituída contrariando as lutas pela garantia dos direitos da população e uma melhor qualidade de vida. Que ditadura estão querendo implantar agora? Já que esse projeto de lei só interessa aos grandes grupos econômicos e aos políticos corruptos.
Não estamos tratando aqui de avanços na legislação ambiental brasileira, pressupondo proteção à vida e preservação do meio ambiente para o bem de todos. Estamos nos referindo a um projeto de lei que nem deveria ser chamado de “flexibilização ao licenciamento ambiental”, e sim de licenciamento puramente econômico, contrariando inclusive todos os avanços mundiais na luta pelo meio ambiente.
Historicamente, esses avanços nos remetem a junho de 1972, quando ocorreu a 1ª Conferência da ONU sobre o meio ambiente, que aprovou a Declaração Universal do Meio Ambiente, declarando que os recursos naturais, como a água, o ar, o solo, a flora e a fauna, devem ser conservados em benefício das gerações futuras. Após 10 anos é criada outra comissão na ONU que publica o documento “Our Common Future” (Nosso Futuro Comum), que apresentou um novo olhar sobre o desenvolvimento, definindo-o como o processo que “satisfaz as necessidades presentes, sem comprometer a capacidade das gerações futuras de suprir suas próprias necessidades”.
Ao criar o conceito de desenvolvimento sustentável ele deveria ser a inspiração para o fortalecimento da legislação brasileira, o processo de licenciamento deveria caminhar para uma quebra de paradigma, para um “Licenciamento Socioambiental”, não retroceder! A partir desse resgate histórico, pode-se perceber o tamanho do retrocesso que o Senado brasileiro propõe.
O modelo de licenciamento ambiental no Brasil já carece de uma boa revisão, é obsoleto frente às necessidades do padrão de desenvolvimento atual, não se atualizou desde que foi implantado e não compreende em seu escopo as medidas para um modelo de desenvolvimento sustentável.
No modelo atual de desenvolvimento, onde o que importa é o crescimento econômico, as questões socioambientais são relevadas a um segundo plano, os estudos de impacto ambiental se esquecem das populações que são impactadas direta e indiretamente. As audiências públicas, que hoje são uma mera formalidade nos processos de licenciamento ambiental, na proposta do Senado passariam a deixar de ser obrigatórias.
Mas é preciso dar nome aos bois e fazer uma pergunta que não quer calar. Qual o conhecimento e vivencia do senador Romero Jucá, do PMDB de Roraima, para ser o relator do projeto? Por uma questão de coerência, não deveria ser nomeado relator um senador da região sudeste ou sul do país, as que mais sofrem com os impactos da urbanização e com a implantação das grandes obras de infraestrutura que tanto agrediram e agridem ao meio ambiente?
Quem irá cobrar o senador Romero Jucá em Roraima, um paraíso preservado com uma das melhores qualidades de vida no Brasil? Digo mais, os senadores de São Paulo, José Serra, Marta Suplicy e Aloisio Nunes, precisam assumir suas responsabilidades. Há uma linda história e luta ambiental surgida nos anos 80 que precisa ser preservada.
Há anos lecionando e trabalhando para o licenciamento ambiental de alguns empreendimentos em São Paulo, aprendi que um processo precisa da participação de todos para dividir responsabilidades. É importante discutir com todos os envolvidos os diferentes aspectos do empreendimento ao longo do processo, não somente nas audiências públicas.
É importante estabelecer desde o início uma relação de confiança entre todas as partes interessadas, com um relacionamento transparente e um bom plano de comunicação, um projeto de licenciamento ambiental poderá ser lapidado, e prevenir falhas ao longo da sua implantação. Só com esse trabalho conjunto é possível uma “licença social”, que garantirá um desenvolvimento sustentável. 

Fonte: Backer Ribeiro - Revista Ecológico

segunda-feira, 2 de maio de 2016

PEC da Samarco


O Observatório do Clima considera um escárnio a aprovação, pela Comissão de Constituição e Justiça do Senado, da Proposta de Emenda à Constituição 65/2012, que extingue o licenciamento ambiental no país. O texto, de autoria do senador Acir Gurgacz (PDT-RO) e relatoria do senador Blairo “Motosserra de Ouro” Maggi (PR-MT), propõe que a mera apresentação de um estudo prévio de impacto ambiental signifique autorização irrevogável para uma obra de infraestrutura – deixando-a imune ao processo de licenciamento.
Num país que sofreu há menos de seis meses a pior tragédia ambiental de sua história, com o rompimento da barragem da Samarco em Mariana, eliminar o processo de licenciamento significa não apenas um convite a tragédias futuras, como também uma facilitação sem precedentes ao trabalho das empreiteiras, cuja relação com os partidos políticos vem sendo detalhada pela Operação Lava Jato.
“O projeto elimina a legislação que trata de licenciamento ambiental e institui uma espécie de vale-tudo principalmente para grandes obras”, diz Márcio Astrini, diretor de Políticas Públicas do Greenpeace. “Votam o texto enquanto ainda temos vítimas desaparecidas e pessoas desalojadas pelo rompimento da barragem da Samarco. É um tapa na cara do país.”
“O Congresso aproveita a confusão criada pela crise política para passar na surdina um projeto cujas consequências podem ser dramáticas”, diz Sérgio Guimarães, presidente do Conselho do ICV (Instituto Centro de Vida). “Os senadores alegam necessidade de ‘segurança jurídica’ para as obras, mas propõem uma emenda que compromete a segurança de toda a sociedade.”
“Vamos perder o único instrumento de controle social que existe atualmente no país. Nenhum outro possibilita que a sociedade acompanhe obras. A justificativa de que o licenciamento atrapalha os empreendimentos é uma desculpa para abrir a porteira da corrupção”, diz Mario Mantovani, diretor de Políticas Públicas da Fundação SOS Mata Atlântica.
“Nossos ecossistemas e riquezas naturais já estão feridos por decisões erradas do passado, mas essa PEC é a sentença de morte”, diz Flavia Martinelli, coordenadora de Clima do Engajamundo. “Entendemos que o licenciamento ambiental atual no país não tem conseguido frear empreendimentos poluidores, por causa de jogos de interesse político, mas sem os processos de licenciamento teremos comprometimento de todos serviços ecossistêmicos fornecidos pelas nossas florestas.” 

Fonte: Observatório do Clima

sexta-feira, 29 de abril de 2016

Comissão do Senado aprova PEC que derruba licenciamento ambiental para obras


Muitas situações andam na contra mão, esta é uma delas. Projeto prevê que a partir da simples apresentação de um Estudo Impacto Ambiental (EIA) pelo empreendedor, nenhuma obra poderá mais ser suspensa ou cancelada. O licenciamento ambiental, seja ele feito pelo IBAMA ou por órgãos estaduais, estabelece que qualquer empreendimento tenha que passar por três etapas de avaliação técnica. Para verificar a viabilidade de uma obra, é preciso os estudos de impacto e pedir sua licença prévia ambiental.
Em meio ao terremoto político que toma conta de Brasília, a Comissão de Constituição, Justiça e Cidadania (CCJ) do Senado aprovou nesta quarta-feira sem alarde, uma Proposta de Emenda à Constituição (PEC) que simplesmente rasga a legislação ambiental aplicada em processos de licenciamento de obras públicas.  A PEC 65, proposta em 2012 pelo senador Acir Gurgacz (PDT-RO) e relatada atualmente pelo senador Blairo Maggi (PR-MT), estabelece que, a partir da simples apresentação de um Estudo Impacto Ambiental (EIA) pelo empreendedor, nenhuma obra poderá mais ser suspensa ou cancelada. Na prática, isso significa que o processo de licenciamento ambiental, que analisa se um empreendimento é viável ou não a partir dos impactos socioambientais que pode gerar, deixa de existir.
Em um documento de apenas três páginas, os parlamentares informam que “a proposta inova o ordenamento jurídico”, por não permitir “a suspensão de obra ou o seu cancelamento após a apresentação do estudo prévio de impacto ambiental (EIA), exceto por fatos supervenientes”. A mudança, sustentam os parlamentares “tem por objetivo garantir a celeridade e a economia de recursos em obras públicas sujeitas ao licenciamento ambiental, ao impossibilitar a suspensão ou cancelamento de sua execução após a concessão da licença”.
O licenciamento ambiental, seja ele feito pelo Ibama ou por órgãos estaduais, estabelece que qualquer empreendimento tem que passar por três etapas de avaliação técnica. Para verificar a viabilidade de uma obra, é preciso os estudos de impacto e pedir sua licença prévia ambiental.
Ao obter a licença prévia, o empreendedor precisa ainda de uma licença de instalação, que permite o início efetivo da obra, processo que também é monitorado e que pode resultar em novas medidas condicionantes. Na terceira etapa, é dada a licença de operação, que autoriza a utilização do empreendimento, seja ele uma estrada, uma hidrelétrica ou uma plataforma de petróleo. O que a PEC 65 faz é ignorar essas três etapas.
“Estamos perplexos com a proposta. Isso acaba com legislação ambiental”, disse a coordenadora da 4ª câmara de meio ambiente e patrimônio cultural do Ministério Público Federal, Sandra Cureau. A PEC 65/2012 precisa passar por votação no Plenário do Senado. Caso aprovada, a proposta seguirá para tramitação na Câmara e depois retornará ao Senado. Por fim, seguirá à sanção presidencial.
Finalizando
Grandes obras têm impactos ambientais significativos e por isso o licenciamento tem um caráter preventivo. Se você não tiver o licenciamento, há tendência de fazer grandes danos ambientais, e, obviamente, a Constituição brasileira protege, porque o ambiente é um bem coletivo. O Congresso tem iniciativa própria e temos que debater o tema com serenidade e tentar aperfeiçoar, já que há uma motivação política. Semelhante com o que foi feito com o Código Florestal. Mas não podemos aceitar ter retrocessos naquilo que o Brasil tem excelência, que é na gestão ambiental. 

Fonte: Agência Estado

quinta-feira, 28 de abril de 2016

CAATINGA


No dia em que se comemora a importância desse bioma, é importante sensibilizar a sociedade sobre a situação de crescente degradação do solo no semiárido.
A Caatinga é hoje uma das regiões mais ameaçadas do globo pela exploração predatória. As áreas protegidas ocupam apenas 2% do Semiárido Brasileiro, e a maioria delas não está na Caatinga. As principais causas da degradação ambiental no bioma são a caça, as queimadas e o desmatamento para retirada de lenha. No Nordeste, mais de 30% da matriz energética tem como base a lenha, e a grande maioria da madeira vem de áreas sem planos de uso sustentável.
O trabalho de educação para a convivência com o semiárido deve ter como um dos focos prioritários a educação ambiental, contribuindo para que as crianças e os jovens conheçam a caatinga, suas belezas e diversidade, bem como compreenda sua importância na política de convivência com o semiárido. São a partir das pequenas ações desenvolvidas nas escolas que iremos fomentar a produção de uma nova cultura de convivência com o semiárido, baseada no princípio da preservação, do uso racional e sustentável dos recursos naturais e da implementação de novas relações entre os seres humanos e destes com a natureza.
O Dia Nacional da Caatinga é comemorado em 28 de abril. A Caatinga é um sistema ambiental exclusivamente brasileiro (e nordestino!). Isso significa que grande parte do seu patrimônio biológico não pode ser encontrado em nenhum outro lugar do Planeta. Por ser tão singular e tão genuinamente nossa, a Caatinga merece ser celebrada e, principalmente, preservada.
O Dia Nacional da Caatinga foi instituído em 2003, por meio de decreto presidencial, sendo o dia 28 de abril escolhido por ser a data de nascimento do professor, engenheiro agrônomo e ecólogo pernambucano, Vasconcelos Sobrinho, um pioneiro na área dos estudos ambientais no Brasil, que é considerado uma das maiores autoridades em ecologia da América Latina.
A Caatinga
A caatinga ocupa uma área de cerca de 844.453 quilômetros quadrados, o equivalente a 11% do território nacional. Engloba os estados Alagoas, Bahia, Ceará, Maranhão, Pernambuco, Paraíba, Rio Grande do Norte, Piauí, Sergipe e o norte de Minas Gerais. Rico em biodiversidade, o bioma abriga 178 espécies de mamíferos, 591 de aves, 177 de répteis, 79 espécies de anfíbios, 241 de peixes e 221 abelhas. Cerca de 27 milhões de pessoas vivem na região, a maioria carente e dependente dos recursos do bioma para sobreviver.
A caatinga tem um imenso potencial para a conservação de serviços ambientais, uso sustentável e bioprospecção que, se bem explorado, será decisivo para o desenvolvimento da região e do país. A biodiversidade da caatinga ampara diversas atividades econômicas voltadas para fins agrosilvopastoris e industriais, especialmente nos ramos farmacêutico, de cosméticos, químico e de alimentos.
Sinal de alerta
Apesar da sua importância, o bioma tem sido desmatado de forma acelerada, principalmente nos últimos anos, devido principalmente ao consumo de lenha nativa, explorada de forma ilegal e insustentável, para fins domésticos e indústrias, ao sobrepastoreio e a conversão para pastagens e agricultura. Frente ao avançado desmatamento que chega a 46% da área do bioma, segundo dados do Ministério do Meio Ambiente (MMA), o governo busca concretizar uma agenda de criação de mais unidades de conservação federais e estaduais no bioma, além de promover alternativas para o uso sustentável da sua biodiversidade.
QUESTÕES URGENTES
Visto ser dia 28 de abril a celebração do dia nacional da caatinga, que possamos aproveitar essa data para refletirmos sobre as ações educativas que podemos desenvolver para ampliarmos as ações de preservação e revitalização da caatinga no semiárido, tendo em vista a riqueza de sua biodiversidade e sua importância na garantia da vida no sertão. Mas algumas perguntas valem ser sugeridas e deixadas para analise:
1 - Como tem sido inserido o tema conservação e uso sustentável dos solos nas ações governamentais e não governamentais?
2 - No Semiárido brasileiro, existem iniciativas bem-sucedidas ligadas à conservação e uso sustentável dos solos? Em caso afirmativo, como elas têm subsidiados à formulação de políticas públicas e ações não governamentais?
3 - Como comunicar/sensibilizar apropriadamente a sociedade sobre a situação crescente de degradação e perda do solo?
4 - Como mobilizar a sociedade em torno do uso e conservação do solo?
Essas perguntas precisam de respostas urgentes e de pessoas com sensibilidade e respeito por estas áreas e regiões, pois somente assim serão conservadas.
 
Fonte: Instituto Agropolos e Luiz Henrique Lopes

quarta-feira, 27 de abril de 2016

Brasil: líder mundial no uso de agrotóxicos


Além de permitir o uso de pesticidas proibidos em outros países, o Brasil ainda exonera os impostos dessas substâncias. O morango vermelho e carnudo e o espinafre verde-escuro de folhas largas comprados na feira podem conter, além de nutrientes, doses altas demais de resíduos químicos.
Estamos em 2016 e no Brasil ainda se consomem frutas, verduras e legumes que cresceram sob os borrifos de pesticidas que lá fora já foram banidos há anos. A quantidade de agrotóxicos ingerida no Brasil é tão alta, que o país está na liderança do consumo mundial desde 2008.
Desde este ano, o Brasil ocupa o primeiro lugar no ranking mundial de consumo de agrotóxicos.
A Abrasco alerta que 70% dos alimentos in natura consumidos no país estão contaminados por resíduos de pesticidas. Os números falam por si nos últimos dez anos o mercado mundial desse setor cresceu 93%, já no Brasil, esse crescimento foi de 190%, de acordo com dados divulgados pela Anvisa.
Segundo o Dossiê Abrasco (Associação Brasileira de Saúde Coletiva) – um alerta sobre o impacto dos agrotóxicos na saúde, 70% dos alimentos in natura consumidos no país estão contaminados por agrotóxicos. Desses, segundo a Anvisa, 28% contêm substâncias não autorizadas.
“Isso sem contar os alimentos processados, que são feitos a partir de grãos geneticamente modificados e cheios dessas substâncias químicas”, diz Karen Friedrich, da Associação Brasileira de Saúde Coletiva (Abrasco) e da Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz).
De acordo com ela, mais da metade dos agrotóxicos usados no Brasil hoje são banidos em países da União Europeia e nos Estados Unidos.
Segundo a Organização Mundial da Saúde (OMS), entre os países em desenvolvimento, os agrotóxicos causam, anualmente, 70.000 intoxicações agudas e crônicas.
A boa notícia, é que naquele mesmo ano, a Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) iniciou a reavaliação de 14 pesticidas que podem apresentar riscos à saúde. A má notícia é que até agora os estudos não terminaram.
Governo concede reduções e isenções de impostos para produção e comercialização de agrotóxicos
A essa morosidade somam-se incentivos fiscais. O Governo brasileiro concede redução de 60% do ICMS (imposto relativo à circulação de mercadorias), isenção total do PIS/COFINS (contribuições para a Seguridade Social) e do IPI (Imposto sobre Produtos Industrializados) à produção e comércio dos pesticidas.
A constação é de João Eloi Olenike (ao lado), presidente do Instituto Brasileiro de Planejamento e Tributação (IBPT).
O que resta de imposto sobre os agrotóxicos representam, segundo Olenike, 22% do valor do produto. “Para se ter uma ideia, no caso dos medicamentos, que não são isentos de impostos, 34% do valor final são tributos”, diz.
Recentemente, o consumo de agrotóxicos esteve novamente no centro da discussão. A apresentadora Bela Gil, que tem mais de 590.000 seguidores no Facebook, liderou um movimento para que a população se mostrasse contrária ao uso do carbofurano, substância usada em pesticidas em lavouras de algodão, feijão, banana, arroz e milho.
Isso ocorreu quando a Anvisa colocou em seu site uma consulta pública sobre essa substância. Antes de Bela Gil (abaixo) publicar um texto engajando seus seguidores, o resultado se mostrava favorável à continuação do uso desse agrotóxico. Mas em poucas horas, a apresentadora conseguiu reverter o resultado da consulta, mostrando que os brasileiros querem que essa substância seja proibida também no Brasil, assim como já é em países como Estados Unidos, Canadá e em toda a União Europeia. Por e-mail, a chefe de cozinha adepta da culinária natureba disse por que liderou a campanha. “Já existem estudos revelando a toxicidade e os perigos do carbofurano”, disse.
“Essa substância é cancerígena, desregula o sistema endócrino em qualquer dose relevante e afeta o sistema reprodutor”.
Na bula do produto consta a informação de que essa substância é “muito perigosa ao meio ambiente e altamente tóxica para aves”. Orienta o usuário a não entrar nas lavouras que receberam o produto por até 24 horas após a aplicação “a menos que se use roupas protetoras”.
2,4-D e a polêmica do ‘agende laranja’ usado na Guerra do Vietnã
Há exatos dez anos, desde 2006, a Anvisa está reavaliando os riscos à saúde que o herbicida 2,4-D pode causar. De nome estranho, essa substância era uma das que formavam o chamado Agente Laranja, uma química que foi amplamente utilizada pelas Forças Armadas norte-americanas durante a guerra do Vietnã.
Seu uso, naquele momento, era para destruir plantações agrícolas e florestas que eram usadas como esconderijo pelos inimigos. Mas, segundo a Cruz Vermelha, cerca de 150.000 crianças nasceram com malformação congênita em consequência dessa substância. Os Estados Unidos contestam esse número.
Por meio de nota, a Anvisa afirmou que o parecer técnico de reavaliação do 2,4-D foi recentemente finalizado e deverá ser disponibilizado para consulta pública no portal da Anvisa nos próximos meses. A consulta pública faz parte do processo de reavaliação das 14 substâncias realizado pela Anvisa.
Seis pesticidas foram banidos e dois permanecem
Desde o início dos estudos, em 2008, seis pesticidas foram banidos e dois foram autorizados a permanecer no mercado sob algumas restrições. Resta a conclusão dos estudos de outras seis substâncias – dentre elas o carbofurano.
OMS considera glifosato cancerígeno
O glifosato, usado para proteger lavouras de milho e pasto, e que no ano passado foi considerado cancerígeno pela Organização Mundial da Saúde, também está nesta lista que aguarda conclusões.
A demora para finalizar essa reavaliação fez o Ministério Público entrar com uma ação, em junho do ano passado, pedindo maior agilidade no processo. Na época, a Justiça acatou o pedido e estabeleceu um prazo de 90 dias para que todos os estudos fossem concluídos. Mas o setor do agronegócio também se moveu.
O Sindicato Nacional das Indústrias de Defesa Vegetal (Sindivag) entrou com um recurso alegando que o prazo não era suficiente.
Em nota, o Sindivag afirmou ser “favorável ao procedimento de reavaliação”, mas que “o prazo concedido para conclusão da reavaliação não era suficiente para que fossem adotados todos os procedimentos previstos nas normas vigentes”.
O processo está agora na Justiça Federal, que informou não haver prazo para o julgamento.
Apesar da demora, as reavaliações dos agrotóxicos são um passo importante para a discussão do consumo dessas substâncias no Brasil.
“A consulta pública da Anvisa sobre o carbofurano foi importante para que o órgão e os especialistas envolvidos obtivessem conhecimento do que a população pensa”, diz Bela Gil.
“A Anvisa pode se sentir mais inclinada a tomada de decisão de realmente banir esse agrotóxico”.
Para Wanderlei Pignati, professor de Medicina da Universidade Federal do Mato Grosso (UFMT), a lentidão desse processo ocorre porque há uma forte pressão de setores interessados na comercialização dessas substâncias.
“As empresas querem fazer acordo, mas não deveria caber recurso”, diz. “Queremos proibir todos os [agrotóxicos] que são proibidos na União Europeia”, afirma. “Por que aqui são consumidos livremente? Somos mais fortes que eles e podemos aguentar, por acaso?”.
Agrotóxicos deveriam ter altos tributos e não ser isentos, o governo deveria fazer uma revisão
Segundo João Olenike, do IBPT, os agrotóxicos deveriam ter altos tributos, e não ser isentos. “Existe uma coisa chamada extra-fiscalidade, que significa que, além da arrecadação, o tributo tem também uma função social”, explica.
“Por isso, tributa-se muito a bebida alcoólica e o cigarro: para desestimular seu consumo”.
Para ele, deveria-se fazer o mesmo com os pesticidas. “O que valia na década de 70, [quando foi lançado o Plano Nacional da Agricultura], não vale para hoje. O Governo deveria fazer uma revisão”.
Os alimentos mais contaminados pelos agrotóxicos
Em 2010, o mercado brasileiro de agrotóxicos movimentou 7,3 bilhões de dólares e representou 19% do mercado global. Soja, milho, algodão e cana-de-açúcar representam 80% do total de vendas nesse setor.
Perguntas e respostas sobre os agrotóxicos
Lavar os alimentos antes de consumi-los retira os agrotóxicos? - Não. Lavar os alimentos pode contribuir para que apenas parte das substâncias sejam retiradas, mas eles continuarão contaminados pelos agrotóxicos.
Água sanitária retira os agrotóxicos dos alimentos? - Não. Segundo a Anvisa, até o momento não existem evidências científicas que comprovem a eficácia da água sanitária ou do cloro na remoção ou eliminação de resíduos dos agrotóxicos nos alimentos. A Anvisa orienta que se use uma solução de uma colher de sopa de água sanitária diluída em um litro de água com o objetivo apenas de matar agentes microbiológicos que possam estar presentes nos alimentos.
Selo Brasil Certificado – Agricultura de Qualidade não garante isenção do uso de agrotóxicos, mas que os alimentos são controlados.
Como diminuir a ingestão de agrotóxicos? - O ideal seria optar pelos alimentos orgânicos, que venham com o certificado Produto Orgânico Brasil, um selo branco, preto e verde.
Como esses alimentos são mais caros e não estão disponíveis em todo mercado, há outras possibilidades, como escolher produtos com o selo Brasil Certificado: Agricultura de Qualidade.
Esse selo não garante a isenção do uso de agrotóxicos, mas significa que a origem do alimento é controlada, o que aumenta o comprometimento de produtores com a qualidade do alimento.
Além disso, recomenda-se o consumo de alimentos da época que, normalmente, recebem menos agrotóxicos para serem produzidos. 

Fonte: Diário Verde

terça-feira, 26 de abril de 2016

Mundo está mais verde hoje do que há 30 anos


Pode parecer mentira, mas a Terra está hoje mais verde do que há 30 anos, e tudo graças ao aumento dos níveis de dióxido de carbono (CO2) na atmosfera, que atuaram como “fertilizante” para as plantas. A conclusão é de um estudo internacional publicado na segunda-feira (25 de abril 2016) na revista científica Nature Climate Change, uma das publicações com maior impacto científico.
A investigação concluiu que, entre 1982 e 2015, verificou-se uma subida significativa da biomassa verde em quase metade das regiões do mundo (40%). Ao mesmo tempo, em apenas 4% do planeta se detectou uma perda significativa de vegetação.
Com este estudo, “podemos atribuir o reverdecimento do planeta ao aumento dos níveis de CO2 atmosféricos provocado pelo consumo de combustíveis fósseis”, disse Josep Peñuelas, pesquisador do Conselho Superior de Investigações Científicas no Centre for Ecological Research and Forestry Applications, que participou no trabalho.
Ao disporem de mais dióxido carbono na atmosfera, as plantas puderam gerar mais folhas para capturar o gás durante o processo de fotossíntese, um fenômeno que permitiu o abrandamento da concentração deste gás de efeito de estufa na atmosfera, segundo o estudo.
Além disso, esta grande adição de verde “pode ter a capacidade de alterar os ciclos da água e do carbono a nível global”, acrescentou Josep Peñuelas.
Outros trabalhos anteriores haviam já demonstrado que as plantas estavam armazenando cada vez mais carbono desde 1980, confirmando a tese de reverdecimento (greening, em inglês) planetário que o novo estudo defende.
Mudança climática
Apesar disso, isto não significa que o aumento de CO2 na atmosfera seja benéfico para o clima, adverte o estudo.
Mesmo com a maior quantidade de folhas, “as alterações climáticas, o aumento da temperatura global e a subida do nível do mar, o degelo ou as tempestades tropicais cada vez mais potentes são um fato”, disse Peñuelas.
O estudo também conclui que o “efeito fertilizante do dióxido de carbono é cada vez menor à medida que as plantas se vão acostumando a este aumento ou dispõem menos de outros recursos necessários ao seu crescimento, como a água ou os nutrientes, sobretudo o fósforo.”
Esta fertilização por efeito do CO2 é a principal justificativa (cerca de 70%) para o reverdecimento da Terra. Além dela, o estudo identifica as alterações climáticas (8%), o nível de nitrogênio na atmosfera (9%) e as alterações no uso dos solos (4%) como outras razões de peso para avaliar o crescimento da vegetação a nível planetário. 

Fonte: Agência Brasil

segunda-feira, 25 de abril de 2016

Mudanças climáticas ameaçam sobrevivência de árvores gigantes e antigas


As mudanças climáticas e os fenômenos meteorológicos extremos ameaçam a sobrevivência das florestas de árvores gigantes e antigas, ao limitarem sua capacidade de adaptação às mudanças, diz um relatório publicado no sábado (23 abril 2016).
Algumas das maiores e mais velhas árvores do mundo já estavam no planeta quando a maior parte dos humanos vivia literalmente na Idade da Pedra. Mas um conjunto de ações humanas, como o corte, a degradação de ecossistemas e agora a mudança climática está acabando com os exemplares mais antigos de sequoias, eucaliptos de 100 metros e árvores tão mágicas como o baobá. O pior é que já não existem as condições para que as plantas mais jovens alcancem a altura e a idade de suas antecessoras.
“As árvores gigantes e antigas necessitam de longos períodos de estabilidade para sobreviver, o que está se transformando em algo muito raro em um mundo que muda rapidamente”, alertou o coautor da pesquisa, Bill Laurance, em comunicado da Universidade James Cook, na Austrália.
Cientistas da Universidade James Cook e da Universidade Nacional Australiana (ANU, sigla em inglês) que participaram da pesquisa revelaram que as condições que permitem que as árvores alcancem grandes dimensões estão mudando.
“As árvores gigantes antigas são suscetíveis a uma infinidade de ameaças, incluindo o desmatamento, a poda, a agricultura, as secas, os incêndios, as tempestades, as espécies invasoras, o desenvolvimento de infraestruturas feitas pelo homem e as mudanças climáticas”, segundo o estudo.
Vários cientistas consideram que o aumento do nível de CO2 atmosférico beneficiaria essas árvores, ao fertilizá-las e aumentar sua taxa de crescimento, mas outros acreditam que as mudanças climáticas agravariam a intensidade de tempestades e secas, e favoreceria a expansão de formas de vida que estrangulariam essas plantas.
No entanto, segundo o coautor do estudo, David Lindenmayer, da ANU, o risco é que “muitas árvores gigantes antigas ampliariam suas taxas de crescimento, e elas já vivem perigosamente no limite em termos do uso de água disponível e a vulnerabilidade às secas”.
A pesquisa focou em árvores que estão entre as 5% maiores dentro de suas espécies, entre elas a sequoia gigante, da Califórnia, (Sequoia sempervirens), que pode atingir mais de 115 metros de altura. 

Fonte: Terra

sexta-feira, 22 de abril de 2016

Dia da Terra: Coisas que você precisa saber sobre esta data


Talvez você nem saiba, mas o dia 22 de abril é mundialmente o Dia da Terra e, para comemorar a ocasião, organizações de todo o planeta se mobilizam na data para plantarem árvores e discutirem temas relacionados ao meio ambiente de uma forma geral. Confira algumas curiosidades sobre a data e o que ela representa.
A data - Um grande acidente com óleo na Califórnia, em 1969, trouxe à tona, não apenas nos EUA, mas em todo o mundo a necessidade de nos preocuparmos mais com o meio ambiente, e, com base nos movimentos antiguerra que existiam no momento, o dia 22 de abril do ano seguinte ao acidente ambiental acabou sendo escolhido como o Dia da Terra.
No primeiro dia, 20 milhões de norte-americanos foram às ruas - A data já nasceu com milhões de adeptos preocupados com o futuro do planeta. Nesse dia, estima-se que 20 milhões de norte-americanos tenham protestado, feito manifestações e promovido eventos que pretendiam conscientizar a população. Em Nova York, a eletricidade chegou a ser cortada em várias regiões, e em uma das manifestações um carro, símbolo de poluição, foi completamente destruído.
No início, a ideia era mobilizar universitários - Por causa da mobilização que muitos estudantes haviam feito em decorrência da Guerra do Vietnã, acadêmicos de Harvard foram chamados para promover a data. O dia 22 de abril é quando a maioria dos campi universitários dos EUA está entrando no Spring Break, que é uma semana de férias no início da primavera.
A data foi recebida com críticas também - Grupos conservadores se opuseram à criação do Dia da Terra, argumentando que a ocasião era uma forma velada de celebrar o aniversário de Vladimir Lenin. Entre outros argumentos, estava o de que a data era uma desculpa para não tratar de assuntos mais importantes e de permitir que empresas não engajadas ambientalmente pudessem parecer “boazinhas” uma vez ao ano.
Mudanças de opinião - Em 1970, 25% dos norte-americanos se posicionaram a favor da instauração de políticas ambientais – um aumento de 2.500% em relação ao ano anterior! Apenas oito meses após o primeiro Dia da Terra o então presidente norte-americano Richard Nixon aprovou a criação da Agência de Proteção Ambiental.
A data se tornou internacional - Em 1990, o Dia da Terra passou a ser celebrado em todos os países do mundo, com 141 nações efetivamente envolvidas. Uma década depois, na virada do milênio, o Dia da Terra se tornou um movimento emergente e adotado, agora, por 184 países e contando com a ajuda de 5 mil organizações ambientais. Depois de 40 anos de sua implantação, a estimativa é de que o Dia da Terra já tenha mobilizado 1 bilhão de pessoas em todo o mundo, que participaram de diversas atividades.
Dia Internacional da Mãe Terra - Esse foi o nome dado em 2009 pela Assembleia Geral das Nações Unidas, que acrescentou o termo “mãe” como símbolo do nosso planeta.
Até a NASA colaborou - Durante a missão lunar Apollo 14, em 1971, o astronauta Stuart Roosa levou consigo para o espaço uma série de sementes que, depois de seu retorno, foram germinadas e plantadas com sucesso em torno de alguns monumentos dos EUA e de outros países.
Temas - Em 2016, o tema do Dia da Terra são as árvores, e a ideia é plantar 7,8 bilhões de árvores ao longo dos próximos cinco anos. Só para você ter ideia, um acre de árvores absorve a mesma quantidade de dióxido de carbono produzido por um carro que tenha percorrido 42 mil km. Em 2011, foram plantadas 1 milhão de árvores no Afeganistão.
Acordos - Hoje, em Nova York, 150 países devem assinar o acordo sobre mudanças climáticas, que foi proposto em Paris no último ano, durante a COP 21. O Brasil está entre eles. Esse documento prevê o compromisso de países considerados grandes responsáveis pela emissão de poluentes – China, EUA, Índia e Japão, por exemplo – em reduzirem os impactos e, dessa maneira, evitar que a temperatura do planeta suba mais do que 1,5 °C. No Brasil, o Fórum de Mudanças Climáticas e Justiça Social trabalha em parceria com as metas criadas pelo Dia da Terra.
- Talvez um dia seremos a Terra, seremos o humos, seremos humanos que necessitam da Terra para viver. Por isso devemos apreender a viver com ela sem destruí-la, pois dela dependemos, pois dela nos transformamos em humanos, humos da Terra - (Paulo Bassani)
- Todos os homens que não cuidam do planeta passam a sua pobre vida a procurar outro, por não ser capaz de mudar seu rumo e corrigir seus erros - (Luiz Henrique)
E VOCÊ
- Deixamos uma pergunta onde cada um possa responder em sua sinceridade pessoal –
Você faz a sua parte para proteger o Meio Ambiente? 

quarta-feira, 20 de abril de 2016

Da mesa ao campo uma revolução em movimento


Destacamos a busca por um outro modelo de desenvolvimento da vida no campo e o seu maior desafio: como viabilizá-lo em grande escala? A opção alimentar não é apenas uma escolha individual, é um ato político. Já existe uma rede voltada para transformar essas relações de consumo.
Essa pergunta remete às escolhas individuais; aos hábitos e cultura alimentar refletidos no cotidiano. A cada vez que servimos uma refeição, em nosso prato está um espelho da disputa de modelos de produção que hoje coexistem no campo.
Ao cozinhar menos em casa, comprometemos a identidade cultural e alimentar, aumentando a dependência dos alimentos industrializados e ultra-processados. Algumas regiões tornam-se “desertos alimentares”, áreas em que o acesso a alimentos frescos e saudáveis, como frutas e verduras, é escasso. O alarmante e crescente índice de obesidade em todas as classes sociais manifesta-se principalmente em grupos vulneráveis como as crianças e os jovens.
Em contraponto, a diversificação alimentar, a redução ou eliminação dos agrotóxicos nos processos produtivos, a interpretação da rotulagem das embalagens são alguns dos movimentos que já estão à disposição e podem se expandir na medida em que cresce a consciência por uma alimentação mais saudável e em equilíbrio com o ambiente.
A sociedade entende cada vez mais que a saúde, vista de forma integral, parte da alimentação. As prateleiras de orgânicos são cada vez mais comuns, grandes redes de fast-food encolhem, o mercado mundial de refrigerantes começa a ser mais restrito e as marcas de produtos naturais se diversificam. O açaí abriu espaço para o cupuaçu e a graviola. Observamos cada dia mais exemplos como esses.
Essa dinâmica, resultado da visão ampliada da integração dos conceitos de saúde e alimentação, abre espaço para as agroflorestas, o extrativismo, o cooperativismo, a agricultura familiar. Todos, sistemas de produção mais alinhados às crescentes exigências da agenda ambiental, socialmente mais relevantes, e alinhados aos ciclos da natureza.
O ponto de tensão para que esses hábitos ganhem escala é o preço. A grande indústria de alimentos foi desafiada a encontrar maneiras rentáveis e escaláveis de atender à demanda crescente de qualidade de vida.
Diante disso, as questões que se colocam são: o que pode expandir esta mudança tornando-a mais inclusiva? Quais práticas já em curso tornam viável esse outro modo de produzir e consumir alimentos?
No arranjo institucional, exemplos reais de avanço nessa direção são o Programa Nacional de Alimentação Escolar (PNAE) e o Guia Alimentar para a População Brasileira do Ministério da Saúde. O PNAE define a origem de parte da compra como proveniente da agricultura familiar dando preferência aos orgânicos, e o guia qualifica os alimentos ultraprocessados como prejudicais à saúde.
Outros exemplos mais difusos também nos levam a mudanças de comportamento: na sociedade e nos movimentos ativistas, o slow food, vegetarianismo, o ambientalismo, o comércio justo, a nova economia, são ícones entre diversas outras formas de manifestação. Destaca-se ainda o papel dos nutricionistas, ao produzir e divulgar informações valiosas que viralizam por todos os meios de comunicação.
Existem ainda práticas de fronteira que indicam caminhos para reconfigurar inteiramente a relação entre o campo e a mesa, e podem referenciar um outro modo de relação entre o campo e a cidade. Um exemplo são as CSAs – Comunidades que Suportam Agricultura – que formam associações diretas entre o consumidor e o produtor, têm se difundido pela Europa e começam a se desenvolver no País.
Existe uma rede que organiza uma revolução alimentar e, por sua vez, modifica positivamente nosso vínculo com a vida no campo. O próximo passo para fortalecê-la é expandir essa mudança de consciência com uma compreensão ampliada da responsabilidade de nossas escolhas de consumo.
Olhando para a frente, mais do que interpretar os rótulos das embalagens, precisamos aprender a fazer escolhas que consideram, na íntegra, o processo da viagem do alimento da fazenda ao nosso prato. Para chegar aqui, este produto gastou carbono em excesso? Maltratou pessoas e animais? Destruiu florestas? Fez propaganda enganosa?
Promover a sustentabilidade no campo e em nossas vidas requer mudanças coletivas de comportamento. A opção alimentar é mais que uma escolha individual: é um ato político.  

Fonte: Eduardo Rombauer - Gerd Sparovek - Organização Novos Urbanos

terça-feira, 19 de abril de 2016

ESTRATÉGIA NACIONAL PARA REDUZIR EMISSÕES DE GASES DE EFEITO ESTUFA POR DESMATAMENTO E DEGRADAÇÃO


Somos sempre relembrados de metas que o Brasil, precisa alcançar. Vejo certos assuntos e certas questões sempre por alguns ângulos. Podemos ser otimistas ou pessimistas. Prefiro ainda acreditar que terá uma mudança.
Compromissos do Brasil no controle às mudanças climáticas e propostas absolutas para atingir a meta (Fonte: Unisafeconsultoria):
* Atingir uma participação de 45% de energias renováveis na matriz energética brasileira até 2030.
* Expandir o uso de fontes renováveis, excetuando energia hídrica, para uma participação de 28% a 33% na matriz energética brasileira até 2030.
* Aumentar a participação de bioenergia para 18% na matriz energética brasileira até 2030.
* Ter ganhos de eficiência de 10% no setor elétrico até 2030.
* Zerar o desmatamento ilegal na Amazônia até 2030.
* Restaurar 12 milhões de hectares de florestas até 2030.
* Restaurar 15 milhões de hectares de pastagens degradadas até 2030.
* Inserir 5 milhões de hectares de integração lavoura-pecuária-floresta (ILPF) até 2030.
RELEMBRANDO - Instituída pelo Decreto nº 8.576/15, a Comissão Nacional para REDD+ (CONAREDD) se reuniu no último dia 8 de Abril 2016 para definir como fará para coordenar, acompanhar e monitorar a implantação da estratégia Nacional para REDD+.
Com um nome extenso, a Estratégia Nacional para Redução das Emissões de Gases de Efeito Estufa Provenientes do Desmatamento e da Degradação Florestal, Conservação dos Estoques de Carbono Florestal, Manejo Sustentável das Florestas e Aumento de Estoques de Carbono Florestal (ENREDD+) tem pela frente inúmeros desafios.
O primeiro deles é ajudar o país a internalizar o mecanismo chamado REDD+, criado no âmbito da Convenção do Clima da ONU, para incentivar economicamente os países em desenvolvimento a reduzirem as emissões de gases de efeito estufa provenientes do desmate e degradação das florestas e aumentarem seus estoques de carbono. O manejo sustentável de florestas também faz parte da ideia.
Uma vez verificados e comprovados, os resultados positivos obtidos pelos países os credenciarão a receber recursos financeiros de fontes internacionais, em especial o Fundo Verde para o Clima (GEF, na sigla em inglês). Antes, porém, os países interessados em obter as vantagens do REDD+ precisam demonstrar que têm capacidade de mensurar o que se passa na floresta.
O BRASIL JÁ MOSTROU QUE CONSEGUE - O país é o primeiro a ser reconhecido internacionalmente para pagamentos por resultados de REDD+ pela Convenção do Clima. As políticas de combate ao desmatamento e o mecanismo de fiscalização e controle já consolidados ajudaram a credenciar o país.
METAS BRASILEIRAS - Faz parte da estratégia, aprimorar o monitoramento e a análise de impacto das políticas públicas para o alcance dos resultados de REDD+ e contribuir para frear o aquecimento global. A ENREDD+ também deve integrar as estruturas de gestão do Plano Nacional sobre Mudança do Clima e dos Planos de Ação para Prevenção e Controle do Desmatamento nos biomas, à luz das políticas voltadas para as mudanças climáticas, a biodiversidade e as florestas nos níveis federal, estadual e municipal. A estratégia contribuirá, ainda, para mobilizar recursos internacionais em escala compatível com a meta nacional voluntária de corte de emissões. O REDD+ é uma das oportunidades para o Brasil promover o desenvolvimento sustentável e estimular a economia florestal, com vistas ao cumprimento do Acordo de Paris (COP21).
“Odeio desacreditar nas pessoas, desacreditar na boa vontade e no caráter. Tudo na vida é difícil, desde que a compreensão e a boa vontade não sejam utilizadas. Realizar algo com boa vontade, por mais que exista reprovação a curto prazo, em algum momento da vida teremos a certeza de que fizemos o que deveria ser feito. O que não devemos fazer é procurar atalhos a fórmula, e a fórmula é a seguinte: Trabalho+Dedicação+Boa Vontade = SUCESSO, “sempre”.

Fonte: WWF e Luiz Henrique Lopes

segunda-feira, 18 de abril de 2016

DESMATAR OU REAPROVEITAR ÁREAS


Recentemente em um simpósio (Abril 2016) sobre solo e agronegócio, fiquei perplexo ao ver em “número” o tamanho de áreas que podem ser reutilizadas se “conscientemente” o homem parar com o avanço do desmate para criar novas áreas e fazer as devidas correções nestas áreas. Segue a informação:
Brasil e seus desafios - O Brasil tem 236 milhões de hectares agricultáveis, onde mais de 100 milhões de hectares de áreas de produção agropecuária estão em algum estágio de degradação, ou seja, aproximadamente 50% da área total agricultável nacional. (Unisafeconsultoria)
Compreender o assunto
O solo é um dos elementos naturais mais importantes, uma vez que todos os seres vivos estão sobre ele. Todo sustento humano é retirado desse recurso. Ao degradar-se, o solo perde sua capacidade de produção. O termo degradação do solo é meio amplo, mais consiste em tudo aquilo que está relacionado com a destruição do solo, por exemplo, a erosão, o empobrecimento do solo, a contaminação e a desertificação é considerado um dos problemas mais graves decorrentes da degradação do solo.
Geralmente ocorre em áreas de monocultura, de desmatamento e áreas desérticas. A degradação do solo é um processo natural e importante para a formação dos relevos, quando é resultado do transporte do solo pela água, vento ou gelo. O problema ocorre quando há intervenção humana, com a destruição de florestas, o uso de agrotóxicos, uso agrícola intensivo, a expansão desordenada das cidades ou as poluições orgânicas e industriais, que levam a uma erosão mais severa.
O solo perde sua capacidade de produção afetando a produção de alimentos, a contaminação dos lençóis freáticos. Apesar da extrema importância que o solo desempenha, o seu uso realizado de forma inadequada facilita o aparecimento de vários problemas.
Esgotamento dos solos: o crescente aumento das erosões é resultado da forma equivocada de plantio desenvolvida por muitos agricultores ao longo do território brasileiro, isso tem transformado grandes áreas produtivas em solos inférteis.
Lixiviação: termo usado para designar um processo que ocorre quando as águas da chuva realizam uma espécie de “lavagem” do solo, retirando um elevado percentual de nutrientes, tornando-o menos fértil. Em decorrência desse fato, faz-se necessária a aplicação cada vez maior de fertilizantes.
Laterização: é um processo que acontece em lugares nos quais predominam duas estações bem definidas (seca e chuvosa). Essa característica favorece a concentração de hidróxido de ferro e alumínio no solo. A concentração desses minerais forma a laterita, que torna difícil o manejo do solo em virtude do surgimento de uma ferrugem por cima dele, deixando-o mais duro.
Degradação biológica: redução do conteúdo de matéria orgânica, declínio da biomassa de carbono, e a diminuição da atividade e diversidade da fauna do solo são consequências da degradação biológica dos solos. Devido às temperaturas elevadas do solo e do ar, a degradação biológica é mais severa nos trópicos que nas zonas temperadas. A degradação biológica pode ser causada também pelo uso indiscriminado de agroquímicos e poluentes do solo.
Degradação química: a depleção de nutrientes é a maior causa da degradação química. Além disto, a excessiva lixiviação de cátions em solos com argilas de atividade baixa causa a diminuição do pH do solo e a redução da saturação por bases. A degradação química também é causada pelo aumento de alguns elementos tóxicos e desequilíbrio dos elementos, que prejudicam o crescimento das plantas.
Existem vários fatores que iniciam vários dos processos de degradação. Estes fatores podem ser naturais ou antropogênicos. Fatores naturais incluem o clima, a vegetação, material de origem, relevo e hidrologia. Entre os fatores antropogênicos importantes encontramos a população, o uso da terra, e o desenvolvimento de estradas, canais, e o complexo industrial.
Compactação
A habilidade das plantas para explorar o solo e obter nutrientes e água está relacionada à estrutura das suas raízes. E a distribuição das raízes no perfil do solo está relacionada às condições físicas e químicas do solo, que podem ser manipuladas através do manejo. Porém quando o manejo do solo ocorre de forma inadequada gera o problema da compactação. Para obter a condição ideal na camada superficial do solo são usadas máquinas pesadas. E o tráfego desses veículos faz com que as características químicas e principalmente as características físicas da camada mais superficial do solo sejam alteradas devido à pressão As consequências negativas desse processo de compactação do solo são: diminuição da troca gasosa; limitação do movimento dos nutrientes no solo; diminuição da taxa de infiltração de água; aumento da erosão hídrica.
Os sintomas de solos compactados são a formação de poças nas depressões do terreno; erosão hídrica com o impacto das gotas de chuva que podem levar à formação de sulcos e voçorocas; necessidade de maior potência das máquinas para preparar o solo; plantas com raízes superficiais e mal formadas; demora na emergência das plântulas; padrão irregular de crescimento das plantas; e folhas com coloração não característica.
Erosão
A erosão é a destruição do solo e seu deslocamento, pelo movimento de agentes físicos (água da chuva, vento, gelo, ondas, gravidade). O tipo mais comum de erosão, e mais diretamente associado à agricultura, é a erosão hídrica causada pela água da chuva. A erosão, além de destruir a estrutura do solo, também causa o assoreamento, que é o acúmulo de partículas do solo nos leitos dos rios e lagos. Vamos compreender porque a agricultura extensiva pode estar diretamente associada à erosão. A superfície dos solos usados na agricultura era naturalmente coberta pela vegetação típica do local. Se, no local, havia muita vegetação e de tipos variados, o impacto da chuva era atenuado, porque a velocidade da água diminuía com os obstáculos (as diversas estruturas das plantas que formavam degraus). Além disto, os variados tipos de raízes davam sustentação mecânica ao terreno. O uso de técnicas agrícolas inadequadas, que promovem o desflorestamento de áreas extensas para ser ocupadas por plantações alteram as características da vegetação natural e podem interferir nos fatores de absorção de água pelo solo. A agricultura extensiva e mal planejada é, portanto, mais um fator de erosão hídrica. Outros fatores de erosão hídrica são desmatamento para a extração de madeira, pecuária e a urbanização. A primeira ação da chuva nos solos sem cobertura vegetal se dá pelo impacto das gotas de chuva, que desagregam os torrões do solo e levam o material mais fino para longe. A força do impacto das gotas de chuva também diminui a porosidade do solo, o que é chamado de selagem. A selagem aumenta o fluxo superficial da água e a erosão. A erosão pode ocorrer com o transporte uniforme das partículas pelas águas pluviais ou com a formação de canais definidos, que podem se tornar voçorocas. Mas as voçorocas também podem ser formadas devido à ação das águas subterrâneas. É necessário considerar as características físicas dos terrenos (tipo de solo, declive, hidrografia); o regime de chuvas da região e a cobertura vegetal de modo a preservar os solos da erosão hídrica.
Queimadas
As queimadas são uma técnica agrícola muito antiga e muito usada para preparar o solo para agricultura. Normalmente é eficiente, rápida e de baixo custo, quando comparada a outras técnicas agrícolas. No entanto, as queimadas geram também muitos prejuízos e riscos. As queimadas intencionais para fins agrícolas e as queimadas acidentais causadas por negligência são muito prejudiciais ao ambiente. Sua recorrência devido à ação do ser humano elimina extensas coberturas florestais, inclusive de reservas ambientais. As queimadas tem consequências também para o próprio solo, uma vez que eliminam bactérias e outros microrganismos que compõem a microfauna do solo.
Preservação dos Solos
Até aqui vimos alguns problemas decorrentes do manejo inadequado. Agora vamos conhecer algumas técnicas de preservação do solo que visam preservar sua fertilidade, através do conhecimento dos processos físicos, químicos e biológicos que ocorrem naturalmente nos solos.
Adubação verde - Adubação verde significa cultivar algumas plantas que depois serão incorporadas ao solo, através da decomposição. Isso enriquece os solos com os minerais que as plantas cultivadas necessitam para seu bom desenvolvimento. A adubação verde evita ainda o desenvolvimento de ervas daninhas. As plantas cultivadas para adubação verde são geralmente as leguminosas e outras plantas associadas às bactérias fixadores de nitrogênio. As plantas utilizadas na adubação verde evitam que as gotas de chuva caiam diretamente sobre o solo. Com isso evitam a erosão e o lixiviamento. O lixiviamento consiste na lavagem do solo pelas águas das chuvas de enxurradas, que levam os minerais dissolvidos no solo para outros terrenos e para os rios, lagos e águas subterrâneas. Portanto, o solo tratado com adubação verde fica mais rico em nutrientes, especialmente em nitrogênio, menos suscetível à erosão, ao lixiviamento e às pragas.
Reflorestamento - O reflorestamento consiste na plantação de árvores em regiões que sofreram desmatamento e que correm risco de erosão. O eucalipto e o pinheiro são árvores muito utilizadas no reflorestamento, pois firmam a terra com suas raízes, que também absorvem parte da água. O reflorestamento traz vários benefícios, tais como: filtram os sedimentos; protegem as beiras de rio; aumentam a porosidade do solo devido à presença de raízes profundas e volumosas; diminuem o escoamento superficial da água pelo solo; permitem a criação de refúgios para a fauna; podem gerar fonte de energia, através da lenha produzida. O reflorestamento pode ser feito em faixas, intercalando-se com culturas anuais. Essa prática favorece a fertilidade natural do solo, que fica rico em nutrientes, e também o protege de ação prejudicial de agentes físicos, especialmente a água.
Plantação em curvas de nível - Curva de nível é uma linha imaginária que une os pontos de mesma altitude de uma região. O plantio em níveis cria obstáculos à descida das águas de enxurradas, o que diminui a velocidade de arraste das partículas do solo e aumenta a infiltração da água no terreno.
Consórcio de culturas - Consórcio de cultura é o plantio de diversas espécies vegetais ao mesmo tempo em um terreno. A diversidade diminui o risco de pragas ou doenças e mantém o ambiente em maior equilíbrio, com características mais próximas ao original. O consórcio inclui leguminosas e outras plantas que servem como adubo verde, fertilizando o solo. Outros fatores como Integração da produção animal e Agrofloresta contribuem para uma melhor conservação dos solos.
Recuperação de solos - O manejo sustentável de recursos naturais envolve o conceito de “usar, melhorar e restaurar” a capacidade produtiva e os processos de suporte da vida do solo, o mais básico de todos os recursos naturais. O objetivo não é só minimizar a degradação do solo, mas reverter às tendências através de medidas de recuperação do solo e manejo de culturas. A qualidade do solo e a sua capacidade produtiva devem ser incrementados além da preservação através de medidas de reconstrução do solo, por exemplo, prevenindo a erosão do solo e melhorando a profundidade de enraizamento do solo, “reabastecendo” o solo com nutrientes extraídos durante as colheitas de culturas ou produção animal através do uso correto de adubos minerais e orgânicos e práticas efetivas de ciclagem de nutrientes, incrementando a atividade biológica da fauna do solo, e melhorando o conteúdo de matéria orgânica do solo. O uso da terra e o sistema de manejo adotado deve ser “restaurador ou recuperador do solo” ao invés de “esgotador do solo”, “esgotador de fertilidade” e “degradador do solo”. Além disto, o solo não deve ser utilizado como uma área para depósito de lixo tóxico. Apesar de o solo apresentar uma resiliência intrínseca, existe um limite de abuso que o solo pode suportar.
FINALIZANDO
"Cabe ao homem compreender que o solo fértil onde tudo que se planta dá, pode secar. Que o chão que dá frutos e flores pode dar ervas daninhas. Que a caça se dispersa e a terra da fartura pode se transformar na terra da penúria e da destruição. O homem precisa entender que de sua boa convivência com a natureza depende sua subsistência e que a destruição da natureza é sua própria destruição, pois a sua essência é a natureza, a sua origem e o seu fim". 

Fonte: EMBRAPA – IAPAR - Herbes Araújo - Luiz Henrique Lopes

sexta-feira, 15 de abril de 2016

Brasil poderia produzir um terço de energia de Itaipu a partir do lixo


O Brasil tem potencial de produzir 37 milhões de megawatts de energia por meio do biometano, um gás que pode ser obtido a partir da degradação de materiais orgânicos presentes no lixo. Isso equivale a pouco mais de um terço da energia gerada por ano na usina hidrelétrica de Itaipu, no Paraná. Isso é o que indica um estudo feito pela Abiogás (Associação Brasileira de Biogás e Biometano).
O curioso é que o biometano já é produzido no Brasil e desperdiçado – em aterros sanitários, é comum ver tubulações para a saída dos gases. E pior, o gás (CH4) é 21 vezes mais poluente do que o gás carbônico (CO²) e, mesmo assim, é emitido na atmosfera. A sua utilização como fonte de energia eliminaria esse problema ambiental.
“O biometano pode ser usado como fonte de energia para produzir energia elétrica através de um gerador, pode ser usado como combustível veicular exatamente da mesma forma como o gás natural. E também pode ser usado em caldeiras, produzindo calor”, explica o pesquisador Odorico Konrad, professor da Univates e doutor em Engenharia Ambiental e Sanitária pela Universidade de Leoben, na Áustria.
Nas contas da Abiogás, a produção anual de biometano poderia chegar a 23 bilhões de metros cúbicos no Brasil. A maior parte, 12 bilhões de metros cúbicos, viria de resíduos da cana-de-açúcar usada na produção do álcool. Outros 8 bilhões de metros cúbicos seriam produzidos com rejeitos agrícolas e dejetos de animais como porcos, bovinos e aves. E, finalmente, 3 bilhões de metros cúbicos, oriundos do saneamento urbano, ou seja, do lixo orgânico e dos esgotos domiciliares e industriais.
No entanto, hoje em dia o uso do biometano como fonte de energia é quase inexistente. De acordo com a Agência Nacional de Energia Elétrica (Aneel), o Brasil usa pouco mais de 0,05% do gás na matriz energética.
E por que não usamos
Os problemas, segundo o presidente da Abiogás, Cícero Bley Jr, são vários. Por ausência de normas não há confiança no biometano – o que ele considera um erro – e o modelo de produção de energia por biometado é descentralizado, o oposto do utilizado nas outras fontes energéticas.
“As empresas de distribuição de energia têm um encaminhamento para grandes negócios de energia. O biogás não se aplica dessa maneira. Está colocado no território de maneira descentralizada. Isso é difícil para o setor elétrico nacional.”
O biometano seria um negócio de pequenos investidores, pois seriam necessários biodigestores próximos aos locais onde estão os resíduos. O professor Konrad cita como exemplo o caso alemão. “A Alemanha tem hoje mais de 8.000 biodigestores instalados produzindo energia.”
Bley lembra que, por não ser negócio grande, o biometano “fica fora das grandes discussões do governo”.
Investimento
De acordo com o estudo da Abiogás, o custo desta forma de energia é de 30% a 40% mais baixo do que o que atualmente gastamos. Para se ter uma ideia, a produção de 1 megawatt de energia com biometano custa R$ 2,5 milhões, contra R$ 3 milhões com uma microcentral hidrelétrica e R$ 5 milhões com a solar.
Os custos de implantação de um biodigestor varia conforme o volume de gás a ser produzido, afirma Bley. O retorno do investimento, segundo ele, se dá em um período entre cinco e sete anos.
Aos poucos, e com iniciativas independentes, o biometano vai sendo utilizado no país. Recentemente, um ônibus foi movido em Itaipu com biogás gerado por galinhas.
“Percorremos 3 mil km com esse combustível. Vindo de 100 km de distância de Itaipu. Esse ônibus com motor a 100% de biogás andou sem nenhum problema. Itaipu comprou 40 carros Siena tetrafuel, disponível no mercado, com gás natural comprimido. Em vez disso, colocamos o biometano comprimido”, contou Bley. 

Fonte: UOL